Entrevista

Zeca Pagodinho: “Não penso em morte. Imaginem eu de camisola branca com esse barrigão, tocando harpinha no céu?”

Em entrevista à EntreRios, o sambista fala sobre os 40 anos de carreira, o filme "Deixa a Vida Me Levar", a família, a fé e o equilíbrio entre a fama e a simplicidade de Xerém

Zeca Pagodinho sorri durante entrevista exclusiva sobre os 40 anos de carreira e o filme Deixa a Vida Me Levar, que contará sua trajetória das rodas de samba do subúrbio carioca ao sucesso nacional.
Zeca Pagodinho celebra quatro décadas de samba, sucessos e histórias. Crédito: Zo Guimarães/Divulgação.

Depois de realizar uma turnê internacional (com passagem por Portugal) para celebrar os 40 anos de carreira, Zeca Pagodinho se prepara para cair na estrada novamente. Dessa vez, na companhia de Alcione e Jorge Aragão com a tour O Maior Encontro do Samba.  Os shows, por enquanto, acontecem apenas no Brasil, a partir de junho.

Mas em meio ao novo projeto, as comemorações das quatro décadas continuam. Ainda em 2026, será lançado o filme Deixa a vida me levar, que conta a história de Pagodinho, da infância ao auge da carreira. O título é homônimo à canção eternizada na voz dele e entendida como sua filosofia de vida. “Não tem esse negócio de deixar a vida levar em tudo. No trabalho e com a família, não dá pra ser assim. Tem que ter responsabilidade”, diz em entrevista exclusiva à EntreRios.

A única atriz já confirmada é Juliana Knust, no papel de Mônica Silva, com quem ele é casado há 39 anos. O roteiro é baseado na biografia de Jane Bezerra e Leo Bruno, de mesmo nome do filme, e o lançamento será em 2026. Está no forno, também, um audiovisual para streaming com várias cantoras interpretando a obra do sambista, em parceria com a gravadora Universal.

O nome artístico do compositor e cantor é uma marca poderosa. O Bar do Zeca Pagodinho, por exemplo, tem seis filiais no Brasil e, segundo disse à EntreRios o presidente do grupo BFW, Paulo Pacheco, “há planos de abrir uma unidade em Lisboa”. Não, os bares não são do artista: “Deus me livre! Se fosse meu, já tinha ido à falência, eu já teria dado tudo pra todo mundo”.

Ele licencia a marca, como faz com roupas, canecas, ecobags, porta-latas, quadros, almofadas, coolers etc. Parte dos lucros vai para o Instituto que leva seu nome, em Xerém (em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro), a exemplo do cachê pago pela cervejaria Brahma desde 2004. “Meu contrato como garoto-propaganda vai direto para a escola de música do Instituto, uns R$ 40 mil por mês”, diz.

Zeca Pagodinho no Bar do Zeca.
Bar do Zeca: são seis unidades no Brasil e “há planos de abrir uma em Lisboa”. Crédito: Zô Guimarães.

Zeca Pagodinho é, hoje, quase uma unanimidade nacional. Os fãs só aumentam e incluem muitos jovens nas plateias dos shows “e muitas crianças também”, afirma. Crianças? “Sim, eu agora sou tema de aniversário de um ano, sabia?” Ele garante ser o inventor da “moda” de comemorar “mesversário” de bebês. “Não tinha isso em lugar nenhum quando nasceu meu primeiro filho, Eduardo (hoje com 36 anos). A rapaziada ia lá pra casa, tinha barril de chope, pagode e, claro, Parabéns pra você“. Assim foi, igualmente, com os outros três filhos — Louis, Elisa e Maria Eduarda. E se repete com os sete netos.

“Nunca planejei nada. E, hoje, eu estou aqui muito feliz por comemorar quatro décadas fazendo o que eu gosto”

O cantor é um superavô. “Quando viajo ou quando eles não estão junto comigo, ligo todo dia para saber se comeu, o que comeu, se saiu, se já chegou, se foi pra escola”.

Essa história de sucesso começou com Jessé Gomes da Silva Filho, nome herdado ao nascer, em 1959, no Irajá — bairro do subúrbio do Rio de Janeiro. Quarto filho de cinco crianças em uma família pobre, ele começou a trabalhar cedo: “Aos 14 anos, vendia limão na feira, lavava lixeiras dos prédios, fui contínuo (office boy), fazia o que aparecia. Já tinha namoradinhas, tinha que ganhar dinheiro”. A necessidade e o trabalho afastaram-no da escola e, paralelamente, aproximaram-no de rodas de samba.

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Antes do nome artístico, ele ganhou o apelido de Seca, em casa. Depois, virou Zeca “nas ruas”. O batismo final veio do mundo do samba, onde passou a ser chamado de “o pagodinho”. Uma música aqui, uma parceria ali, a fama foi crescendo. “Nunca planejei nada. E, hoje, estou aqui, muito feliz por comemorar quatro décadas fazendo o que eu gosto”, declara.

Ele canta músicas que batem na mesma tecla, a realidade do povo brasileiro — com doses de ironia, falando de labuta, de Deus, São Jorge, Ogum. A religiosidade é uma marca forte. “Sem Deus, não há nada”. Já pensou em se reinventar? “Não. Tá bom assim. Dá muito trabalho mudar”, responde.

