Brasil e Portugal retomam projetos de Oscar Niemeyer
Maricá compra dez projetos, e Cascais deve abrigar obra da Fundação Luso-Brasileira após décadas de imbróglio
Foi em 1994 que o fotógrafo Carlos Eduardo Niemeyer, conhecido como Kadu, hoje com 71 anos, esteve com o avô Oscar em Lisboa – uma parada estratégica para seguirem de trem até a França. É notório que o maior nome da arquitetura brasileira, e um dos maiores também no cenário internacional, não gostava de voar.
Kadu, que também é administrador do escritório de arquitetura homônimo ao avô, relatou a chegada dos dois a Lisboa, a cidade que Niemeyer, em seu livro “Quase Memórias”, descreveu assim: “A mesma língua, a mesma simpatia acolhedora, a mesma tradição arquitetônica”. Tradição esta que ele renovou e influenciou.
Ele relembra que, após onze dias num navio, “ficamos a olhar na televisão os jovens portugueses lavando as estátuas de uma praça, contentes com a queda do salazarismo. E um casal de lisboetas, gente rica, sentado ao nosso lado, não se contendo, começou a gritar: “São uns malucos, são uns malucos. O que me obrigou a intervir: malucos nada, é a queda da ditadura, e isso um dia irá acontecer no mundo inteiro”.
A relação de Oscar Niemeyer, que morreu em 2012, aos 104 anos, com Portugal vai além da observação política ou das visitas. Ele desenhou cinco projetos para o país, embora apenas um tenha sido executado, na Ilha da Madeira: o Pestana Casino Park, projetado em 1966. Após décadas de imbróglio, a Fundação Luso-Brasileira tenta retomar uma outra obra do mestre das curvas, justamente a de sua sede que começou a ser construída na Quinta dos Alfinetes, em Lisboa, mas foi abandonada.
Início e fim ocorreram nos anos 1990. A instituição retomou a proposta, há dois anos, e, atualmente, aguarda uma autorização da Câmara de Cascais para a junção de dois terrenos onde se deseja erguer o edifício. A agitação segue uma tendência de recuperação de obras de Niemeyer pelo mundo.
Em 2020, a Alemanha inaugurou a “Esfera”, uma estrutura concebida para acolher um restaurante-bar de uma fábrica em Leipzig. Em 2022, o centro de arte, hotel, restaurante e vinícola Château La Coste, uma espécie de Inhotim francesa, inaugurou a última obra concebida pelo arquiteto.
O Brasil, é lógico, não pode ficar de fora dessa retomada. A cidade de Maricá, na região metropolitana do Rio de Janeiro, comprou dez projetos de Niemeyer e pretende se tornar a segunda cidade do Brasil com mais obras do arquiteto, atrás apenas da capital, Brasília.
Maricá já tem uma obra espetacular de Niemeyer: a casa desenhada por ele para o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), hoje um museu que leva o nome do antropólogo. É uma casa pequena, arredondada, na qual todos os cômodos são voltados para o mar, a poucos metros dali. No jardim, tem uma estátua de Ribeiro inspirada numa foto feita quando ele retornou do exílio para Maricá, em 2015.
Nesse ambiente paradisíaco, ele escreveu O Povo Brasileiro, sua obra prima, e gostava de se isolar para descansar e refletir sobre a grande construção da civilização brasileira. O local, hoje, é um forte ponto turístico da região.

