Estilistas trans e indígena brasileiras conquistam espaço na moda de Paris
Coleção desafia padrões e mostra diversidade e sustentabilidade nas passarelas internacionais
“Acredite no seu axé”. Essa é a frase estampada em camisetas e jaquetas da estilista Isa Silva.
Mulher trans, negra, nordestina e nascida no interior da Bahia, Isa é um dos nomes mais influentes do cenário fashion brasileiro.
Ela, que acaba de apresentar suas criações em Paris e de colocar suas roupas em um ponto de vendas em Lisboa. Na loja Conceito, imprime em suas criações, a força da identidade afro-brasileira e aposta na moda sem gênero, concebida para vestir todos os corpos.
Isa estreou nas passarelas de Paris no evento Ecos da Brasilidade, realizado em setembro. A iniciativa, idealizada pela relações-públicas Pamela Ferreira, celebra moda, cultura e ancestralidade brasileiras, e em simultâneo fortalece as relações comerciais entre Brasil e França.

“Desfilar em Paris, na capital da moda, foi a realização de um sonho. Foi acreditar mesmo no axé”, brinca ela, que acaba de fazer um rebranding da marca, que antes era Isaac Silva. “Do mesmo jeito que eu transicionei, a marca depois de dez anos, precisou transicionar”.
Apresentado no Hotel Regina Louvre, o desfile trouxe uma coleção inspirada nos símbolos adinkras, criados pelo povo Akan, especialmente os Ashanti, em Gana.
Esse conjunto de ideogramas traduz crenças religiosas, costumes, tradições e filosofias africanas, reafirmando a conexão entre moda, ancestralidade e resistência cultural.
Para além do movimento de internacionalização, Isa, que tem collabs com grandes marcas como Avatim, Havaianas, Instituto C&A, TokStok, vai abrir uma loja no Pelourinho, dia 08 de dezembro, em Salvador.
Em um setor em que os padrões sociais ainda prevalecem, marcas brasileiras vêm transgredindo o status quo com muito talento, ousadia e afirmação cultural, transformando os salões de moda parisienses em verdadeiros palcos de diversidade, democracia e inovação.
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A marca ativista Nalimo, criada pela estilista indígena Day Molina, participou da plataforma global de moda Runway Vision, evento off-schedule da Semana de Moda de Paris.
O objetivo da marca é representar a cultura indígena no Brasil e no mundo, rompendo com a ausência de protagonismo dos povos originários da América Latina nos espaços criativos da moda.
Além disso, busca colaborar com o desenvolvimento econômico de comunidades indígenas de diferentes biomas, empoderar e emancipar mulheres e priorizar a preservação ambiental, construindo uma moda que respeite o planeta.

Day Molina tem origem nos povos Fulni-ô, do nordeste brasileiro, e Aymara, no Peru.
Foi pioneira na representação indígena na moda brasileira e fundadora do movimento #DecolonizeFashion, que promove mudanças estruturais no setor.
Sua coleção materializa o diálogo entre tradição e inovação, utilizando elementos como palha, ráfia, couro certificado de pirarucu e tilápia, látex da seringueira, folhas de vitória-régia, cascas de castanheira e sementes de pau-brasil e açaí.
Tecidos de algodão orgânico e pigmentos vegetais completam a paleta, reforçando o compromisso da marca com a sustentabilidade e a valorização das raízes culturais brasileiras.

O estilista Anderson Vescah, responsável pela direção criativa do projeto que levou as marcas brasileiras ao Runway Vision, destaca: “Nosso objetivo é democratizar o acesso à visibilidade internacional, criando experiências imersivas que dialogam com os novos valores da moda: inovação, diversidade e responsabilidade socioambiental.”
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Jornalista com mestrado em Comunicação Social pela Uerj e mais de 15 anos de experiência em redação e edição de reportagens. Já atuou no jornal “O Globo”, é sócia do #Colabora – Jornalismo Sustentável e repórter da edição brasileira do portal Fashion Network. Na EntreRios, é repórter com foco em comportamento e lifestyle.
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