Cultura

“A gente tem que aprender a aceitar o não do outro”: Adriana Birolli reflete no palco e na vida

Em cartaz com o monólogo "Não", em Lisboa, atriz fala sobre os dilemas de impor limites, a força da comédia e os “sims” e “nãos” que moldam suas escolhas – no palco, na família e no amor.

Monólogo íntimo, gargalhadas certeiras e reflexão garantida: Adriana Birolli leva o público português a repensar seus limites e escolhas com o espetáculo “Não”. Crédito: Divulgação

Você tem dificuldade de dizer não? E de ouvir não?

Os desafios dessa palavra estão em cena com a atriz Adriana Birolli, que trouxe a Lisboa o seu monólogo “Não”. A comédia esteve em cartaz durante o mês de maio e segue em suas últimas sessões neste início de junho.

Ainda há chance de assistir: no dia 08 de junho, às 18h e às 20h, acontecem as duas últimas apresentações desta temporada lisboeta. “Não” está em cartaz no Teatro Armando Cortez.

Adriana interpreta uma mulher prestes a completar 36 anos que, pronta para sair e comemorar o aniversário, começa a refletir sobre a possibilidade de não comparecer.

A atriz ficou conhecida do grande público ao viver a espevitada Isabel na novela “Viver a Vida”, da TV Globo. Atuou também em “Fina Estampa”, “Império” e outros trabalhos na televisão.

Em entrevista à EntreRios, ela falou sobre os dilemas e os motivos que a levaram a pensar na montagem do espetáculo.

Conversamos também sobre carreira e vida pessoal. Fora dos palcos, a atriz de 38 anos acaba de dizer sim ao futuro marido, o diretor Ivan Zettel. O casal vai trocar alianças ainda este ano, no Rio de Janeiro.

Confira a entrevista com essa curitibana de sotaque carioca que adora praia, Portugal, vinho e pastel de Belém.

Com um texto afiado e entrega cênica poderosa, Adriana Birolli transforma a comédia em terapia coletiva. Crédito: Divulgação.

Quais são as suas impressões de Portugal?

Eu sou apaixonada por Portugal, porque eu acho que o brasileiro, quando chega em Portugal, realmente entende as suas raízes. Eu sinto muito isso.

A primeira vez que eu estive em Portugal, eu me senti nas minhas raízes. É muito próximo do nosso Nordeste. Eu gosto muito de Portugal, do povo português. E o jeito de falar do carioca, a gente entende de onde vem quando a gente vai para lá.

Você falou do jeito de falar carioca. Você tem um sotaque carioca, apesar de ser de Curitiba.

É que eu comecei a fazer teatro muito cedo, com oito anos. E desde então, trabalhando já uma maneira mais universal de falar. Então, quando eu cheguei no Rio de Janeiro, a única coisa que eu fiz foi mudar meu R na pronúncia.

Como foi sua chegada ao Rio de Janeiro?

Eu mudei para o Rio de Janeiro para fazer oficinas de atores da TV Globo em 2007. Depois eu fiz uma participação na novela “Beleza Pura”. Foi um personagem que era uma emo e ela entrou para fazer uma participação de uma semana, a autora adorou e ficou um pouco mais de um mês.

Foi muito bacana também, essa foi minha primeira experiência, o primeiro contato realmente com estúdios, com o funcionamento da televisão. E só depois, em 2009, que eu fiz o teste e entrei em “Viver a Vida”.

E agora, o espetáculo Não. De onde surgiu essa ideia? Você teve que dizer muitos “sims” querendo dizer “não”?

Como todos nós. Essa é uma questão muito ampla. Eu falo na peça sobre isso. Em alguns lugares da vida eu tenho mais facilidade em dizer não.

Por exemplo, para trabalho. Claro que teve situações de trabalho que eu acabei dizendo sim quando queria dizer não. Se eu parar para pensar, deve ter acontecido alguma coisa ou outra. Não por obrigações contratuais, porque nesse caso não é não saber negar. Teve provavelmente coisas menores que eu acabei fazendo.

Mas eu sempre tive mais facilidade em dizer não no trabalho por ter uma noção do que eu quero para mim.

Onde é difícil?

Família, por exemplo, sempre tive muitas dificuldades de dizer não. Pois daí envolve muita coisa, muito amor, muita reciprocidade, muita dívida pela nossa vida.

Afinal de contas, se não fossem pai e mãe, não estaríamos aqui. Então tem coisas que eu tenho mais facilidade, coisas que eu tenho mais dificuldade. Acredito que todo mundo seja assim.

Às vezes as pessoas acham que sabem dizer não, mas ela sabe dizer no trabalho, mas não sabe dizer em casa, ou sabe dizer para o companheiro ou companheira, mas não sabe dizer para os filhos, para os amigos. Acho que é muito amplo.

E de onde surgiu a ideia do espetáculo?

