Minorias

Entrevista exclusiva: Presidente de Associação Cigana aponta o dedo ao Chega e às ofensas reiteradas de André Ventura

José Fernandes, presidente da Associação Techari fala sobre preconceitos, boas relações com brasileiros e o momento político em Portugal

José Fernandes, representante dos ciganos, dispara contra André Ventura e o Chega. Crédito: Renan Araujo

Às vésperas das eleições presidenciais em Portugal, o discurso contra minorias voltou a ganhar força no espaço público, liderado principalmente pelo Chega, partido de extrema-direita, na figura do seu líder André Ventura.

O discurso do partido, que tem ganhado projeção e hoje já é a segunda força no parlamento português, tem como uma de suas marcas a colocação de outdoors contra a presença de ciganos e de imigrantes do Bangladesh no país.

Em ação judicial recente, em dezembro, a Associação Techari, que representa os ciganos na região metropolitana de Lisboa, conseguiu uma decisão favorável na justiça que obrigava o Chega a retirar outdoors ofensivos contra essa comunidade. Os cartazes foram retirados, mas outros painéis com discurso contra imigrantes, porém, seguem presentes pelo país.

A EntreRios conversou de maneira exclusiva com José Fernandes, presidente da Associação Techari (que significa liberdade na língua cigana), que acaba de completar seis anos. O grupo possui parcerias com os municípios de Amadora, Oeiras e Loures e atua para promover a empregabilidade, educação e inclusão social do povo cigano, buscando a mediação de conflitos e a sensibilização para a convivência pacífica com essa população.

“O emprego é fundamental para nós, para promover a socialização, aumentar o contato com outras culturas e promover essa tolerância com o povo cigano”, destaca.

Segundo Fernandes, a associação busca reagir às “muitas injustiças” vividas no dia a dia da população. “Achamos por bem abrir alguma coisa para dar o nosso contributo. Ajudando a nossa comunidade também estamos a contribuir para toda a sociedade”, afirmou.

O presidente da associação falou sobre a boa relação dos ciganos com os imigrantes e os brasileiros em geral, sobre preconceitos que a população portuguesa têm contra eles, sobre as expectativas para as eleições presidenciais do próximo domingo e disparou contra o Chega de André Ventura. Abaixo, confira os principais trechos da entrevista.

 

Arquivo; Manifestação Antirracismo no dia de Portugal do ano passado (10/6/2025)  em Lisboa, Créditos: Tiago Petinga/Lusa

Preconceito antigo, discurso renovado

Para José Fernandes, o preconceito contra os ciganos em Portugal é estrutural e atravessa diferentes regimes políticos. Ele relembra o período da ditadura, antes de 1974, quando a comunidade vivia sob vigilância constante e sem acesso regular à escola. “Tínhamos que sempre circular de um lado para o outro, vivíamos às margens da cidade. Até havia umas zonas em que a comunidade cigana podia estar por 48 horas e depois tinha que mudar”, relembra.

Apesar de alguns avanços nas décadas seguintes, ele afirma que a comunidade sempre procurou se resguardar por conta de medo dos preconceitos vividos. A presença de drogas, a precariedade de trabalho e as dificuldades de habitação também foram problemas enfrentados ao longo do estabelecimento do regime democrático. “Sempre tivemos uma cultura muito solidária, de confiar na nossa comunidade e de viver o dia a dia. Mas sempre sofremos muito com a falta de acesso à educação”, destaca.

Fernandes avalia que o cenário piorou novamente com a ascensão da extrema direita, que busca instrumentalizar o medo, acordar velhos preconceitos e aumentar o ressentimento social. “Estamos a passar outra vez uma crise de loucos não só em Portugal como em toda a Europa. Temos pessoas que estão de mal com suas próprias vidas e procuram esses loucos para votar achando que vão resolver todos os problemas de suas vidas”, afirmou.

Ele ainda reforça que o cumprimento da Constituição é levado muito a sério pela comunidade, rebatendo um discurso do Chega que aponta para violações à lei por parte da comunidade. “Se alguém se portar mal, deve ser punido, não importa se é da comunidade. Isso está fora de questão”, reitera ele.

Ele ainda explica que na Espanha a difusão da cultura cigana é maior do que em Portugal e reclama da falta de integração do país a essa população. Recentemente, ele promoveu uma palestra do presidente da Instituto de Cultura Cigana da Europa na Universidade de Lisboa, a primeira sobre o tema em um ambiente acadêmico. Ele estima haver pelo menos 70 mil ciganos em Portugal e mais de 20 milhões espalhados pelo mundo.

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Os brasileiros e os ciganos

Na leitura de José Fernandes, os brasileiros passaram por processos semelhantes ao vivido historicamente pelos ciganos. Ele recorda que, entre os anos 1990 e 2000, houve um aumento significativo da xenofobia contra mulheres brasileiras em Portugal. “As mulheres brasileiras não eram bem-vindas a Portugal, porque se achava que roubavam os maridos das portuguesas. Isso foi espalhado em uma época ainda sem redes sociais e o brasileiro passou a ser mal visto”, afirmou.