Zeca Pagodinho posa sorridente na Casa de Xerém, em Duque de Caxias, símbolo de suas origens e da simplicidade que marca os 40 anos de sua trajetória no samba.
Zeca Pagodinho, na Casa de Xerém, refúgio do artista e berço do Instituto que leva seu nome. Crédito: Zô Guimarães.

Mas esse sucesso tem um fardo. “Já pensei em parar umas três vezes porque me incomoda esse negócio de ‘olha lá, é ele! É ele!’ Sim, eu sou eu, você é você, somos gente normal. Uma pessoa ficar nervosa quando chega perto, tremer quando me vê… Sou tão feio assim, pô? Me incomoda”. Mas também levo em conta o quanto é bom espalhar alegria. Tenho um amigo que me liga, todo ano, no Dia dos Médicos, para dar os parabéns. Diz que eu sou médico de alma. Me contaram a história de uma pessoa doente que vivia presa em um cômodo com grades, em casa, e que se acalmava quando ligavam o gravador com uma música do Zeca Pagodinho. Só isso já valeria tudo”.

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A EntreRios propôs ao sambista falar sobre si e a filosofia de vida que divulga através de trechos de algumas das principais canções desses 40 anos de carreira. E ele topou.

“Deixa a vida me levar”

Não vale para tudo. Com amigos, ah, aí é diferente, a vida pode ir levando… Eu sinto isso mais forte quando estou no meu sítio, em Xerém. Lá, ninguém me pede foto, leio o jornal tranquilamente no botequim, não tem isso de Zeca Pagodinho famoso.

“Camarão que dorme, a onda leva”

Um dia, achei uma gravação em fita cassete do (sambista) Beto Sem Braço, com um trecho. Acrescentei mais um e o parceiro Arlindo Cruz (1958-2025), outro. Misturamos tudo e deu essa música que é a marca oficial dos 40 anos. A dica é por aí: na vida, dormiu no ponto, perdeu a oportunidade.

“Sobrou pra mim o bagaço da laranja”

Essa canção tem uma história engraçada. Nós fomos fazer a mudança do Arlindo para Marechal Hermes (Zona Norte do Rio), onde teria uma feijoada na laje. Quando estávamos chegando, ainda no caminhão da mudança, vimos galões de lixo cheios de restos de laranja chupada. Falei: “Ih, comeram tudo, sobrou pra gente só o bagaço.” E fizemos o samba. É o seguinte: se não quiser ficar só com o resto, não chegue atrasado nas “feijoadas” da vida.

“Se eu quiser fumar, eu fumo; se eu quiser beber, eu bebo”

Tem a ver com “não enche meu saco”, claro. Não atrapalhe a vida do alheio; cada um faz o que quiser, desde que pague suas contas. Simples.

“Você sabe o que é caviar?”

Isso é uma bela crônica, né? Do Trio Calafrio (Luiz Grande, Barbeirinho e Marcos Diniz). Caviar é comida de rico, não é para o povo, que nunca come, só conhece de nome. Parece comigo, só gosto de arroz, feijão, farofa e ovo.

“Só Deus sabe o quanto se labutou”

Sem Deus e labuta, não tem nada, não tem sucesso. Tem que ter Deus na parada. Tudo é ligado a isso. E tem que lutar.

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“Aquele que dá pão também dá castigo”

Para mim, isso vale muito na criação de filhos e netos. Tem que ajudar, mas também ensinar. Eu nunca consegui botar filho de castigo, bater nem pensar. E olha que eu apanhei muito na infância! Mas se alguém põe um deles de castigo, eu fico lá junto.

“Eu deixei de ser pé de cana”

Deixar de beber? Não! Eu não deixo, não! Com a idade, a gente só diminui um pouco, né?

“Na vida, a coisa mais feia é gente que vive chorando de barriga cheia”

Essa, do (sambista) Sylvio da Silva, nunca saiu dos roteiros dos meus shows. Se a pessoa choraminga de barriga cheia e ainda fofocando, piorou! Me faz mal. Em Xerém, a gente tem o Bar da Fofoca, mas é do bem. Passo lá e um diz que fulano saiu bêbado daqui, o outro conta que apanhou da mulher… Mandei fazer uma placa para outro boteco, do outro lado da mesma rua: Bar da Fofoquinha, mais leve (risos).

“Vai vadiar”

Vou mesmo, quando a turnê acabar, em dezembro. Vadiar é passear, ter tempo livre. Vou levar minha família inteira, netos, filhos, genros, nora, para passear em algum país, ano que vem. Muito bom.

“O tempo voa e não perdoa”

Penso nisso toda hora, que o tempo está passando, mas procuro não focar no fim da vida, sabe? Porque eu gosto muito desse mundo. Deus é bom, não vai deixar isso acabar cedo. Imaginem eu de camisola branca com esse barrigão, tocando harpinha no céu? Não dá, né? (risos)

Zeca Pagodinho ao lado do neto Noah, com quem lança pela primeira vez uma parceria musical inédita que une gerações do samba.
Zeca com o neto Noah, de 15 anos: os dois lançaram parceira inédita recentemente. O menino canta com o avó a faixa Fê e esperança. Crédito: Zô Guimarães/Divulgação.

Assista a entrevista com Zeca abaixo:

Essa matéria foi publicada originalmente na revista EntreRios.

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