A ideia veio do Diogo Camargos, que é o autor e diretor do espetáculo. Ele tem um monólogo dele, que é o “Última Hora”, e quando eu assisti, eu pedi para ele escrever um para mim que tivesse também um tema universal e que fosse uma comédia, para que as pessoas se abrissem mais ao tema que a gente apresentasse.

Passou um mês, mais ou menos, ele veio com a ideia da dificuldade de dizer não. E eu achei maravilhoso. Além de eu ter, eu conheço muitas pessoas que têm, e fazendo o espetáculo agora, estou com a dimensão do quanto esse assunto é importante e relevante.

É uma provocação diferente?

Eu acredito que a comunicação na comédia é a melhor que tem. A gente tem a tendência a não querer comparar a nossa vida com um drama.

Mas quando a gente está assistindo a uma comédia, começa a se divertir, a gente tem mais facilidade em se abrir para se enxergar naquela situação.

E às vezes, até enxergar um problema que você não via, de uma maneira leve, você parar para pensar nisso. É uma provocação mais fácil de aceitar.

E a comédia é um registro profissional diferente para você?

É diferente! Para quem me vê na televisão, eu fiz pouca coisa. Eu fiz duas participações com comédia, que foi o “Vai que Cola”, do Multishow, e um programa que tinha na Globo, “Tomara Que Caia”. Mas em novelas, a Isabel, de “Viver a Vida”, trazia uma comicidade para aquele texto, que teoricamente não precisava ter.

Não era uma diretriz da personagem ter a comédia, mas sim uma decisão de caminho de construção por tudo que ela dizia. E acredito que o crescimento da personagem também se proporcionou muito por conta do humor que ela trazia. O público em casa se identificava com ela e se incomodava com alguma coisa.

Claro que o Maneco (Manoel Carlos) colocava essa provocação para incomodar o público. E aí a Isabel ia lá de uma maneira escrota, mas com comédia, e falava aquilo e o público dava risada. A comédia aconchega as pessoas.

Adriana Birolli reflete, com humor e sensibilidade, os dilemas que todos enfrentamos no palco do Teatro Armando Cortez, em Lisboa. Crédito: Divulgação.

E levar o espetáculo para outro país é um desafio de público também?

Então! Eu só tinha testado ele no Brasil. Quando comecei a ver a temporada para Portugal, eu conversei com várias pessoas para saber se isso era relevante, porque é uma questão muito cultural.

Se eu fosse para a Suíça, por exemplo, pode ser que esse tema não tivesse tanta relevância. Eu fiz uma pesquisa para saber, e as pessoas falaram que tem muita relevância, que tem tudo a ver.

O espetáculo aborda o “não” para os relacionamentos, mas aborda também o “não” sobre assédio?

Então, o espetáculo em si, não tem esse lugar de colocar numa voz. Apesar de eu ser uma mulher interpretando essa história, digamos, não precisaria ser.

O não é muito mais amplo, porque a gente tem muita essa coisa, “não é não” está muito ligado ao feminismo, digamos. Ele está dentro, porque está dentro de toda e qualquer dificuldade que você tenha de dizer não, em qualquer âmbito da vida.

O não, em todos os outros lugares, pode trazer problemas de saúde mental muito sérios. Então, é muito mais amplo do que um lugar só.

A gente não trabalha esse lugar específico do feminismo. É dentro de uma vida… O bacana do espetáculo é a universalidade. Qualquer pessoa, de criança a idoso, de qualquer opção sexual, vai se identificar. Porque não tem esse viés de pegar uma fatia do tema.

Como é a construção?

Dentro da história dessa personagem, que se questiona o não familiar, o não do trabalho, o não do relacionamento, o não de você para você mesmo, o dizer o não e o aceitar o não, que também a gente fala disso.

É muito importante ter consciência de que é muito fácil a gente se preocupar em aprender a dizer não, mas a gente tem que se preocupar em aprender a aceitar o não do outro. Se as pessoas aceitassem, nós não teríamos dificuldade de dizer. E se tem uma dificuldade que nós temos é de falar não. Até mesmo responder um simples convite de aniversário.

O papo da peça é muito esse. Começa falando de aniversário. A gente fala “talvez”, “não sei”, “vou tentar”, “vamos ver”… Porque se a gente disser não de cara, o outro se ofende.

Então, essa conversa que eu estou tendo com você é mais ou menos dessa forma que acontece na peça. Muito leve, muito tranquila e do mesmo jeito que daí eu comento uma coisa e você fala, “é porque isso”, “porque aquilo”.

É como vai acontecendo o raciocínio durante a peça. É como vai tendo a conversa minha com o público. É muito próxima, a conversa.

Essa proximidade só o teatro consegue. Ainda mais num monólogo.