Ele lamenta o preconceito porque atuava na área de hotelaria e gostava de contar com a mão de obra dos brasileiros. “Eram pessoas ótimas, simpáticas, que já falavam a nossa língua e eram grandes trabalhadoras”, frisa.

Segundo ele, boatos e generalizações foram sendo reproduzidos até se tornarem senso comum. Hoje, Fernandes observa que brasileiros, ciganos e outros imigrantes voltam a ser colocados no centro do debate político, especialmente nas redes sociais e o alcance de velhos preconceitos atingiu um alcance ainda maior. “Agarramos muito as redes sociais. Às vezes, uma única pessoa contamina centenas de outras e espalha uma imagem negativa de ciganos, de brasileiros, de imigrantes”, afirmou.

Fernandes lembra que o primeiro presidente com descendência cigana (vinda de Portugal) de um país foi o brasileiro Washington Luís, último líder da República Velha, entre 1926 e 1930. Outro grande nome foi Juscelino Kubitschek, que governou o país entre 1956 e 1961, e tinha bisavôs tchecos de origem cigana.

Fernandes também acredita que há uma grande proximidade em relação a comportamentos entre a comunidade cigana e os brasileiros, com quem José conviveu desde a infância em Portugal.

“Se você junta um grupo de brasileiros eles conversam, bebem e se divertem, têm uma alegria dentro deles. O português não é assim, é um povo mais fechado. É mais fácil para o povo cigano se enquadrar com brasileiros e africanos nesse sentido”, explica ele.

A relação com a imigração

José Fernandes afirma que a convivência entre ciganos e brasileiros é, em geral, pacífica, especialmente por serem um povo marcado com a exclusão. “A comunidade cigana não tem qualquer preconceito ou xenofobia contra os imigrantes. Somos defensores da imigração porque fazemos parte dela”, disse.

Apesar da retórica anti-imigração, José Fernandes sublinha a dependência crescente que a economia portuguesa possui da imigração. “Se os bengaleses e os indianos forem embora, Portugal morre entupido, porque não vai haver quem limpe as sanitas”, afirmou, ao descrever a necessidade de mão de obra para setores como limpeza, agricultura, obras e hotelaria.

Ele afirma que já na década de 90, quando trabalhava na área da hotelaria, Portugal precisava de 300 mil trabalhadores na área e que o número aumentou consideravelmente hoje.

Ele também critica o que vê como hipocrisia no debate atual. “Os portugueses sempre foram um povo imigrante, desde sempre. Nós emigramos para fora para comer. Hoje emigramos para enriquecer e ainda se coloca a imigração em Portugal como algo ruim”, resume.

André Ventura e a extrema direita

Ao longo da entrevista, José Fernandes acusa André Ventura, líder do Chega, de promover o ódio como estratégia eleitoral. “A cada eleição ele volta a falar da comunidade cigana e a culpar a gente pelos problemas do país. É um oportunista que viu nisso uma forma de ganhar votos. Nem ele esperava que havia tantos tontos no país que votariam nele”, reclama.

Para ele, a ascensão de Ventura representa um risco à própria democracia. “Ele está a utilizar o sistema democrático para depois destruí-lo”, frisa.

Fernandes considera que o discurso colabora para que os próprios portugueses “se virem uns contra os outros”. Segundo ele, os 60 deputados do Chega pagos pelos contribuintes se dedicam apenas a ofender as minorias e a repercutir conteúdos depreciativos em redes sociais.

“Pelo menos metade deles possuem problemas na justiça. Ele acaba trazendo mais bandidos para o partido e acaba por ter proveito, porque são pessoas com influência”, dispara, lembrando como André Ventura também se alia a importantes nomes da extrema-direita pelo mundo como Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Na sua avaliação, o foco constante em ciganos e imigrantes serve para desviar atenções de outros problemas estruturais do país. “Eles pensam: enquanto falam dos ciganos, não falam da gente”, disse, referindo-se a grupos que possuem interesses políticos e econômicos na propagação desse discurso.

Fernandes acredita que Ventura tem cometido reiterados crimes na propagação de seu discurso e que já deveria ter sido punido. “É um discurso de incentivo ao ódio. Eu digo que se houvesse justiça em Portugal, o André Ventura estava preso. O que não querem é aplicar a lei porque seu discurso interessa a alguns”, dispara.

Expectativa eleitoral

Apesar do cenário de polarização, José Fernandes diz não acreditar que a extrema direita consiga vencer as eleições presidenciais. “Não vai ser eleito, eu penso que nem à segunda volta vai”, aposta.

Para ele, o desafio maior está além do resultado eleitoral imediato. “Temos que contar com a barriga de todos. O mal de uns é o mal de todos” E conclui com um alerta: “É muito mais fácil ter liberdade para lutarmos do que não termos liberdade nenhuma para conseguirmos fazer nada”, finaliza.

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Lisboa

Jornalista com graduação pela PUCPR, MBA em Rádio e TV pela Universidade Tuiuti do Paraná e mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Lisboa. Atuou como repórter da Gazeta do Povo nas editorias de economia, negócios e política e no portal TechTudo, além de experiência em veículos esportivos e especializados em tecnologia.

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