Brasil: o país das SAFs
De alguns anos para cá, virou quase um mantra no futebol brasileiro: “vira SAF que resolve”. Para clubes afundados em dívidas, sem capacidade de investimento e com administrações desgastadas, a Sociedade Anônima do Futebol (SAF) passou a soar como tábua de salvação. Desde 2021, ano em que foi aprovada a Lei dessa instituição — em Portugal são chamadas de SADs, Sociedades Anônimas Desportivas —, mais de 50 clubes brasileiros, entre grandes, médios e pequenos, já aderiram ou iniciaram o processo de transformação.
O discurso é sedutor: gestão profissional, investidores fortes, dívidas equacionadas e um futebol mais competitivo. E, em alguns casos, isso de fato aconteceu. Cruzeiro e Botafogo são os exemplos mais citados. O clube mineiro saiu do caos financeiro, voltou à Série A, organizou as contas e recuperou a credibilidade. Com John Textor, o alvinegro carioca também deu um salto evidente em estrutura e competitividade. Em 2024, levantou os títulos do Brasileiro e Libertadores, ainda que com tropeços esportivos e decisões que dividiram a torcida.
Mas a história não é tão simples, e o Vasco da Gama é a maior prova disso. A promessa de reconstrução proposta pelo grupo americano 777 Partners virou novela judicial, troca de controle, disputa interna e frustração nas arquibancadas. O clube virou SAF, mas os problemas continuaram — só mudaram de endereço.
E esse é o ponto central: SAF não é sinônimo automático de sucesso. Investidor ruim continua sendo investidor ruim, mesmo com estrutura empresarial. Gestão amadora não vira profissional só porque agora existe um investidor.
Além disso, há uma questão emocional que pesa. Para o torcedor de clubes tradicionais como o Portuguesa e o Santa Cruz, a SAF muitas vezes representa esperança imediata: contratações, time competitivo, títulos rápidos. Quando isso não acontece, a decepção vem na mesma velocidade do entusiasmo inicial. E, diferente de uma diretoria eleita, o dono não sai na próxima eleição.
A realidade é que as SAFs não são vilãs nem salvadoras. São uma ferramenta. Funcionam quando há projeto, governança, transparência e compromisso de longo prazo. Viram ilusão quando vendidas como milagre para clubes quebrados e torcidas desesperadas. No fim das contas, o futebol brasileiro não precisa apenas de novos donos — precisa, sobretudo, de boas ideias, boas decisões e menos promessas fáceis.
Essa coluna foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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