De volta à escola off-line
O impacto da proibição de celulares em escolas do Brasil e Portugal no aprendizado de jovens
Antes da massificação dos celulares, não ter notícias das pessoas próximas era a certeza de que a vida seguia seu curso normal. Como diz o ditado que tomamos emprestado dos ingleses: “No news, good news” — “Sem notícias, boas notícias”.
Hoje vivemos exatamente o oposto, “no news, bad news” – “sem notícias, más notícias”. Uma ligação não atendida, uma mensagem não lida ou estar off-line geram muita tensão. O silêncio é interpretado como perigo, distância ou até rejeição.
Por causa dessa ansiedade, que afeta adultos e crianças, governos de vários países — incluindo Portugal e o Brasil — resolveram limitar o uso de celulares nas escolas.
Em Portugal, os alunos começaram o ano letivo há pouco menos de dois meses com novas regras: proibição de telefones no primeiro e segundo ciclo e recomendação de restrição para os estudantes mais velhos.
Essa decisão foi baseada em um levantamento do Ministério da Educação, realizado, no ano passado, em escolas-modelo, onde se colocou em prática a proibição dos celulares a fim de avaliar o impacto da medida.
As conclusões indicaram uma percepção da diminuição de casos de bullying ou violência escolar, indisciplina, confronto físico e isolamento. Outros aspectos positivos a assinalar foram o aumento da socialização, o maior uso coletivo do recreio, das bibliotecas e a maior participação em atividades físicas.
No campo da aprendizagem, as coisas também estão mudando. Países como a Suécia e a Finlândia, que tinham implementado o uso da tecnologia como base do aprendizado, recuaram para o ensino tradicional por constatarem que a substituição quase completa dos livros estava prejudicando o ensino.
Muitos alunos sentiram maior dificuldade em se concentrar ao ler em telas, maior fadiga visual e uma relação mais superficial com os conteúdos.
Sublinhar, ler e escrever no papel cria memórias sólidas, além de que, a aprendizagem através das telas tende a afastar os alunos dos professores.
Inteligência emocional é isso mesmo: ter a capacidade de voltar atrás e aceitar que, se os métodos tradicionais consolidam melhor a aprendizagem, devemos regressar a eles. E a educação escolar é só um exemplo de uma ideia que vale para todos: tecnologia sim, mas com moderação.
*Susana Gaião Mota é autora dos livros As dúvidas dos 30, Sobre(viventes) e Mover o pensamento.
Essa coluna foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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