Do conflito em Gaza para Lisboa: quem é o pernambucano à frente do maior consulado do Brasil na Europa
Alessandro Candeas fala baixo, escolhe as palavras, mas não esconde a convicção. “Um consulado existe para a comunidade”
Antes mesmo do elétrico cruzar a Praça do Comércio, filas já se formam diante de um prédio que, para milhares de brasileiros, representa muito mais do que um endereço oficial. É ali que se resolvem nascimentos, despedidas, reencontros, medos e recomeços. Nesse espaço funciona o maior consulado brasileiro da Europa. À frente dele está um pernambucano que aprendeu, desde cedo, que diplomacia não se faz apenas com documentos, mas com presença.
Alessandro Candeas fala baixo, escolhe as palavras, mas não esconde a convicção. “Um consulado existe para a comunidade”, afirma. A frase, que poderia soar protocolar, ganha outro peso quando dita por alguém que já organizou a retirada de brasileiros de uma zona de guerra, que caminhou por Gaza conhecendo cada família pelo nome e que hoje coordena quase 90 mil atendimentos anuais em Lisboa. “A diplomacia deixa de ser abstrata quando você está protegendo pessoas concretas”, diz.
O homem que hoje comanda uma estrutura complexa da diplomacia brasileira nasceu no Recife, mas nunca coube inteiro em um só lugar. A infância foi itinerante — Rio de Janeiro, Natal, volta a Pernambuco — como se o movimento já anunciasse o destino. Aos 13, 14 anos, a decisão estava tomada. “Eu decidi ser diplomata ainda adolescente. Era uma vocação muito clara.” Na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco, os livros já eram escolhidos com esse horizonte. A aprovação no Instituto Rio Branco veio cedo, aos 20 anos. “Sou diplomata desde então. É o meu primeiro emprego até hoje.”
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Essa precocidade não produziu pressa. Ao longo de quase quatro décadas, Candeas transitou entre Brasília e o mundo, entre gabinetes ministeriais e territórios marcados por tensão. Trabalhou no Ministério da Educação, no Ministério da Defesa, na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência. “Essas experiências fora do Itamaraty me ensinaram como o Estado funciona por dentro”, explica. O aprendizado se tornaria decisivo anos depois.
Experiências pelo mundo
No exterior, o primeiro posto foi Paris, na UNESCO, nos anos 1990. Cultura, educação, ciência, cooperação técnica — temas que atravessam também sua produção como escritor. Depois vieram Buenos Aires e Bogotá, experiências que moldaram sua visão da América do Sul. “Eu sempre acreditei na integração sul-americana”, afirma. Sua tese de Altos Estudos do Itamaraty refletiu isso: uma análise das relações Brasil–Argentina a partir do olhar argentino. “Olhar o outro pelo ponto de vista dele muda tudo.”
Mas foi no Oriente Médio que a diplomacia ganhou contornos mais duros — e mais humanos. Entre 2019 e 2023, Alessandro Candeas foi embaixador do Brasil na Palestina, com sede em Ramallah, e viveu quatro anos em Jerusalém. Conheceu de perto a comunidade brasileira na Faixa de Gaza, pequena em número, mas intensa em laços. “Nós fazíamos consulados itinerantes. Íamos até eles, levávamos documentos, remédios, assistência. Eu conhecia as famílias, sabia onde moravam.”
Em 2022, assistiu a um jogo da Copa do Mundo com brasileiros e palestinos no chamado Campo Brasil, um espaço simbólico que lembrava a presença histórica do país na região. Um ano depois, aquele mesmo território seria devastado pela guerra. No dia 7 de outubro de 2023, já em Brasília, nos últimos dias de férias, os alertas começaram a chegar ao celular. “Eu sabia que Israel responderia de forma muito robusta. Não se improvisa uma ação humanitária.”
A experiência no Ministério da Defesa, o estudo da estratégia militar, o conhecimento do terreno e, sobretudo, o vínculo humano com a comunidade. O processo de retirada dos brasileiros da zona de conflito foi conduzido com cautela, planejamento e noites quase sem dormir. “A função do diplomata, naquele momento, era defender. Defender vidas.” A atuação lhe rendeu reconhecimento e projetou seu nome no governo brasileiro.
Quando chegou a Lisboa, em 2024, o cenário era outro — mas o desafio, igualmente complexo. A capital portuguesa abriga hoje a maior comunidade brasileira fora do continente americano. Mais de meio milhão de pessoas. “Lisboa se tornou estratégica para a diplomacia brasileira”, afirma. Sob sua gestão, o consulado bateu recordes: 85.677 atendimentos em um único ano. Passaportes, registros de nascimento e óbito, assistência jurídica e psicológica, apoio a vítimas de violência doméstica, orientação a imigrantes abordados pela polícia.
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“A função do consulado é lidar com a vida cotidiana dos brasileiros”, resume. “É documentação, é orientação prática, é estar presente quando alguém mais precisa.” Foi com esse espírito que criou o Espaço da Mulher Brasileira em Lisboa e ampliou o diálogo com a comunidade e com a imprensa. “É importante falar, orientar, prevenir. Um consulado não pode ser distante.”
A dimensão política também cresce. Lisboa é atualmente o maior colégio eleitoral brasileiro fora do país. Mais de 60 mil eleitores são esperados nas próximas eleições. “Nossa responsabilidade é garantir que o direito ao voto seja exercido com dignidade.” Parcerias foram firmadas, estruturas ampliadas, erros do passado corrigidos.
A primeira vez em Lisboa
Trinta e cinco anos antes, em 1990, Alessandro Candeas havia pisado em Lisboa pela primeira vez como turista. “Nunca imaginei que estaria aqui como cônsul-geral.” Ele observa a cidade com o olhar de quem viu transformações profundas — em Portugal e no Brasil. Caminha pela Praça do Comércio, frequenta o Martinho da Arcada, onde Fernando Pessoa tomava café. Escritor entre diplomatas, diplomata entre escritores, carrega na escrita outra forma de servir.
Sem saber qual será o próximo destino, aceita a transitoriedade como parte do ofício. “Seguirei como embaixador, aqui ou em outro lugar. Sempre a serviço.” Em Lisboa, esse serviço tem rosto, fila, sotaque e esperança. E passa, todos os dias, pelas mãos de um pernambucano que fez da diplomacia um gesto profundamente brasileiro.
Veja a entrevista completa:
Lisboa
Jornalista com 20 anos de experiência e atuação em reportagens sobre violações de direitos humanos e políticas públicas. Possui experiência em pesquisa teórica e de campo, produção executiva, edição de texto, coordenação de equipe, planejamento estratégico e atuação em diferentes frentes do jornalismo e da comunicação em veículos como TV Globo, TV Brasil, CNN, RFI, Record e Band. Trabalha com storytelling e conteúdo para multiplataformas digitais, com experiência em televisão, documentários e comunicação organizacional no Brasil, Europa e Oriente Médio.
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