Eu consigo ver o público muito durante o espetáculo. Eu consigo acompanhar a curva de raciocínio deles, as fichas caindo. Eu consigo ver quando a pessoa se identifica e entender quando ela achou que sabia dizer não e agora ela entendeu que não sabe.

Então, é muito íntimo, muito próximo nesse lugar. Por mais que eu faça teatros de 600 lugares, a conversa é íntima porque ela é muito cotidiana. Cada hora vai ter uma coisa que você vai decidir sim ou não e vai pensar duas vezes antes de dizer ou não. É um “orai e vigiai” eterno, digamos assim, aprender a dizer ou não.

E a receptividade do público como tem sido?

Há dois anos fazendo o espetáculo, é muito interessante ver a resposta do público, o quanto as pessoas me procuram para dizer que foi importante ouvir aquelas palavras e o quanto elas pararam para pensar depois.

Porque não é uma peça que você assiste e para pra pensar, mas é leve. Você pode comer uma pizza depois e não ser indigesto. É comédia, e quando você vê, você está falando de você e já está todo mundo fazendo uma terapia na pizza (risos).

É a função da arte, né? Provocar!

Então, isso é bacana. Acho que a função fundamental da arte é, claro, desopilar também, é rir a troco de nada, é tudo isso, mas a transformação para mim é fundamental no meu propósito enquanto artista.

E suas personagens provocam isso.

Na televisão também aconteceu muito. Eu tive o privilégio de fazer novelas muito boas, com temas muito relevantes. Meus personagens todos trouxeram debates e assuntos que pudessem transformar as pessoas.

A própria Isabel, que a gente estava comentando de “Viver a Vida”, recentemente uma pessoa me procurou e falou: “Olha, eu era a Isabel da minha casa. Quando teve a novela, todo mundo enxergou que aquilo acontecia comigo na minha casa e por causa disso fomos fazer terapia, por causa disso minha família passou a ter uma outra relação”.

Então, a transformação que a arte traz é o que há de mais maravilhoso.

Na sua vida pessoal, você disse sim para um casamento. Como foi esse pedido? Você já imaginava que aconteceria ou foi uma surpresa?

Eu acredito que os casais, assim como eu, vivem um movimento de vida que vai acontecendo. Lógico, eu não sabia o dia que ele me pediria, não sabia quando ia pedir, mas que ele já estava pensando nisso, imaginava, porque o nosso plano e projeto de vida estava se encaminhando para isso.

Mas o casamento, apesar de a gente dizer um sim na hora de aceitar, o casamento é a mesma coisa que o não. O casamento é todo dia entender os sims e os nãos desse casamento.

Eu disse um sim para um festejar a nossa alegria de estar junto. Mas todos os dias são dias de dizer sim novamente. Em todas as relações, e não só nas amorosas.

Então o casamento é esse ano? Vai ter festa?

Caso esse ano. Eu ainda tô num momento de decisões e vendo coisas. Mais uma produção (risos).

Não deixa de ser mais uma produção, né? Pra quem trabalha com eventos, claro que é mais especial, porque é totalmente seu, do seu marido. Então ainda estamos decidindo coisas, mas já sabemos que vamos casar no Rio de Janeiro no segundo semestre.

Adriana Birolli e Ivan Zettel em passeio por Óbidos. Crédito: Reprodução

Você trouxe o espetáculo para Portugal. Quais são seus próximos passos profissionais?

A gente encerra Portugal e depois eu continuo a turnê no Brasil até dezembro. E existe um projeto de audiovisual entrando, mas eu honestamente não acredito que vai acontecer esse ano. São muitos trâmites para acontecer.

E essa é a primeira experiência em Portugal, que eu acho que é um momento que a gente está feliz e grato também de estar conseguindo realizar. A ideia realmente é se preparar talvez para o ano que vem fazer não só Lisboa, e sim uma turnê maior em Portugal.

E a receptividade do público por aqui como tem sido?

O público português é muito carinhoso comigo. Meu Deus, é maravilhoso. Realmente é muito legal. E acho que eu consigo comparar com a receptividade que tive em Cuba também, que foi um lugar muito legal.

No tempo livre, o que você gosta de fazer?

Durante o dia, quando eu tenho o tempo livre, eu gosto de andar na praia, ir pra praia, fazer trilha, andar de bicicleta. Já na parte mais noturna, uma boa série, um bom filme, um bom livro e jogar baralho.

Gosta de vinho português?

Quem não gosta de vinho português? Eu adoro!

E comer quando está aqui?

Eu gosto de comer tudo, mas o que mexe com o meu coração e com a minha alma é o pastelzinho de Belém.

Jornalista com pós graduação em Marketing Digital. Atuou na TV Globo, Band, SBT, Record, TV Brasil e nas rádios Globo e CBN. Em Portugal apresentou telejornal para países lusófonos, na Banda TV. Foi repórter e colunista de cultura da Revista Brasil JÁ e atualmente assina a editoria de cultura da EntreRios.

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