Brasileiros incrementam mercado de imóveis de luxo em Portugal
Ambientes integrados com áreas externas, duchas higiênicas nos banheiros e varandas gourmet são padrões brasileiros que a arquitetura portuguesa incorpora
Há pouco mais de um ano, o ator Marcello Antony provocou burburinho ao anunciar sua nova atividade: corretor de imóveis em Portugal, país onde reside há sete anos. Desde então, seu perfil no Instagram passou a exibir mansões avaliadas em até 30 milhões de euros.
Antony tornou-se o rosto mais visível de um setor em franca expansão. No mesmo período, Portugal passou a atrair brasileiros com alto poder aquisitivo, motivados pela segurança, qualidade de vida e oportunidades de investimento.
“O mercado de imóveis em Portugal, inclusive o de alto padrão, está muito aquecido. Para os brasileiros, Lisboa e o seu entorno são uma espécie de nova Miami. Cascais já parece o Rio de Janeiro, com tantos cariocas”, afirma Antony.
À medida que mais brasileiros se estabelecem no país, determinadas localidades tornam-se ainda mais atrativas para conterrâneos que buscam referências culturais e senso de pertencimento.
“Se, num primeiro momento, foram os brasileiros que se adaptaram ao mercado nacional, hoje já há produtos concebidos especialmente para esse público, alinhados ao seu estilo de vida”, observa David Moura-George, diretor-geral da Athena Advisers Portugal, especializada no segmento premium.
Esse movimento tem moldado padrões de consumo, redefinido estilos de moradia e influenciado as práticas do mercado imobiliário local. Lançado em 2015, o Nouveau Lisboa — primeiro edifício construído do zero nas Avenidas Novas, em Lisboa, em mais de meio século — introduziu no setor elementos de hospitalidade, como piscina, spa, academia e varandas gourmet.
“O mercado achava que estávamos malucos, mas hoje 90% dos empreendimentos de médio e alto padrão adotam essas premissas”, diz o arquiteto baiano Sidney Quintela, um dos responsáveis pelo projeto.

O padrão arquitetônico brasileiro tende a ser mais aberto e integrado com áreas externas, enquanto a arquitetura europeia privilegia soluções mais fechadas, voltadas à proteção contra intempéries.
“Nosso trabalho tem sido o de romper paradigmas, propondo uma abordagem mais aberta, que favoreça a convivência e a conexão entre as pessoas”, completa Quintela.
Para Hugo Santos-Ferreira, presidente da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII) e CEO do Corcoran Group em Portugal, os mercados de luxo brasileiro e norte-americano vêm impulsionando uma transformação significativa.
“Estamos nos adaptando a esse novo perfil de consumidor internacional e assistindo ao crescimento das branded residences — residências associadas a marcas hoteleiras de luxo —, um conceito já consolidado no Brasil e nos Estados Unidos, e que agora ganha espaço em Portugal”.

Um exemplo é o projeto do Hotel Fasano, no Estoril, que incluirá residências com o mesmo padrão de serviço. “Já temos o Six Senses confirmado e outras marcas em negociação”, diz Ferreira.
Entre seus clientes estrangeiros, os norte-americanos lideram, seguidos de perto pelos brasileiros. Alguns detalhes sinalizam o grau de influência desse novo público. O fim da obrigatoriedade dos bidês e a insta- lação de duchas higiênicas, aprovada no início de 2024, é frequentemente apontada como reflexo direto dos há- bitos brasileiros.
“Um cliente do agronegócio, de Goiás, tem um perfil distinto de um executivo carioca, mas ambos desejam suítes espaçosas, boa vista e até tanque de lavar roupa — algo incomum por aqui. O europeu valoriza a fachada; muitos brasileiros, o interior. No Chiado, por exemplo, as pombalinas — edifícios antigos de quatro ou cinco andares sem elevador — encantam franceses, mas são inaceitáveis para a maioria dos brasileiros”, diz Ayres Neto, CEO (diretor-executivo) da The Agency Portugal, ao listar as diferenças.

“Em Lisboa, o charme histórico se alia ao conforto contemporâneo”, explica Mariana Vilhena, sócia da equipe MVP na Remax Prestige. “Fachadas do século XVIII ou XIX são preservadas, mas o interior é completamente renovado, com acabamentos de alto padrão”.
No Algarve, mansões em locais como Quinta do Lago e Vale do Lobo oferecem acesso a campos de golfe e marinas. “Para alguns, isso é luxo. Para outros, é padrão de vida”.

