Bacalhau vira moda: brasileiras transformam pele do peixe em luxo
Brasileiras criam biquínis, roupas e acessórios com o couro extraído da família de peixes
O bacalhau é parte indissociável da identidade gastronômica de Portugal. Contudo, há quem esteja costurando novos caminhos para esse símbolo: nas mãos de criadoras brasileiras radicadas em Lisboa, a pele do bacalhau, antes considerada um descarte alimentar, transforma-se em biquínis, roupas e até joias.
Não existe uma espécie de peixe chamada bacalhau; são tipos específicos que passam por um processo de salga e secagem para receber esse nome — que, anteriormente, fazia sucesso quase exclusivamente na cozinha e, hoje, está na moda, dividindo atenção com produtos de pele de pirarucu.
Quando ainda tinha uma fábrica no Rio de Janeiro, a estilista Fabiana Thorres, que agora vive na Costa da Caparica, já trabalhava com pele de tilápia e salmão.
Ao mudar-se para Portugal, apresentou um projeto à Câmara de Comércio de Lisboa e, após dois anos de pesquisa, conseguiu tornar o couro de bacalhau um insumo resistente e maleável, utilizado por ela em peças de vestuário e joias.
As criações já foram exibidas em desfiles em Paris, Milão, Cascais e Madri. “Muita gente tem curiosidade sobre a permanência do cheiro de bacalhau. É claro que isso não acontece”, diz Fabiana.

A designer carioca Fabiola de Paula Rosengren, que desenvolve peças sob encomenda, destaca que o couro de bacalhau tem qualidades únicas: é resistente, flexível e possui textura marcante.
“Ele pode ser utilizado não apenas em roupas, mas também em design de interiores, como móveis e papel de parede. A parte técnica já está testada e a receptividade, idem, pois as pessoas estão cada vez mais valorizando produtos sustentáveis. Falta, ainda, investimento para que isso se torne uma matéria-prima viável em larga escala”, afirma.
Insumo não falta. Para se ter uma ideia, estima-se que Portugal consuma cerca de 70 mil toneladas de bacalhau por ano. É uma montanha de couro que, frequentemente, acaba indo para o lixo.
“É uma excelente alternativa às peles de animais em extinção, como algumas espécies de jacaré. Mas, para ganharmos escala, as grandes marcas precisam apoiar a produção”, defende Fabiola.
LEIA TAMBÉM: Você gosta mais da sardinha ou da latinha?

Por mais de 28 anos, Eduardo Filgueiras tem se dedicado à pesquisa e inovação em couros alternativos. À frente da Nova Kaeru, ele foi um dos pioneiros no Brasil a apostar no uso da pele do pirarucu, peixe nativo da Amazônia, como matéria-prima.
Filgueiras desenvolveu uma técnica de soldagem química que permite unir peles pequenas em peças maiores, facilitando seu uso pela indústria da moda, e iniciou uma jornada de articulação com comunidades ribeirinhas, indígenas e o Ibama.
“Na época, só era permitido pescar dois mil peixes por ano. Hoje são cem mil. O manejo sustentável ajudou a preservar e revitalizar a espécie”, conta, lembrando também do impacto positivo na geração de renda para comunidades da Amazônia que antes vendiam apenas a carne.
O processo de curtimento é realizado no Rio de Janeiro, com produtos oriundos do Amazonas em caminhões refrigerados. A empresa atualmente exporta para as principais feiras internacionais de moda e tem como clientes grifes como Rick Owens, Givenchy, Giorgio Armani, Burberry e Dolce & Gabbana.

“O mercado americano representa cerca de 80% das nossas vendas, principalmente demanda por botas de cowboy”, afirma Filgueiras. Na Europa, a Nova Kaeru opera por meio de um hub na Holanda. Portugal, embora já tenha recebido exportações da empresa, ainda é um mercado em desenvolvimento.
No Brasil, a principal parceira é a Osklen, que desde 2005 trabalha com o couro de pirarucu fornecido pela empresa. “A grife teve um papel fundamental na popularização do material no Brasil”, reconhece.
O engenheiro Alan Lira é um fã recente: “Comprei um sapato de couro de pirarucu há três meses atraído pelo design marcante e constatei que é muito confortável também. Gostei tanto que já penso em adquirir mais um, de outra cor”.
Essa matéria foi publicada originalmente na revista EntreRios.
Você pode assinar e receber a publicação no conforto da sua casa, além de ler na íntegra online.
- Últimas Notícias