Conheça o brasileiro que enfrentou a miséria, a pandemia e a falência até virar empresário em Portugal
Quando Otoniel Silva da Cruz chegou a Lisboa, vindo da Bahia, trazia no corpo a experiência de anos como massagista e, no bolso, cerca de 400 euros
Quando Otoniel Silva da Cruz chegou a Lisboa, no início de 2019, ele tinha menos certezas do que malas. Vinha da Bahia, trazia no corpo a experiência de anos como massagista e no bolso cerca de 400 euros. O plano era simples e temporário: trabalhar duas semanas em um evento de massagens, juntar algum dinheiro, viajar pela Europa e voltar ao Brasil. Portugal não era destino. Era escala.
Quatro anos depois, aos 49 anos recém-completados, Otoniel é empresário em Lisboa. Dono de um spa que nasceu pequeno, quase invisível, e cresceu em meio à maior crise sanitária do século, ele se tornou parte de uma geração de brasileiros que não chegou à Europa com um projeto estruturado, mas ficou porque não havia outro caminho — e transformou a escassez em estratégia de sobrevivência.
Antes da Europa, a luta por existir
A história de Otoniel começa longe dos cartões-postais europeus. Filho de uma família extremamente pobre, ele aprendeu cedo que nada viria pronto. Trabalhou em farmácia desde jovem, primeiro como funcionário, depois como dono do próprio negócio, em Vitória, no Espírito Santo. Abrir uma farmácia foi uma vitória pessoal e social: significava estabilidade para alguém que cresceu sem recursos.
Mas a estabilidade não trouxe realização. Casado até 2009, pai de filhas, Otoniel se viu preso a uma rotina que lhe garantia renda, mas tirava o que ele mais valorizava: liberdade. Já estudava medicina tradicional chinesa quando decidiu romper com tudo ao mesmo tempo — o casamento, o negócio e a vida previsível.
Vendeu a farmácia e recomeçou do zero.
Bahia: liberdade sem rede de proteção
A mudança para Arraial d’Ajuda, no sul da Bahia, foi uma aposta arriscada. Otoniel acreditava que ali haveria espaço para viver de terapias corporais. Não havia garantias, salário fixo ou reserva financeira. Seu local de trabalho era improvisado: quatro paus de eucalipto fincados na areia, um pano para fazer sombra e o movimento dos turistas.

Ganhava o suficiente para sobreviver, não para acumular. A vida era livre, mas frágil. Qualquer imprevisto podia derrubar tudo. Ainda assim, foi ali que ele consolidou a identidade profissional que o levaria à Europa.
+ LEIA MAIS: Startup portuguesa de beleza cresce 300% com negócios no Brasil
Lisboa: o plano que não existia
O convite para trabalhar em um evento de massagens em Portugal surgiu em 2019. Duas semanas em um hotel, com tudo previamente combinado. Otoniel aceitou pensando no depois: usar o dinheiro para fazer um mochilão pela Europa e retornar ao Brasil.
Nada saiu como planejado.
No último dia do evento, uma cliente conhecida pediu uma massagem fora da programação. Ele não tinha espaço, nem vínculo com nenhuma clínica. A cliente indicou um spa em Lisboa. Otoniel aceitou. A massagem aconteceu. O dono do espaço observou. No fim, fez um convite inesperado: queria que ele ficasse para trabalhar durante o verão.
O mochilão acabou antes de começar.
Trabalhar, ficar, arriscar

Otoniel decidiu ficar os três meses permitidos como turista. Trabalhou intensamente. Ganhou algum dinheiro, mas nada que garantisse segurança. Quando o verão acabou, surgiram novos eventos, novas propostas, e ele resolveu permanecer mais um pouco, já em situação irregular, acreditando que logo iria embora.
Em novembro de 2019, começaram as notícias sobre uma possível pandemia. Os aeroportos fecharam. Os planos de sair da Europa — inclusive um curso na Tailândia — foram cancelados. Sem escolha, Otoniel deu entrada no pedido de residência em Portugal.
Pouco depois, tudo fechou.
O colapso financeiro
Com o início da pandemia, o spa onde trabalhava fechou. Otoniel ficou sem renda. Ainda assim, quando houve uma breve reabertura, ele tomou a decisão mais arriscada de sua vida: alugou uma pequena loja na Rua dos Fanqueiros, no centro de Lisboa, para abrir o próprio espaço de massagens.
O aluguel era alto — 1.500 euros por mês — e exigia cauções e adiantamentos. Otoniel colocou todo o dinheiro que tinha. Pouco depois, veio um novo lockdown. A loja ficou fechada. O faturamento foi zero. As dívidas cresceram.
No fim de 2020, ele não conseguia pagar o aluguel da loja, nem o quarto onde morava. Faltava dinheiro para comida. Voltar ao Brasil também não era opção: não havia recursos nem para a passagem. “Eu estava completamente quebrado”, resume.
O fundo do poço e a noite improvável
Em 2021, com pequenas reaberturas e muitas restrições, Otoniel vivia no limite. Uma noite, decidiu sair para a Rua Rosa, no Cais do Sodré, para beber cerveja barata e tentar esquecer a situação. Foi ali, sem qualquer planejamento, que conheceu uma alemã.
Tentando impressionar, contou que tinha um spa. Exagerou. Floreou. Ela se interessou e marcou uma massagem. Depois ele descobriria que ela era uma atriz alemã com grande alcance nas redes sociais.
Ela postou sobre a experiência. O impacto foi imediato.
A virada
Um amigo da atriz, o jogador francês Sissoko, apareceu para uma massagem. Gostou. Voltou. Indicou. Postou. De repente, o fluxo de clientes mudou completamente. O pequeno espaço começou a lotar. Otoniel passou de alguém sem dinheiro para alguém sem tempo.

Vieram as contratações. Primeiro uma pessoa, depois outra. Em pouco tempo, eram seis terapeutas. Mesmo assim, a demanda superava a capacidade. Otoniel alugou um espaço maior. Nascia o MIU, o spa que o consolidaria como empresário em Lisboa.
+ LEIA MAIS: Brasileiro troca o futebol por negócio milionário de colchões em Portugal
Transformação
A transição de massagista autônomo para empresário foi rápida e forçada. Otoniel precisou aprender gestão, marketing e liderança no meio da crise. Contou com a ajuda de um sócio em um período decisivo. Mais tarde, a sociedade terminou, mas a estrutura ficou.
Hoje, olhando para trás, Otoniel reconhece que nada foi linear. A escassez moldou suas decisões. A falta de dinheiro o empurrou para riscos que, em condições normais, talvez não tomasse.
Sua história é a de um brasileiro comum em circunstâncias extremas — alguém que atravessou a pobreza, a falência e a pandemia e conseguiu transformar improviso em negócio.
Em Lisboa, onde chegou apenas de passagem, Otoniel construiu não só uma empresa, mas uma permanência. E prova que, às vezes, a transformação começa exatamente quando não há mais nada a perder.
redes@revistaentrerios.sapo.pt
Lisboa
Jornalista com 20 anos de experiência e atuação em reportagens sobre violações de direitos humanos e políticas públicas. Possui experiência em pesquisa teórica e de campo, produção executiva, edição de texto, coordenação de equipe, planejamento estratégico e atuação em diferentes frentes do jornalismo e da comunicação em veículos como TV Globo, TV Brasil, CNN, RFI, Record e Band. Trabalha com storytelling e conteúdo para multiplataformas digitais, com experiência em televisão, documentários e comunicação organizacional no Brasil, Europa e Oriente Médio.
- Últimas Notícias