Erika Hilton: “É na educação que a gente rompe o preconceito”
Primeira deputada federal trans a ocupar uma cadeira no Congresso Nacional brasileiro, Erika Hilton diz que apenas leis não impedem as pessoas de odiar
Erika Hilton, paulista de 32 anos, é a primeira mulher trans e negra a ocupar uma cadeira no Congresso Nacional brasileiro e se destaca como uma voz corajosa diante de injustiças sociais e em defesa da população LGBTQIA+.
Em junho, foi convidada pelo Parlamento Europeu para participar da Conferência de Direitos Humanos da EuroPride 2025, em Lisboa, sendo aplaudida de pé após discursar por 40 minutos sobre temas relacionados a preconceito e de contar a sua própria trajetória, que é um verdadeiro libelo sobre superação e rejeição.
Erika bate na tecla da “urgente necessidade” de políticas públicas que protejam e garantam cidadania plena à referida comunidade. “O Brasil está atrasado. Outros países já avançaram muito no acesso à saúde, trabalho e moradia para pessoas trans”, afirma. Frisa que leis são importantes, mas não bastam.
“Nós precisamos de processos educacionais. Leis mais severas não impedem que as pessoas continuem sendo ensinadas a odiar. É na educação que a gente rompe o preconceito”, pontua.
A congressista do PSOL-SP defende um pacto coletivo que beneficie, também, negros, mulheres, indígenas e pessoas com deficiência. “Conscientizar é fundamental. Enquanto isso, claro, é preciso responsabilizar criminosos. Não podemos permitir a impunidade”.
Não compactuar com violências e abusos é o tom mais corriqueiro de seus pronunciamentos — que, constantemente, viralizam nas redes sociais.
Como a frase “Eu não tolerarei”, dita em discurso há dois anos. O brado retumbante foi uma reação, no plenário, após uma ‘piada’ homofóbica de um opositor, o deputado federal Abilio Brunini (PL-MT). “Não aceitarei, não tolerarei ser desrespeitada, interrompida, calada”.

Erika é titular das comissões de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial, Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, Comissão de Trabalho e Comissão Especial sobre Inteligência Artificial.
Incansável, a parlamentar não se descreve como uma pessoa movida pelo medo e diz que a palavra que mais a identifica é “audácia”.
Uma lição herdada da escritora Carolina de Jesus (1914-1977): “Tem uma frase dela que eu levo no peito: ‘Nunca foi sorte, sempre foi audácia’. Erika completa: “O medo paralisa. Eu prefiro a inquietação da preocupação, porque ela nos move, nos faz reagir”.
A força gigantesca talvez venha de episódios que vivenciou. Erika chegou a ser expulsa de casa na adolescência, devido a sua identidade de gênero, e acabou sendo obrigada a recorrer à “profissão mais antiga do mundo”, a prostituição, para sobreviver. Anos mais tarde, recuperou o relacionamento com a mãe e ingressou na faculdade de pedagogia.
Gosta de música e tem escutado Beyoncé, especialmente o álbum Cowboy Carter. Há dois meses, foi acusada, de ter usado verba pública para ir ao show da cantora, em Paris. Erika ofereceu comprovantes de que havia pagado despesas com o próprio dinheiro e negou que teria levado maquiadores na viagem.
“Meus assessores são pessoas LGBTs que maquiam e também têm formação acadêmica. São bons articuladores, ajudam na produção audiovisual e prestam serviço nas comissões em que atuo”.
Quando o assunto é moda, ela “nada de braçadas”, como se diz popularmente, porque está sempre muito bem vestida, maquiada e com cabelos impecavelmente penteados.
“Eu não tolero moda fútil. Moda tem que contar história, tem que carregar luta. Não dá pra ser vazia”.
Ao descrever sua personalidade ela usa as palavras “intensa e perturbada” mas “de um jeito bom”. Afirma que a ascensão da extrema-direita é uma preocupação brutal: “Porque representa riscos reais à democracia, aos direitos humanos e à vida de pessoas como eu”. Combate o extremismo com coragem e luta no plenário, nas palestras e redes sociais, onde constantemente viraliza por declarações fortes.
Ela acentua que o ambiente político é um território exclusivamente masculino e que é urgente que mais mulheres ocupem as tribunas. Sobre seu momento pessoal, resume: “Lutei muito para estar aqui. Eu mereço viver em paz comigo mesma”.
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Essa entrevista foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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