O investimento para a aquisição dos dez projetos foi de R$ 73,6 milhões. A prefeitura ainda estuda implantar o Museu Niemeyer na antiga fazenda da família do arquiteto, no município. Um dos projetos será o Memorial João Goulart dedicado à preservação da memória do ex-presidente e localizado em um terreno que pertenceu à família dele, em Ponta Grossa.
Outro, o Estádio João Saldanha terá capacidade para 30 mil pessoas e ficará em Inoã. Para a cidade que possui um time para chamar de seu, o Maricá Futebol Clube, essa construção tem um significado muito importante. A arena esportiva abrigará , também, restaurantes, bares e lojas.
O Museu de Arte de Maricá (MAR) ficará no Retiro. A linda orla do município ganhará novos quiosques e estrutura local. Uma das estrelas é o Centro administrativo, abertamente inspirado no centro de poder de Brasília. O objetivo é se firmar como referência em arquitetura, cultura e turismo, impulsionando o desenvolvimento econômico.
“O Oscar Niemeyer é, de longe, o melhor arquiteto do país e um dos três maiores da arquitetura mundial. Isso nos coloca na história e nos dá competitividade turística global. Vamos trazer turistas do mundo inteiro”, afirma o prefeito Washington Quaquá, idealizador da iniciativa. A meta do prefeito é entregar as obras até 2028, quando encerra seu mandato atual.
Um dos maiores pesquisadores sobre Niemeyer, o ex-professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, Carlos Oliveira Santos, defende que o grande legado que o arquiteto deixa para Portugal é a influência na arquitetura.
No município de Moimenta da Beira, nos anos 1950, a população protestou contra a ordem de demolição de arcos do edifício do antigo Externato Infante D. Henrique, que remetiam à estética modernista de Niemeyer e aos pilares dos palácios da Alvorada e do Planalto, em Brasília. O regime fascista português não gostou da referência à obra do brasileiro, que era comunista.
Diz o site oficial de Moimenta da Beira que “o arquiteto soube do afrontamento e apoiou a luta dos estudantes do externato que impediram a demolição dos arcos, em 1962”.
A Capela de Nossa Senhora de Fátima, em Alimonde, do arquiteto português Nadir Afonso, e a Urbanização de Santo Isidro de Pegões, que teve como principal arquiteto Eugênio Correia, são duas outras evidentes referências aos traços de Niemeyer na arquitetura modernista portuguesa. “O que houve foi uma influência em todo o mundo, muito a partir do catálogo ‘Brazil Builds‘, do MoMa.
O modernismo vivia uma estética repetitiva, limitada, sobretudo pela escola da Bauhaus. E o Oscar abriu horizontes em muitos aspectos não só nas formas, nas curvas, na respiração, na articulação com a natureza”, afirma Santos, que chegou a se hospedar na célebre Casa das Canoas, projetada por Niemeyer em São Conrado, em 1951, como sua residência e considerada um dos mais significativos exemplares da arquitetura moderna.
Kadu administra o espólio do avô e o famoso Escritório, em Copacabana, no Rio de Janeiro, onde ele trabalhava e reunia intelectuais. O neto quer dar continuidade aos projetos não realizados e fazer iniciativas que preservem o legado do avô, entre elas uma exposição itinerante, um livro de fotografias e até um filme: “Tem muita informação sobre o arquiteto. A minha ideia é fazer algo sobre a pessoa Oscar. Quero mostrar o lado humano dele, que era muito brincalhão”, afirma o neto.
Histórias pessoais não faltam. Sobre a viagem de 1994 a Portugal, por exemplo, Kadu relembra o investimento na logística necessária para evitar os voos.
“Fomos jantar algumas vezes na casa do embaixador José Aparecido de Oliveira (1929-2007), um grande amigo do meu avô. Ficamos alguns dias em Portugal e fomos para Paris de trem. Voltaríamos de avião para o Brasil, mas meu avô decidiu regressar de carro para Lisboa só para encurtar a viagem aérea. Eu estava com a carteira vencida, e tivemos de contratar um motorista.”
Para o neto, o maior legado de Niemeyer é diferente: “Foi ele quem me ensinou tudo que eu sei, que jogava pingue-pongue comigo, futebol, tocava cavaquinho na varanda. Hoje eu tenho a obrigação de respeitar e reviver o grande legado dele, mas, para mim, Oscar é muito mais, é meu avô”.
A Fundação Luso-Brasileira deve ser a próxima obra de Niemeyer em Portugal. Segundo o presidente do Conselho de Administração, Paulo Campos Costa, a autorização para a junção dos dois terrenos está para sair.
“O projeto vai se manter quase intacto, apenas com algumas alterações nas áreas de lazer, necessárias pelas exigências legais dos dias de hoje. Em abril, tivemos uma reunião do Conselho de Curadores e este foi um dos temas tratados”.
Há dois anos, foi feita uma estimativa de custo da obra, que deve rondar os 25 milhões de euros. Costa diz que já há possíveis investidores. “Temos que escolher um local com vida, onde a cultura e a nossa língua, que nos unem, estejam presentes. Queremos um centro que seja um ponto de encontro da comunidade portuguesa e brasileira”.
Os projetos adquiridos pela prefeitura de Maricá


Centro de Convenções de Maricá – espaço multiuso para eventos, congressos e feiras.
Teatro Ballet de Cuba – parceria com a companhia cubana, voltado para formação e apresentações artísticas. Será construído em Araçatiba, ao lado do Fórum, com capacidade para 1.000 espectadores.
Estádio João Saldanha – arena esportiva para 30.000 pessoas. A futura casa do Maricá FC será construída em Inoã, com camarotes, lojas, restaurantes e bares.
Hotel Maricá – empreendimento que une turismo e design.
Museu de Arte de Maricá (MAR) – espaço dedicado às artes visuais e exposições. Será instalado em frente ao Parque Nanci, na entrada do Retiro.
Quiosque – Orla Maricá – equipamento urbano para lazer e convivência.
Memorial João Goulart – homenagem ao ex-presidente deposto pelo golpe militar de 1964. Ficará no terreno da família Goulart, em Ponta GrossaProjetos para Portugal



Algés – Urbanização junto ao Tejo, 1983-93

Ponta Delgada – Museu de Arte Contemporânea, 2010
Jornalista com mestrado em Comunicação Social pela Uerj e mais de 15 anos de experiência em redação e edição de reportagens. Já atuou no jornal “O Globo”, é sócia do #Colabora – Jornalismo Sustentável e repórter da edição brasileira do portal Fashion Network. Na EntreRios, é repórter com foco em comportamento e lifestyle.
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