A fé move montanhas. Em Fátima, também de dinheiro
Ourém capta mais de 60 milhões de euros por ano com alojamento, a maior parte de peregrinos católicos
Fátima é um destino no qual a fé e a economia se entrelaçam de maneira inseparável. Em 2024, o Concelho (município) de Ourém recebeu 762.362 hóspedes e registrou 1.255.757 diárias, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).
Na Freguesia (distrito) de Fátima, 6,2 milhões de pessoas participaram de pelo menos uma celebração religiosa no período. Isso equivale a mais da metade da população de Portugal. Entre os visitantes, 61,15% foram estrangeiros, com destaque para Espanha, Coreia do Sul, Estados Unidos, Polônia e Brasil. Foram 38.876 os brasileiros que se hospedaram na região, turbinando a arrecadação de hotéis, restaurantes e lojas.
O turismo religioso é o motor que mantém viva a cidade. Entre missas, procissões e visitas aos espaços museológicos, Fátima se transforma, especialmente nos meses de maio, setembro e outubro, ápice das peregrinações, de acordo com dados do Turismo do Centro de Portugal. O impacto da fé molda a rotina de quem vive no local.
Um grupo de 32 pessoas da Obra de Maria — associação privada de missionários, padres e outros fiéis —, vindo do Brasil, exemplifica essa interseção entre devoção e economia. A maioria é de Montes Claros (MG). Cada um pagou 20 mil reais para seguir o roteiro de 12 dias, que de Fátima seguiria em ônibus para outros destinos marianos em Braga, Santiago de Compostela e Paris.

“É um alimento para a alma, uma fonte de alegria”, descreve Ionete de Magalhães Souza, 59 anos, que se orgulha da vocação de fé desde criança.
Em Fátima, Ionete compra lembranças e presentes para familiares, amigos e para si, claro. O singelo hábito impacta fortemente a economia local. Segundo o INE, a esmagadora maioria das receitas na cidade é gerada pela religiosidade: 60,4 milhões de euros em alojamento turístico em 2024.
Dados da Sociedade Interbancária de Serviços (SIBS) revelam um gasto médio nos pagamentos por cartão de crédito em Ourém na base de 50,4 euros. Ou seja, cada vez que o visitante paga uma conta de hotel, refeição ou compra de lembrança, esse é o valor médio. No caso do alojamento, cada operação atinge em média 91,07 euros; nas agências de viagem, 51,27 euros; e em restaurantes, 37,26 euros.
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Se os peregrinos são a alma do turismo religioso, os comerciantes são o sustento. José Dias da Conceição, dono do Centro Comercial de Fátima, mantém um negócio familiar que atravessa mais de quatro décadas. A loja divide espaço com uma fábrica de produção de materiais religiosos, onde trabalham funcionários que estão lá desde o início. “Sou um bom patrão”, brinca José Dias, orgulhoso de manter tradições e empregos.
Tudo começou com a fábrica de tecidos do pai, um dos treze sócios que deram origem ao negócio. “Depois, compramos a parte dos sócios, e o negócio virou, de fato, de família”, recorda. A loja oferece mais de 300 mil artigos, entre terços, medalhas, imagens e lembranças de variados valores, e exporta para Itália e Inglaterra.

O movimento de clientes varia conforme o calendário das peregrinações. Em janeiro e fevereiro, meses mais fracos, atendem 30 a 40 pessoas por dia; no pico, a média sobe para 300, e o restaurante do grupo chega a receber 500 pessoas. As mudanças nos transportes internacionais também impactam as vendas: a redução da bagagem permitida para brasileiros, de 32 para 23 quilos, reduziu o volume de compras.
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Há eventos especialmente favoráveis, como a visita do papa, em 2017, que provocou fluxos recordes de peregrinos, e outros de triste memória, como a pandemia. Em 2024, Fátima registrou um aumento de 9,03% no número de dormidas em relação a 2023, confirmando a recuperação e sinalizando um caminho de expansão. A aposta do Turismo do Centro de Portugal passa por diversificar a oferta, reduzir a dependência das grandes datas de peregrinação e atrair públicos além dos religiosos.
Fátima em números
Hóspedes em alojamentos turísticos: 762.362
Pernoites em alojamentos turísticos: 1.255.757
Participantes em celebrações religiosas: 6,2 milhões
Estrangeiros entre os hóspedes: 61,15%
Principais nacionalidades: Espanha, Coreia do Sul, EUA, Polônia, Brasil
Brasileiros em Ourém: 38.876 hóspedes
Peregrinações
Missas: 2,7 milhões de participantes
Rosário e Procissão de Velas: 1,3 milhão
Visitas a museus religiosos: 1 milhão
Meses de maior afluência: maio, setembro e outubro
Estrutura de alojamento
Hotéis: 63
Capacidade: 7.866 pessoas
Alojamentos locais (simples): 281
Capacidade: 3.406 pessoas
Taxa média de ocupação: 38,1%
Pico de peregrinações: muitos visitantes precisam se hospedar em concelhos vizinhos
FONTE: Turismo do Centro de Portugal, com Censo de 2024
Essa matéria foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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