Brasileira ex-CEO da Sephora Portugal investe em marca de joias com identidade afro
Marca conecta estética da Bahia ao design contemporâneo e atua nos mercados europeu e brasileiro
A empresária baiana Graziele Neves da Silva, com uma trajetória de mais de 20 anos no mundo corporativo — sendo oito deles na multinacional francesa Sephora, onde atuou como Country Manager em Portugal — migrou do comando de grandes marcas para o empreendedorismo próprio, fundando a MAAR, um ateliê de joias e acessórios autorais que une design, cultura e espiritualidade.
Mais do que um projeto criativo, a MAAR nasce como uma operação com propósito claro: ocupar um nicho pouco explorado no mercado europeu — o de joias autorais com identidade afro-brasileira —, produzidas de forma artesanal e personalizadas para cada cliente.
“As peças da MAAR nascem da intenção de gerar conexão: com a natureza, com as memórias afetivas e com aquilo que nos torna únicos”, explica Graziele.
Além do apelo estético e simbólico, a marca aposta na personalização como estratégia de diferenciação e fidelização, criando peças que contam histórias individuais.

A MAAR trabalha com pedras naturais, cristais, pérolas, conchas, contas, búzios, latão, aço inoxidável e prata, em criações únicas ou personalizadas. A primeira coleção foi lançada em setembro, em Lisboa, com 40 modelos exclusivos. A fundadora já planeja expansão para pontos de venda em outras capitais europeias a partir de 2026.
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Além da presença física em Lisboa, Graziele também retoma suas raízes e comercializa suas criações no Brasil, permitindo que o público brasileiro adquira as peças diretamente pelo site oficial, com entregas para todo o país.
Para Graziele, o lançamento representa uma “virada de chave” na carreira, mostrando que é possível transformar competências adquiridas no mundo corporativo — como gestão, marketing e liderança de equipes — em um negócio próprio com potencial de crescimento internacional.
Depois de mais de duas décadas no mundo corporativo e uma carreira consolidada à frente de uma gigante internacional como a Sephora, o que a motivou a trocar a estrutura de uma multinacional pelo desafio de empreender e criar uma marca autoral como a MAAR?
Depois de deixar a Sephora, fundei a The Lighthouse, uma consultoria voltada ao desenvolvimento de carreira e à mentoria executiva de líderes, que continua ativa até hoje. Naquele momento, especialmente no pós-pandemia, sentia que podia contribuir mais e de forma diferente na vida das pessoas.
Contudo, sempre fui inquieta: queria contar novas histórias, ser desafiada, fazer algo que tivesse uma conexão mais profunda com as minhas raízes. Durante uma viagem a Salvador, minha cidade natal, esse movimento ganhou um novo sentido. Foi quase como um “chamado” — um retorno às origens e às minhas aptidões.
A partir daí nasceu a ideia de criar a MAAR: uma forma de unir minha paixão por moda e acessórios, meu amor pela Bahia e pela minha afrodescendência, com toda a experiência acumulada em gestão e criação de negócios. Além disso, tenho uma veia comercial e mercadológica muito forte e estava com saudades de trabalhar com produto e com o varejo.
No fim, a vida é um grande exercício de “ligar pontos” — e a MAAR é exatamente isso: a síntese de tudo o que vivi, aprendi e me tornei ao longo do caminho.
A MAAR nasce com uma identidade profundamente ligada à ancestralidade afro-brasileira e à estética da Bahia. De que forma essa herança cultural se manifesta no design das peças e na filosofia da marca?
Sou baiana, afrodescendente e profundamente orgulhosa das minhas raízes. Tenho uma ligação visceral com a Bahia e com o mar — é deles que vem a minha inspiração. Na MAAR, quis traduzir essa herança em forma, cor e sentimento, trazendo para as peças elementos que conversam com esse universo: figas, búzios, peixes, pérolas, conchas, pedras naturais e referências aos orixás.
Mais do que adornos, as peças carregam simbologia, intenções e histórias. Quero que cada criação transmita a alegria, a leveza, a proximidade — esse borogodó tão característico da Bahia — e toda a riqueza cultural que vem das nossas origens.

Essa essência está presente em tudo: na maneira como a marca se posiciona, no atendimento aos clientes, no desenho e na produção das peças e até na embalagem de cada encomenda. A experiência MAAR é sensorial e afetiva — do aroma que envolve a embalagem às cores e materiais usados na criação, do toque do saquinho de joias à textura da caixa, até o cartão escrito à mão por mim.
Cada detalhe é pensado para contar uma história e despertar um sentimento. Acredito que a relação que temos com a moda e com acessórios é também um ato de conexão com quem somos e de onde viemos.
A marca já começa sua trajetória com presença internacional, conectando Brasil, Portugal e outros países europeus. Quais são os principais desafios e oportunidades de levar uma marca de joias autorais, com raízes tão brasileiras, para o mercado global?
Levar uma marca autoral, com raízes tão brasileiras, para o mercado global é um desafio tão encantador quanto complexo. A MAAR tem base em Portugal, mas carrega a alma da Bahia — e equilibrar esses dois mundos exige cuidado, coerência e sensibilidade.
Um dos principais desafios é a logística. Por termos a base em Portugal e realizarmos envios também para o Brasil e outros países, enfrentamos burocracias alfandegárias e prazos que muitas vezes estão fora do nosso controle.
Sou extremamente atenta à experiência do cliente e me preocupo com cada detalhe; por isso, busco constantemente soluções para tornar esse processo mais ágil e transparente, sem perder o cuidado que faz parte da experiência MAAR.
Outro ponto importante é a comunicação. Levar o DNA da marca, profundamente ligado à cultura baiana e afro-brasileira, para um público que muitas vezes não tem esse repertório é um exercício diário. Procuro ser próxima, clara e didática nas mensagens, traduzindo nossos símbolos e significados de forma que despertem curiosidade, respeito e conexão — sem jamais perder a autenticidade.
Por outro lado, as oportunidades são imensas. O público europeu tem se mostrado aberto e curioso por marcas com propósito, alma e histórias verdadeiras. A MAAR desperta interesse justamente por isso: por ser uma marca pequena, autoral, que celebra ancestralidade, arte e mar, convidando as pessoas a se conectarem com algo maior do que um acessório — uma intenção.
Em cada país, o desafio é o mesmo: garantir que a experiência MAAR — cuidado, simbolismo e poesia — chegue ao cliente, esteja ele onde estiver.
Conta um pouco a sua história com Portugal, quando você veio para cá?
Vivo em Portugal há oito anos. Vim transferida a trabalho para assumir o cargo de diretora-geral da Sephora e, depois dessa experiência intensa e transformadora, decidi permanecer aqui. Gosto muito do país, das amizades que construí e da qualidade de vida que encontrei em Lisboa.
Claro que sinto saudades do Brasil, mas a MAAR tem sido uma ponte entre esses dois mundos. Ela me conecta à minha brasilidade e me permite levar um pouco do Brasil, da Bahia e das minhas raízes afrodescendentes para Portugal e para o restante da Europa. Curiosamente, quando vivemos fora, acabamos nos tornando ainda mais brasileiros.
Todas as peças da MAAR são produzidas em Portugal, mas muitos dos elementos que compõem os acessórios vêm da Bahia — como as figas, os búzios e alguns berloques. É uma forma simbólica de unir as duas margens do Atlântico e levar um pouco da energia e do encanto da cultura brasileira para quem as recebe.
Jornalista com mestrado em Comunicação Social pela Uerj e mais de 15 anos de experiência em redação e edição de reportagens. Já atuou no jornal “O Globo”, é sócia do #Colabora – Jornalismo Sustentável e repórter da edição brasileira do portal Fashion Network. Na EntreRios, é repórter com foco em comportamento e lifestyle.
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