Cruzeiro fluvial pelo Danúbio: descubra cidades, vilarejos e paisagens únicas
Do coração da Romênia às luzes de Budapeste, a bordo de um cruzeiro fluvial pelo Danúbio, o turista vê o desfile de cidades, vilarejos, monumentos, fortalezas e surpresas de séculos de história
Viajar por países como Romênia, Bulgária, Sérvia, Croácia e Hungria a bordo de um cruzeiro fluvial escapa dos roteiros tradicionais. Longe de multidões, filas e pressa, essa jornada convida à contemplação e à imersão em culturas pouco exploradas.
Durante oito dias, o navio de luxo Emerald Star cruza trechos tranquilos do rio Danúbio, segundo maior da Europa, revelando paisagens in-tocadas. O rio é o mesmo, mas, ao atravessar fronteiras e renovar paisagens, é como se fosse mais de um — o que nos permitiu brincar com o nome da revista no título acima.
O Danúbio tem importância histórica enorme: corta dez países, liga o leste ao oeste do continente e foi rota essencial para impérios, comerciantes e viajantes. Navegá-lo é mergulhar em memórias, tradições e encontros de civilizações.
Tudo começa em Bucareste, na Romênia, que faz jus ao apelido de “Pequena Paris” devido à vida cultural pulsante e à exuberância dos estilos neoclássico e art nouveau em seus bulevares. O cruzeiro segue para Veliko Tarnovo e Arbanasi. A primeira, “Cidade dos Czares”, impressiona pelas casas empoleiradas nas colinas e ruínas medievais.
LEIA TAMBÉM: Esses mercados virais de Madri têm roupas e acessórios a partir de 1 euro
O ponto alto do vilarejo é a Fortaleza de Tsarevets, que domina o horizonte. As ruas de pedra são envolvidas pelo perfume que vem daslojas repletas de produtos à base de rosas. A Bulgária é uma das maiores produtoras de óleo essencial de rosa. Por toda parte, é fácil encontrar cosméticos, perfumes, sabonetes e loções, além de geleias, licores e mel aromatizado.

O vilarejo de Arbanasi preserva um tesouro: a igreja ortodoxa da Natividade, do século XV, com afrescos dignos de cenas bíblicas. Sessenta por cento dos búlgaros são cristãos ortodoxos, religião adotada em 864 no reinado do czar Boris I.
A cada parada do navio, o viajante vive experiências inusitadas, como em Vidin, na visita à fortaleza de Belogradchik, uma construção romana do século I a.C. que brota das rochas avermelhadas nas encostas das Montanhas Balcãs. Parece a página de um livro de fantasia. O quarto dia de viagem começa de maneira especial.

Uma mensagem soa pelo alto-falante: “Vamos cruzar o Iron Gate, preparem-se para um dos marcos geográficos mais impressionantes da rota”.
À medida que o navio se aproxima do estreito desfiladeiro que separa a Romênia da Sérvia, o cenário se transforma. As montanhas que ladeiam o Danúbio se erguem de forma majestosa enquanto a passagem apertada revela as Portas de Ferro, ponto icônico da região. É ali, em meio à natureza selvagem, que sentimos o poder do rio e a grandiosidade deste palco de batalhas e civilizações antigas.
LEIA TAMBÉM: Alentejo: 5 motivos para colocar Porto Covo no seu roteiro
Pelo caminho, uma escultura colossal na encosta da montanha: o rosto do rei Decebalus, último governante da Dácia, antiga região na Europa Central e Oriental, correspondente em grande parte ao território das atuais Romênia e Moldávia.
Com 55 metros de altura, construído entre 1994 e 2004, em homenagem à resistência dos dácios contra o Império Romano, o monumento é visto só de barco e se tornou um dos pontos altos do cruzeiro. Uma placa traz a inscrição em latim: Decebalus Rex — Dragan Fecit, “Rei Decebalus — feito por Dragan” (o bilionário romeno Iosif Constantin Dragan, que idealizou a obra).
Próxima parada: Donji Milanovac, uma vila na região de Timočka Krajina, no nordeste da Sérvia. Ali está o sítio arqueológico de Lepenski Vir às margens do Danúbio, revelando mais de oito mil anos de história. É um dos achados pré-históricos mais importantes da Europa. A cereja do bolo é o castelo de Golubac, construído no século XIV para ser uma fortaleza que controlasse o tráfego no Danúbio e protegesse o Império Sérvio.
Tudo é raro nessa viagem. Em Belgrado, está a Igreja de São Sava, um dos maiores templos ortodoxos do mundo, e o Museu da Iugoslávia, com relíquias do período socialista. O espaço oferece um mergulho na história recente dos Bálcãs, com objetos pessoais, fotografias e exposições que ajudam a entender o passado conturbado.
LEIA TAMBÉM: O que fazer no outono em Portugal: 9 destinos para curtir a estação
Em meio aos itens, o visitante encontra a Casa das Flores, memorial com os restos do ex-ditador Josip Broz Tito, que governou de 1945 até sua morte, em 1980. Tito foi o principal líder da Iugoslávia, país que reunia as repúblicas balcânicas Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro e Macedônia. Até hoje, Tito gera controvérsia, entre o símbolo de estabilidade e união e o lado autoritário, pouco tolerante com liberdade de expressão e direitos civis.
Na Croácia, o desembarque é em Vukovar, cidade marcada pela guerra nos anos 1990. Para uma experiência mais íntima, os passageiros são recebidos em pequenos grupos em casas de famílias. Dona Eva, uma das anfitriãs, conta sua história:
“Fui forçada a abandonar minha casa, e a minha filha foi enviada para um campo de concentração na Hungria”.
Anos depois, mãe e filha conseguiram se reunir e reconstruir o lar perfurado por balas que se tornou símbolo de resistência e recomeço.
LEIA TAMBÉM: Descubra as Galerias Romanas escondidas em Lisboa

No oitavo e último dia do cruzeiro, o destino é Kalocsa, na Hungria, terra da páprica e dos bordados coloridos. A cidade é um retrato da cultura popular húngara. Vale muito a visita à região da Puszta, habitada originalmente por vaqueiros, pastores e cuidadores de cavalos. Em 1999, a zona, que inclui o Parque Nacional Hortobágy, foi classificada pela Unesco como da Humanidade.
Para encerrar a aventura com chave de ouro, o navio desliza até entrar em Budapeste em meio ao espetáculo das luzes refletidas na água: a silhueta do Parlamento, as pontes douradas e o Castelo de Buda, no alto da colina. É cinematográfico. Um encerramento digno de um roteiro que celebrou a beleza dos detalhes, longe do óbvio e das multidões.
Luxo à beira-rio

O Emerald Star é um hotel flutuante para 180 viajantes em 91 cabines. Com academia, piscina (que à noite se transforma em cinema), o animado Horizon Bar & Lounge e o restaurante Reflections, oferecendo gastronomia
contemporânea. O deck superior é ideal para relaxar e apreciar a paisagem de tirar o fôlego.
Essa reportagem foi publicada originalmente na revista EntreRios.
Você também pode assinar e receber a publicação no conforto da sua casa.
- Últimas Notícias