Novo ataque em Portugal: extremista ameaça jornalista e brasileiros
Ministério Público abriu investigação após a ameaça, que se soma a uma escalada de ataques de ódio contra imigrantes em Portugal
A jornalista brasileira Stefani Costa, que vive em Lisboa, voltou a ser alvo de ameaças de morte em Portugal. O ataque aconteceu na rede social X (antigo Twitter), logo após a Polícia Judiciária (PJ) anunciar a prisão de João Paulo Silva Oliveira, de 56 anos, investigado por oferecer 500 euros por “cabeça de brasileiros”.
“Foi no dia seguinte ao anúncio da Polícia Judiciária sobre a prisão de João Paulo Silva Oliveira, o homem que ofereceu 500 euros pela cabeça de brasileiros, que o ataque contra mim aconteceu. A grande repercussão da minha reportagem sobre o caso estimulou a ameaça”, contou a jornalista.
O perfil responsável pela agressão se identifica como Bruno Silva (@BrunusRibatua), localizado em Vila Real, norte de Portugal. Embora se identifique como um português patriota, a descrição de seu perfil na rede não está em língua portuguesa: “Portuguese | Husband | Father | Ethno-Nationalist | Identitarian | Traditionalist”, que significa “Português | Marido | Pai | Etnonacionalista | Identitário | Tradicionalista”.

Segundo Stefani, não é a primeira vez que sofre intimidação do mesmo indivíduo. “Em junho do ano passado, cheguei a registrar uma queixa na justiça após receber dele uma foto de armas acompanhada de mais ameaças. No entanto, como se vê, nada foi feito. Ele permanece em liberdade e com total acesso às redes sociais”, relatou.
LEIA TAMBÉM: Consulado do Brasil em Lisboa orienta sobre nova polícia de imigração
Jornalismo sob ataque
Em entrevista à EntreRios, a jornalista conta que se tornou alvo principalmente por abordar temas sensíveis. “Escrever sobre temas sensíveis e direitos humanos incomoda muita gente, especialmente políticos que desprezam a dignidade alheia e se valem de mentiras para enganar a população”, disse.

Um episódio em 2024 mostrou o peso da hostilidade: “Após a publicação de uma reportagem sobre André Ventura e o partido Chega, o próprio líder gravou um vídeo exibindo a capa da revista enquanto segurava uma tesoura. Esse tipo de atitude não é uma crítica legítima ao trabalho jornalístico, é puro estímulo ao ódio e uma clara afronta à liberdade de imprensa”, afirmou.
Além das ameaças online, Stefani conta que já sofreu agressões presenciais.
“Eu já sofri agressão física na rua por um eleitor do Chega simplesmente por ser brasileira. Também recebo ameaças constantes de grupos de extrema direita ligados a movimentos neonazistas”.
Prisão e novas tensões em Portugal
A prisão de João Paulo Silva Oliveira ocorreu após um vídeo viral em que ele oferecia recompensa por assassinatos de brasileiros. Segundo a PJ, “a divulgação do vídeo afetou gravemente o sentimento de tranquilidade e segurança da comunidade, provocando forte alarme social”. O detido possui antecedentes criminais e será apresentado à justiça para aplicação de medidas de coação.
LEIA TAMBÉM: Preso homem que ofereceu 500 euros por cabeça de brasileiros em Portugal
O episódio acontece em meio à entrada em funcionamento da Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (Unef), subordinada à PSP. O novo órgão herdou cerca de 100 mil processos de afastamento de imigrantes em situação irregular, gerando apreensão entre comunidades estrangeiras. Para associações, a aposta em uma estrutura policial pode aumentar o medo, em vez de resolver a falta de respostas na regularização de imigrantes.
Reações e solidariedade
A Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal (AIEP) divulgou uma nota de repúdio, condenando os ataques.
“A AIEP cobrará das autoridades portuguesas que ajam com rigor no sentido de coibir esses ataques a jornalistas e a quaisquer cidadãos, independentemente de sua origem, raça ou credo. Em uma nação democrática, que preza pelos valores humanistas, não pode haver espaço para a intolerância”, diz o comunicado.
A entidade também lembrou que a jornalista já havia denunciado ameaças ao Ministério Público há um ano, sem avanços concretos.
Resistência
Apesar da escalada de ódio, a jornalista afirma que não vai se intimidar. “Já pensei em deixar o país algumas vezes, mas não por causa das ameaças. Até porque é exatamente isso que essa gente quer”, afirmou.
“Acredito que agora, com toda essa exposição, a Polícia Judiciária e o Ministério Público muito provavelmente vão acelerar o processo. Isso não é importante só para mim, mas para todos os jornalistas e imigrantes que residem em Portugal”, completou.
Lisboa
Jornalista formada pelo Centro Universitário de Belo Horizonte e mestre em Jornalismo pela Universidade Nova de Lisboa. Atuou no jornal Estado de Minas, na Rede 98 e colaborou com a Folha de S.Paulo. Em Portugal, foi repórter da revista Brasil Já. Atualmente, é repórter e coordena as redes sociais da EntreRios.
- Últimas Notícias