Dor

Estudante de 9 anos tem dois dedos decepados em escola de Portugal; mãe relata dor, silêncio e busca por respostas

Caso de estudante ferido em escola portuguesa mobiliza apoio jurídico e gera questionamentos sobre segurança escolar no país

A criança de 9 anos passou por cirurgia no Hospital de São João, no Porto. Crédito: Nívia Estevam

Na mesma noite em que Lisboa foi surpreendida por uma intensa chuva de granizo, nossa equipe seguia pela estrada rumo a Cinfães, no Centro de Portugal. O destino era encontrar a brasileira Nívia Estevam, mãe do menino de 9 anos que teve dois dedos decepados dentro da escola onde estudava. A conversa, gravada com autorização, resultou em uma entrevista profunda e comovente — disponível na íntegra no nosso canal no YouTube.

Encontramos Nívia exausta, mas determinada a contar o que viveu. A dor ainda é recente e cada lembrança parece reabrir um ferimento que o tempo ainda não começou a cicatrizar:

“Quando cheguei, vi meu filho ensanguentado”.

Ela recorda o telefonema que recebeu da escola na manhã de 10 de novembro. Deram-lhe pouca informação, apenas que o filho tinha sofrido um acidente: “Perguntei se era grave. Me disseram que não”, relata. Ao chegar ao colégio, encontrou o menino sentado, com a mão ensanguentada e enfaixada. Havia um saco de gelo por cima e uma funcionária informava que a ambulância estava a caminho. O susto maior, porém, veio dentro da ambulância:

“O bombeiro colocou algo na minha mão e disse: ‘segura aqui, por favor’. Eu perguntei o que era. Ele disse: ‘o dedo do seu filho’. Até agora não consegui chorar”, diz a mãe.

Foram três horas de cirurgia no Hospital de São João, no Porto. Os médicos tentaram, mas não conseguiram reconstituir os dedos: “Ele ficou com dois dedos menores que o normal. Perdeu as unhas. Ainda não vi a mão do meu filho depois da operação”, conta.

Caso de aluno ferido em escola de Portugal gera revolta da família. Crédito: Reprodução.

Relatos ignorados e um corredor limpo demais

Dias antes do acidente, o menino já havia contado que vinha sofrendo puxões de cabelo e empurrões.

Nívia diz que chegou a informar a escola, mas foi desacreditada: “Disseram que crianças mentem. Meu filho já tinha reclamado outras vezes de ter levado puxões de cabelo e chutes. Avisei a escola e nada foi feito. Eu acho que ele sofre preconceito por ser imigrante, gordinho e negro”, relata a mãe que também tem cidadania portuguesa e vive no país há 8 anos.

No dia da mutilação, outros alunos, da mesma idade, entre 9 e 10 anos, teriam trancado o filho no banheiro e prendido a mão dele na porta. Quando a mãe chegou ao local, tudo já estava limpo:

“Não havia mais sangue, não havia nada. Eu não sei exatamente o que aconteceu com o meu filho. Só sei que ele estava machucado e com medo”.

A direção do Agrupamento de Escolas de Souselo afirma, em documento, que um inquérito interno já foi aberto e que as autoridades foram comunicadas. O caso está sob investigação.

Casa improvisada, noites difíceis e uma gravidez recente

Após o episódio, Nívia e o marido deixaram a própria casa e foram dormir no chão da casa de parentes, tentando reorganizar a vida às pressas: “Estamos num colchonete, procurando outra casa, vendo como vai ser com a escola. Não quero que meu filho perca o ano letivo, mas preciso que ele esteja seguro. Eu achei que ele estivesse num ambiente seguro”.

No meio disso, uma notícia que deveria trazer alegria, surpreendeu em meio ao caos: Nívia descobriu um dia antes do episódio com o filho que está grávida, depois de dois anos tentando: “Eu e meu marido queríamos aproveitar esse momento… mas é difícil. Tudo virou preocupação”.

Resposta do agrupamento escolar. Crédito: Reprodução

Doze advogados já procuraram a família oferecendo apoio jurídico. Ela ainda não conversou com nenhum deles:  “Agora, só penso no meu filho. Só quero que cuidem do trauma dele”. O menino permanece em recuperação em casa, com retorno marcado ao hospital na próxima semana. A mãe insiste que o mais urgente, neste momento, é garantir apoio psicológico:

“Ele está calado. Está assustado. Só quero que alguém cuide do trauma dele. Que ele volte a brincar, a sorrir, a ser criança”.

Enquanto isso, Nívia, que trabalha como soldadora, tenta reunir forças. A cada frase, é possível sentir que ela ainda vive em estado de alerta, repetindo mentalmente os passos daquele dia, na esperança de encontrar respostas que ainda não vieram. Antes de nos despedirmos, ela deixou um último pedido:

“Espero que a escola realmente apure tudo com rigor. Não quero vingança. Só quero que nunca mais aconteça com outra criança”.

Um dia antes do ocorrido a família, que é de Belém do Pará, soube que Nívia está grávida. Crédito: Reprodução

A entrevista completa com Nívia — em que ela detalha o episódio, o atendimento e as horas de angústia — está disponível no nosso canal no YouTube.

Jornalista com pós graduação em Marketing Digital. Atuou na TV Globo, Band, SBT, Record, TV Brasil e nas rádios Globo e CBN. Em Portugal apresentou telejornal para países lusófonos, na Banda TV. Foi repórter e colunista de cultura da Revista Brasil JÁ e atualmente assina a editoria de cultura da EntreRios.

Agricultura
Ministério da Agricultura atualiza regras sobre alimentos e produtos p...
Business
Grupo português especializado em varejo escolhe o Brasil para nova fas...
SHOW
Michael Jackson "volta" aos palcos em Portugal e com membros da equipe...
Consulado
Consulado-Geral do Brasil em Lisboa realizou uma média de 14,6 atendim...
SAMBA
Samba para celebrar as mulheres em Lisboa neste sábado (07)
LUTA NACIONAL
Morre António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portugu...
Imigração
Fundação Calouste Gulbenkian lança concurso para integração de imigran...
Imigração
Aima ganhou prêmio de transformação digital para uma solução que ainda...

Leia também

Ministério da Agricultura atualiza regras sobre alimentos e produtos permitidos para levar na bagagem para o Brasil

Grupo português especializado em varejo escolhe o Brasil para nova fase de expansão internacional

Michael Jackson “volta” aos palcos em Portugal e com membros da equipe original do astro

Consulado-Geral do Brasil em Lisboa realizou uma média de 14,6 atendimentos ao dia no Setor de Assistência a Brasileiros

Samba para celebrar as mulheres em Lisboa neste sábado (07)

Morre António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa