Cultura

Brasileiro expõe obras sobre infância e trauma em Lisboa

Radicado em Lisboa, Eduardo Xuamba leva suas obras à Galeria Graça Brandão e segue com exposições em Barcelona e Roma

Radicado em Portugal, o jovem pintor brasileiro Eduardo Xuamba já tem exposições confirmadas em Lisboa, Barcelona e Roma. Crédito: Divulgação

“Se na cidade da infância ele se via estrangeiro, em um país estrangeiro ele se permite ser novamente criança. Uma criança que pinta quem é”. Assim a filósofa e psicanalista Talita Ramos define o trabalho do artista visual Eduardo Xuamba, que tem obras na exposição coletiva Accrochage de Verão, em cartaz até 20 de setembro na Galeria Graça Brandão, em Lisboa. 

A mostra, com curadoria de José Mário Brandão, marca um novo momento na carreira de Xuamba, que vem ganhando projeção internacional: ele também está com trabalhos apresentados em Barcelona e vai expor em Roma (12/09).

Natural de uma pequena comunidade rural no sul do Brasil e hoje radicado em Lisboa, Xuamba tem conquistado espaço com uma obra marcada por cores intensas, gestos expressivos e um mergulho profundo no inconsciente. Sua pintura se constrói como uma verdadeira “arqueologia do afeto”, em que lembranças pessoais se entrelaçam com traumas e ressignificações, num movimento constante entre dor, poesia e potência criativa.

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Integrante do Coletivo Penhasco, o artista também propõe, por meio da arte, reflexões sobre identidade, deslocamento, infância e pertencimento. Em entrevista à EntreRios, Xuamba fala sobre sua trajetória, o impacto de viver entre culturas e o desejo de que sua pintura seja mais que imagem: seja também linguagem e transformação.

Você nasceu em uma pequena comunidade rural no sul do Brasil e hoje vive em Lisboa. Como esse percurso — tanto geográfico quanto afetivo — influencia o que você pinta?

Me sinto continuamente afetado por algo distante — aquele espaço de crescimento, com outras imagens, outro horizonte, outros sentimentos, tudo muito particular e como um corte que ainda sangra e dói. Me vejo inserido em uma nova realidade, com novos elementos, novas narrativas, novos espaços. Sou mais livre hoje do que ontem? Esse azul é o mesmo céu da minha infância? Essas lembranças entre o que ficou e o que se apresenta agora me atravessam profundamente. E é dela que, muitas vezes, nasce a imagem. Principalmente a cor.

O culpado, quadro de Eduardo Xuamba. Crédito: Divulgação.

Sua arte costuma ser descrita como um mergulho na memória e nas emoções. Para quem está tendo o primeiro contato com seu trabalho, como você explicaria essa mistura entre lembrança, afeto e criação?

Para quem está conhecendo meu trabalho pela primeira vez, eu diria que a lembrança está profundamente conectada ao nosso campo de afetos e, consequentemente, ao gesto criativo. Esse universo simbólico da minha pintura é a infância revisitada, é meu processo de elaboração de um trauma de um menino que não era aceito, de uma criança que estava fora do padrão desejado. A minha memória é a do deslocado. Minha obra é sobre isso.

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Seu estilo é marcante: cores intensas, figuras delicadas, cenas que parecem ao mesmo tempo doces e inquietas. Como você encontra equilíbrio entre o lúdico e o desconforto nas suas pinturas?

Eu acredito que o equilíbrio mora exatamente nesse espaço entre o lúdico e o desconforto. Costumo chamar esse lugar de ressignificação. Uma maneira de abraçar a própria história e criar a partir dali um espaço de acolhimento. É como se eu pegasse a matéria da dor e usasse a fantasia, utilizando os símbolos e o surrealismo — como uma tentativa de ter alguma narrativa e poder sobre um momento da vida em que eu não tinha nenhum. Essa nova perspectiva me traz a possibilidade de poder conciliar o sonho e a realidade crua.

Sua trajetória também fala sobre identidade: ser um artista jovem, brasileiro e queer em trânsito por diferentes culturas. Como essas vivências aparecem na forma e no conteúdo do que você cria?

Então eu apareço ali, nas entrelinhas. Nesse espaço muito do queer na infância, de não lugar. O que o espectador vê é uma fresta da minha própria memória, uma memória onde eu não estava pertencido.

A passagem, quadro de Eduardo Xuamba. Crédito: Divulgação

Você já passou por exposições em Lisboa, e agora segue para Barcelona e Roma. O que esse momento de visibilidade internacional representa para você — e o que você espera que o público europeu perceba ao se deparar com suas obras?

Esse momento representa, pra mim, a reafirmação de um sonho antigo — o sonho de um menino. É como se eu pudesse dizer a ele, agora, que ele é seu próprio lugar. Eu consigo finalmente abraçar o menino que fui e cuidar dele em mim. Tem esse lado, claro, de me alegrar com esses desdobramentos do meu trabalho. Tem outra coisa, além dessa realização pessoal, algo de muito simbólico nesse tempo que estou vivendo — não só na minha carreira, mas na minha existência. É como se cada passo fora do meu país fosse também uma maneira de ampliar a voz daquele lugar de onde eu vim.

E o que eu desejo é que o público europeu perceba que existem muitas outras narrativas possíveis sobre os temas que atravessam o nosso tempo, em diferentes lugares. Narrativas que nascem em outros territórios, em outras línguas, com outras dores, mas a partir do mesmo desejo. Quero que minhas obras sejam um meio para isso: para essas vozes que, muitas vezes, não chegam aos ouvidos. A do menino queer, do camponês, do imigrante… Que elas provoquem, desloquem, revelem para além de mim. A pintura também fala, também é linguagem. Eu acredito que a função da arte é comunicar algo, alguém. Ela não é meramente decorativa. É transformação. Eu espero sinceramente ajudar a tramar essa nova e necessária história onde um menino em qualquer lugar do mundo possa ser, sem medo, quem ele é. Eu pinto o meu passado para vivermos um outro futuro.

Fernanda Baldioti

Jornalista com mestrado em Comunicação Social pela Uerj e mais de 15 anos de experiência em redação e edição de reportagens. Já atuou no jornal “O Globo”, é sócia do #Colabora – Jornalismo Sustentável e repórter da edição brasileira do portal Fashion Network. Na EntreRios, é repórter com foco em comportamento e lifestyle.

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