Com equipe multicultural e atendimento em mais de 20 idiomas, a The Agency atrai uma clientela diversi- ficada. Além de Marcello Antony, a empresa conta com nomes como a influenciadora portuguesa Vera Leite.
“Muitos clientes nos procuram que- rendo comprar com o Antony. Sen- tem mais segurança negociando com alguém da mesma nacionalidade ou com quem se identificam”, relata Ayres Neto. A advogada carioca Tatiana Rocha é um exemplo.
Ela e o marido adquiriram recentemente um imóvel em Portugal e destacam o atendimento personalizado que receberam de uma corretora brasileira.
“Ela entendeu exatamente o que queríamos: quatro suítes, walk-in closet, duas duchas na suíte master e varanda gourmet. Estava um pouco acima do nosso orçamento inicial, mas era exatamente o que procurávamos”, conta Tatiana. O imóvel, avaliado em cerca de cinco milhões de euros, foi adquirido com a gestora de equipe e diretora comercial Bete Grigorosque, da Remax Team.
Dados do Banco de Portugal revelam que, em 2024, os brasileiros lideraram a concessão de crédito habitacional entre estrangeiros: 38% para residência permanente e 15% para imóveis secundários ou de investimento.
“Embora muitos investidores adquiram imóveis à vista, o financiamento ainda é muito utilizado, principalmente pelas taxas de juros mais baixas. Os bancos geralmente financiam de 50% a 60% do valor, com o comprador aportando de 30% a 40%”, explica Davyd Ventura, CCO (diretor comercial) da Rio Capital.

Com valorização expressiva, Lisboa ocupa posição de destaque no ranking internacional da consultoria Knight Frank: foi a terceira cidade com maior aumento no preço do metro quadrado nos últimos dez anos — atrás apenas de Miami e Dubai. Em 2014, um milhão de dólares comprava 187 m2; hoje, apenas 92 m2. “A oferta ainda é limitada, sobretudo no mercado de luxo”, comenta Ayres Neto.
A aposta dos brasileiros vai além da aquisição direta. Muitos têm investido em fundos voltados à construção de empreendimentos de alto padrão.
“Cerca de 80% do equity da Rio Capital têm origem no Brasil, totalizando aproximadamente 16 milhões de euros”, afirma Ventura. Um dos projetos da incorporadora é o Avenida Living, no Saldanha, Lisboa, com unidades a partir de 1,4 milhão de euros — das quais sete, de um total de nove, foram adquiridas por brasileiros.
Brasileiros entre os principais compradores estrangeiros
Em fevereiro, a escola Nova SBE, em parceria com a Porta da Frente Christie’s, divulgou o estudo O mercado residencial de gama alta em Portugal – impacto e tendências.
Embora o levantamento não detalhe as nacionalidades, o CEO da Porta da Frente, João Cília, afirmou que mais de 50% da demanda no segmento de luxo vêm de estrangeiros — com os brasileiros na liderança, seguidos por americanos e britânicos, concentrados principalmente no Algarve.
Outras mediadoras e incorporadoras ouvidas pela EntreRios também apontam os brasileiros entre os principais compradores estrangeiros.
“Nos anos que antecederam a pandemia, os brasileiros representavam de 40% a 50% das vendas de luxo em Lisboa, Cascais e Estoril, segundo nossos registros na Athena Advisers. No pós-Covid, os norte-americanos passaram a liderar”, relata David Moura-George.
Levantamento do portal Idealista mostra que, no município de Lisboa, os estrangeiros que mais buscam imóveis acima de um milhão de euros são norte-americanos, espanhóis, britânicos e brasileiros.
Em todo o país, os brasileiros aparecem na sétima posição. Para Ayres Neto, esses dados estão subestimados: “Muitos compradores têm cidadania europeia e não são identificados como brasileiros nas transações”.
(Colaborou Renata Telles)
Essa reportagem foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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Jornalista com mestrado em Comunicação Social pela Uerj e mais de 15 anos de experiência em redação e edição de reportagens. Já atuou no jornal “O Globo”, é sócia do #Colabora – Jornalismo Sustentável e repórter da edição brasileira do portal Fashion Network. Na EntreRios, é repórter com foco em comportamento e lifestyle.
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