Negócios

Empreendedoras brasileiras fazem o caminho inverso e levam negócios de Portugal para o país em que nasceram

Da gastronomia à moda, esse movimento tem se ampliado significativamente

A Baiana, que dá nome ao seu restaurante Acarajé da Carol, começou em Lisboa em 2017 e abriu filial em Salvador este ano. Foto: Divulgação.

Na saída da cozinha do recém-inaugurado restaurante Acarajé da Carol em Salvador, na Bahia, um quadro chama atenção: a ilustração de um clássico elétrico (bondinho) faz referência a Lisboa, onde ela abriu seu primeiro espaço, em 2017, e reside. Carol é uma das empreendedoras brasileiras que está fazendo o caminho inverso e abrindo filiais no Brasil de negócios que surgiram e prosperaram em Portugal.

Segundo dados do Alto Comissariado para as Migrações (ACM), em 2020, 65% dos novos negócios criados em Portugal foram de brasileiros — e três em cada quatro são liderados por mulheres. Ainda não há estatísticas de quantas estão levando suas empresas para o outro lado do Atlântico, mas esse movimento tem se ampliado significativamente.

“Quando eu falei que ia abrir um Acarajé da Carol em Salvador, muita gente achou que eu estava doida porque, na Bahia, eu seria mais uma. Mas a minha motivação era muito mais espiritual e ancestral do que financeira. A gente está sempre buscando se realizar, né? E é isso que estou fazendo”, conta Carolina Brito, famosa pelo apelido de Carol. No Brasil, ela manteve o mesmo menu, inclusive com sua moqueca feita com bacalhau.

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Na estreia do restaurante no Bairro Alto, em Lisboa, ela já havia experiência prévia no setor, mas enfrentou barreiras inesperadas: “Eu queria ter meu tabuleiro de acarajé na porta do restaurante e não consegui licença para isso. Tive que me adequar, fritar os bolinhos na cozinha e só servir para quem entrasse no salão”. Empreender no Brasil, 22 anos depois de ter saído, também acarretou outras dificuldades. “Eu só tinha identidade e CPF. Precisei começar do zero, abrir MEI, depois empresa”, enumera.

A carioca Rebeca Bitencourt e a sócia Thayanna Botelho também resolveram expandir o escritório de arquitetura, Nest, com sede em Lisboa, para o Rio de Janeiro. Hoje, elas se revezam entre as duas cidades, equilibrando projetos em mercados diferentes. “Estarmos consolidadas em Portugal ajudou muito a dar esse passo de volta. Até porque, volta mos com mais know-how, com um portfólio”, afirma Rebeca.

As sócias Rebeca Bitencourt e Thayanna Botelho (de verde), da Nest Arquitetura. Foto: Divulgação.

O escritório, fundado em 2020, ganhou notoriedade com projetos de salões de beleza. Hoje, mais de 90% da clientela na Europa é formada por brasileiros. “Os outros 10% nos buscam porque querem uma brasilidade na decoração”, explica a arquiteta. A dupla assina trabalhos de destaque em Portugal, como o projeto de reformulação e ampliação da área VIP do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, com 760 metros quadrados e capacidade para 400 lugares.

Prazos melhores e orçamentos mais rápidos são, segundo Rebeca, grandes vantagens de se trabalhar no Brasil. “Estamos com uma pessoa em São Paulo e queremos expandir os negócios para outros estados também, sem abrir mão do que fazemos em Portugal”.

Expansão também é o foco da pernambucana Bianca Abreu, fundadora da marca de moda Our brand. Formada em Direito Internacional pela Universidade de Coimbra, encontrou na arte e na costura um hobby que acabou virando um empreendimento fashion, em 2020, em parceria com a irmã. O ponto de virada foi a entrada em um espaço de vendas no Príncipe Real, em Lisboa. “Os turistas europeus são o nosso grande público. Eles se encantam com a tropicalidade suave que buscamos imprimir nas peças”, conta Bianca.

Bianca Abreu, da Our Brand. Foto: Divulgação.

É ela quem produz os desenhos em aquarelas estampadas nas roupas de coleções que começaram a ganhar espaço no mercado português e espanhol. Mas, este ano, um convite levou à virada para um movimento inverso: vender em São Paulo. “Então, abraçamos a oportunidade”, afirma. Para ela, há um simbolismo especial em transitar entre dois mundos. “Hoje conseguimos lançar coleções que circulam o ano inteiro, no hemisfério Norte e no hemisfério Sul”.

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Bianca se orgulha de manter a produção em Portugal, com costureiras e fábricas locais, mas vê no Brasil uma chance de expansão e de diálogo direto com suas raízes. “É arte vestível, que traduz minha essência e a tropicalidade brasileira. Quero espalhar isso nos dois lados do Atlântico”. As profissionais entrevistadas também realçam os laços de afeto e familiares que contam, e muito, nesse tipo de investidas.

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Fernanda Baldioti

Jornalista com mestrado em Comunicação Social pela Uerj e mais de 15 anos de experiência em redação e edição de reportagens. Já atuou no jornal “O Globo”, é sócia do #Colabora – Jornalismo Sustentável e repórter da edição brasileira do portal Fashion Network. Na EntreRios, é repórter com foco em comportamento e lifestyle.

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