Entenda como o conflito entre Estados Unidos e Irã deve impactar nos preços do petróleo e da economia global
Irã possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo e já determinou o fechamento do estreito de Ormuz, o que deve impulsionar o aumento dos preços globais
O ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, iniciado no sábado (28), já está provocando graves consequências para todo o mundo e um dos seus efeitos práticos mais visíveis se dá no campo da economia.
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Um dos pontos que mais despertam a preocupação é em relação ao petróleo, já que o Irã possui a terceira maior reserva do mundo e o exporta para países como a China. Apesar disso, produziu apenas 3,45 milhões de barris por dia (bpd) em janeiro, segundo a Agência Internacional de Energia (menos de 3% do que é produzido globalmente).
Com isso, o preço do petróleo já subiu vertiginosamente desde sábado. Alguns tipos de petróleo como o Brent já subiram mais de 10%, chegando a 82 dólares, enquanto bolsas de valores espalhadas pelo mundo já registaram queda. Para evitar uma subida de preços mais acelerada, o grupo Opep+, com países produtores de petróleo, afirmou que vai elevar a produção a 206 mil barris por dia.
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Mas para além disso, o país possui uma localização estratégica no Oriente Médio. Com o conflito, o país bloqueou o Estreito de Ormuz, principal rota do petróleo de países como Arábia Saudita e Kuwait, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial (20 milhões de barris por dia) produzido por parte de pelo menos 150 petroleiras. Com esse bloqueio, o preço do petróleo pode chegar a mais de 100 dólares, segundo analistas do mercado. A elevação pode trazer impactos para a vida real das pessoas, conforme apontam especialistas ouvidos pela EntreRios.
“Qualquer ameaça a esse fluxo tem potencial de encarecer o barril rapidamente, o que se traduz em aumento nos preços dos combustíveis, elevação do custo do frete internacional e pressão indireta sobre cadeias produtivas inteiras“, afirma o estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz em relatório.
O chamado fluxo do dinheiro em relação aos investimentos mundiais também deve ser deslocado para outros tipos de ativos. “Em cenários de guerra no Oriente Médio, o padrão histórico se repete: fluxo para ativos de refúgio (dólar, Treasuries longos, ouro, iene, franco suíço), enquanto moedas de emergentes sofrem, principalmente as ligadas a risco e a importação de energia”, afirmou Enrico Cozzolino CEO e estrategista de investimentos da Zermatt Partners.
Em compensação, ativos de grandes empresas de tecnologia como Nvidia, Microsoft, Google, Amazon e Apple devem cair por conta da aversão à risco e de incertezas quanto ao impacto econômico do conflito.
Títulos mais ligados ao tesouro devem subir. “Investidores tendem a vender posições mais arriscadas como ações e moeda de países emergentes e comprar dólar. Assim, os juros dos títulos do Tesouro dos EUA tende a subir de preço e cair a taxa por conta do aumento da procura por títulos mais seguros”, destaca Flavio Conde, analista da Levante Investimentos.
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Ele destaca ainda que a Petrobras deve ganhar destaque na bolsa e que deve esperar cerca de 45 dias até a estabilização do preço do petróleo e a nível mundial. Caso os valores se mantenham altos, ela será obrigada a reajustar os preços de gasolina e diesel, por exemplo.
Um ponto de atenção nesse sentido é a China já que o país é um dos que mais compra o petróleo iraniano. Com a interrupção do estreito de Ormuz, serão necessárias novas fontes de fornecimento, o que impacta em preços de todo o mundo, podendo trazer impactos inflacionários.
Conde explica ainda que a situação do mercado de petróleo é um pouco diferente em relação ao momento quando Hamas invadiu Israel e foi iniciado o conflito na Faixa de Gaza em 2023.
Enquanto na época o consumo de petróleo estava um pouco acima da produção, agora se produz mais petróleo do que se consome diariamente com possibilidades de aumentar a produção em um curto período de tempo se necessário, como forma de aliviar o aumento dos preços e de compensar o fornecimento para a China.
Apesar disso, o mundo fica de olho em novas possibilidades de aumento da gasolina e em futuros desdobramentos de países vizinhos, que também podem ter as suas produções atingidas por conta do conflito.
“A atenção agora se volta para os países vizinhos, como Emirados Árabes, que podem sofrer alguma represália um pouco mais significativa”. “Se isso acontecer, mostra que o Irã ainda tem muita força bélica e o conflito pode escalar a um nível ainda mais problemático”, diz Felipe Sant’Anna, especialista de investimentos da Axia Investing, que prevê o aumento do preço do barril entre 85 e 90 dólares mas se os conflitos continuarem, os valores poderão chegar a 100 dólares.
Em Portugal, o ministro da economia Manuel Castro Almeida, afirmou que o aumento do preço do petróleo não é boa notícia mas lembrou que o país possui 70% de suas fontes de energia entre as renováveis, o que diminui a dependência do país ao petróleo. Apesar disso, ele manifestou cautela.
“O Governo estará sempre atento e a obrigação do Governo é estar atento para tomar, em cada momento, medidas adequadas para garantir que a economia funcione, que as pessoas tenham condições de vida e que as finanças públicas possam estar equilibradas”.
Ele disse ainda que o país possui suas próprias reservas de petróleo. “Nós temos reservas importantes que eu espero que durem para lá do tempo que é anunciado e o tempo que vai durar esta guerra. Neste momento, não há nada para recear a esse respeito”, disse o ministro da Economia e da Coesão Territorial.
renan@revistaentrerios.sapo.pt
Lisboa
Jornalista com graduação pela PUCPR, MBA em Rádio e TV pela Universidade Tuiuti do Paraná e mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Lisboa. Atuou como repórter da Gazeta do Povo nas editorias de economia, negócios e política e no portal TechTudo, além de experiência em veículos esportivos e especializados em tecnologia.
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