Crônica

De volta para o futuro no 28

Pelas colinas de Lisboa, o elétrico 28 revela a alma da cidade, numa viagem que mistura história, bairros emblemáticos e a poesia do cotidiano

No ritmo lento do elétrico 28, Lisboa se revela em colinas, aromas, personagens e paisagens que contam séculos de história. Crédito: Stephan Leuzinger/Pexels.

O 28 é uma instituição de Lisboa. Não, meu caro leitor e minha cara leitora, não se trata de um mero número, um dia do mês, um ano, muito menos a dica para um suposto jogo do bicho tuga. O 28 é como os lisboetas carinhosamente chamam a linha mais famosa do elétrico, o bonde que há mais de um século serpenteia pelas colinas da cidade, um trem em miniatura amarelo, homenageado nos imãs de geladeira, nas lojinhas de souvenirs

A viagem começa na Praça do Martim Moniz, na Mouraria, o bairro dos mercados asiático e oriental, onde se pode comprar de tudo, enfiando-se por entre as especiarias entulhadas nas bancas dos indianos, paquistaneses, bengalis, chineses, japoneses e coreanos.

O Martim Moniz não se pode levar para casa nem colar na geladeira, mas é o souvenir dos motivos para os portugueses zarparem, em épocas passadas, e descobrirem o mundo inclusive, o Brasil. O mesmo mundo que agora faz o caminho inverso para conhecer Lisboa na companhia do 28.

O passo do elétrico, lento e vacilante, é ruidoso como um simpático velhinho arrastando os chinelos. Ele sobe os trilhos ladeira acima em direção a Graça, o bairro dos miradouros, onde se vê a cidade do alto para se constatar que a beleza lisboeta se mantém inalterada, independentemente do ponto de observação. Em seguida, o 28 desliza até a Baixa, saudando igrejas, a imponente Sé e a casinha onde nasceu Santo Antônio.

Nesse sobe e desce, o elétrico faz o que pode para se enfiar nas ruas estreitas e passa raspando nas casas, como se fosse um voyeur que espreita pela janela a um palmo dos olhos. O dia a dia dos lisboetas, balançando os varais como brisa gentil, o cheiro de lavanda da roupa recém-lavada, pendurada para secar, ao aroma das sardinhas nas grelhas.

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O incansável 28 volta a subir em direção ao Chiado, cumprimenta o animado café A Brasileira e dá um olá ao Camões na praça — que parece piscar o olho em troca, certo de que, se na época d’Os Lusíadas o bonde já existisse, a epopeia do elétrico estaria em seus versos.

Depois, o 28 cruza o imponente prédio da Assembleia da República, a casa da democracia portuguesa, e a Basílica da Estrela e o seu belíssimo jardim, até descansar em frente ao Cemitério dos Prazeres. Mas não é um descanso eterno, pois daqui a pouquinho é hora de fazer o caminho de volta.

Conhecer Lisboa através do 28 é uma viagem pela capital portuguesa e pelo tempo em que éramos sustentáveis e não sabíamos. Afinal, o elétrico já era, como o nome diz, eletrificado desde mil oitocentos e preto e branco, a prova de que o passado, quase sempre desvalorizado, tem muito o que ensinar ao pretensioso futuro.

Essa crônica foi publicada originalmente na revista EntreRios.

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