Do Pará a Portugal: a ascensão da Rainha da Tapioca
Assim como outros brasileiros que viram em Portugal uma oportunidade de crescer e contribuir com o país, Cidália passou a ser reconhecida como a Rainha da Tapioca, transformando uma solução de emergência na base de uma nova vida longe da violência.
Numa barraquinha simples montada em frente de casa em Belém do Pará, Cidália França servia tapiocas para pagar as contas e alimentar a filha recém-nascida. Tinha um diploma de jornalista, outro de professora e um histórico de programas de TV apresentados.
Mas naquele momento, com a carreira interrompida, o relacionamento rompido e um bebê nos braços, o que ela precisava mesmo era de sobrevivência — e dignidade.
Anos depois, a mesma mulher, agora em Lisboa, vem sendo reconhecida como a Rainha da Tapioca.
A tapioca, que em Belém era apenas um costume familiar, virou o motor de reinvenção de uma mulher que vem criando o próprio caminho com goma, trabalho duro e afeto.
A chegada em Portugal
Foi em 2018 que ela desembarcou em Portugal. Deixou o Brasil em busca de um futuro mais seguro, mas trouxe consigo uma bagagem invisível: sabores, memórias e uma paixão antiga que ainda não sabia que poderia virar profissão.
“Eu sempre gostei de cozinhar. No Brasil eu fazia buffet de 15 anos, bolos de casamento. Mas nunca foi minha profissão. Era para amigos, para madrinha, afilhados…”
Quando chegou a Portugal com a mãe e a filha, conseguiu emprego em restaurantes, onde trabalhou pesado. “O início é duro. É muito trabalho. Várias vezes eu me perguntei: ‘Meu Deus, o que eu fiz?’. O diploma, os anos de faculdade…”
Mas a intuição dizia que era só uma fase. E foi. Em pouco tempo, decidiu formalizar o talento: entrou para a escola de cozinha do Porto. Dois anos e meio de estudo técnico.
No meio do curso, conseguiu uma vaga no hotel da arquidiocese do Porto, que hospedava apenas padres. Foi lá que soube de uma vaga para um dos hotéis mais sofisticados de Portugal — o The Yeatman, onde está até hoje.
A partir de uma provocação do estrelado chef Ricardo Costa, ela passou a fazer tapiocas. Inspirada, criou uma receita que misturava o Brasil e Portugal — e também sua própria linhagem.
“A história da tapioca de bacalhau é o romance da minha avó com meu avô. Ela era uma indígena brasileira, do interior da ilha do Marajó. Ele, um português de Coimbra”.
A receita foi aprovada e entrou para a carta do hotel. Hoje, já não está mais no menu fixo, mas o sucesso abriu espaço para que os hóspedes peçam tapiocas personalizadas em uma estação que serve também omeletes.

Fora do ambiente do restaurante, Cidália também leva suas criações para eventos e festivais. A EntreRios a acompanhou durante o Brasil Origens Week, realizado em abril, em Vila Nova de Gaia, onde apresentou tapiocas criativas com recheios que uniam ingredientes típicos de várias regiões portuguesas: ovos moles com espuma de lima (Aveiro), queijo com alheira transmontana, leitão com germinados de coentro (Bairrada) e figo com queijo (inspirada numa sobremesa do Algarve).
“No Festival Internacional de Chocolate, criei uma tapioca com ganache de chocolate e gel de frutos vermelhos para mostrar que a tapioca, apesar de ser um produto rústico, pode perfeitamente entrar na alta gastronomia. Usei técnicas da gastronomia molecular para desenvolver o gel, o que resultou numa tapioca fina e elegante. Na minha apresentação, quis justamente destacar isso: com criatividade, conseguimos transformar algo simples em algo sofisticado”, conta.
Novos negócios

Atualmente, Cidália também produz e comercializa sua própria massa artesanal de tapioca, feita a partir da hidratação cuidadosa da farinha de mandioca. “As farinhas industrializadas são muito secas. É por isso que, ao virar a tapioca na frigideira, sobra aquele pó branco. Isso não pode acontecer”, explica.
A produção é limitada, mas segue um processo rigoroso: “Seco nos tabuleiros com pano, tudo bem organizado”, diz ela, que atualmente produz cerca de seis quilos por mês. É possível encontrar sua goma em Lisboa, no Mercadim, e no Porto, no Brasil Tropical.
Cidália também passou a colaborar com a Bimbi, marca de robôs de cozinha. “Crio conteúdo para o banco de dados deles. Não dá pra fazer a tapioca toda na Bimbi, mas os recheios, sim. E tem outras receitas, como pudim de tapioca granulada, por exemplo.”
Cidália não quer ficar limitada ao crepe de tapioca tradicional. Seu projeto é mais amplo: divulgar todas as possibilidades da mandioca na culinária. “Quero trabalhar com todas as facetas da mandioca: bolo, pudim, pão de queijo… O pão de queijo é feito com polvilho, que vem da mandioca. É, no fundo, um pão de tapioca. É isso que quero mostrar pro mundo”, diz, com entusiasmo
A vida pessoal também seguiu se transformando. “Casei com um português, como a minha avó, e tenho mais uma menina. E durante a gravidez fiz mestrado em Madri”, conta com orgulho, saboreando o gosto doce da vida.
Jornalista com mestrado em Comunicação Social pela Uerj e mais de 15 anos de experiência em redação e edição de reportagens. Já atuou no jornal “O Globo”, é sócia do #Colabora – Jornalismo Sustentável e repórter da edição brasileira do portal Fashion Network. Na EntreRios, é repórter com foco em comportamento e lifestyle.
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