PARALISAÇÃO

Greve geral deixa Portugal parado e aumenta pressão sobre governo

Portugal em pausa: um dia em que o silêncio dos transportes falou mais alto

Centrais de trabalhadores convocam primeira greve desde 2013. Crédito: António Cotrim/Lusa.

Lisboa acordou hoje como quem perde a hora: lenta, meio zonza, com a sensação de que algo essencial ficou pelo caminho. E ficou mesmo. Portugal vive sua primeira greve geral em doze anos convocada em conjunto pelas duas maiores centrais sindicais, CGTP e UGT — um daqueles raros momentos em que o país inteiro parece puxar o freio de mão ao mesmo tempo.

O motivo? Um pacote trabalhista com mais de cem mudanças anunciado pelo governo de Luís Montenegro, que pretende “modernizar” o mercado de trabalho. Os sindicatos, porém, dizem que o nome verdadeiro dessa modernização é perda de direitos.

Uma cidade em modo espera

Ontem à noite, já dava para sentir que hoje seria diferente. Mas foi só o sol nascer que o impacto ganhou corpo. A esta altura, a Comboios de Portugal — operadora dos trens — funciona em serviços mínimos, e muita gente desistiu no primeiro atraso. Entre as 10h e 12h, quase um quarto das composições simplesmente não sai das estações. No Porto, metade. O país, literalmente, não anda.

Em Lisboa, nem adianta procurar o metrô: as portas permaneceram fechadas desde as 6h da manhã. Silêncio absoluto nos corredores subterrâneos, aquela calma artificial que só existe quando uma cidade inteira está tentando descobrir outros caminhos. No Porto, só a linha amarela está viva; o resto, apagado.

Quem tentou driblar a greve correndo para o ônibus encontrou outro labirinto. A Carris colocou apenas 12 carros na rua — e com intervalos tão longos que muitos passageiros acabaram voltando pra casa antes mesmo de tentar chegar ao trabalho. Nem os barcos escaparam: só 25% das viagens da Transtejo e Soflusa estão acontecendo, e apenas nos horários de pico. Do outro lado do Tejo, filas, caras fechadas e um cansaço que parece sobreviver sozinho.

O setor aéreo, claro, também não passou ileso. A TAP opera hoje com só um terço dos voos. A TAAG, que liga Angola a Portugal, cancelou o voo diurno. Nos aeroportos, o conselho não muda: chegar cedo, respirar fundo e aceitar que o tempo vai passar devagar.

Muitas escolas amanheceram fechadas, exatamente como os sindicatos já previam. A Fenprof alertou; os pais tentaram se preparar. Mas aviso prévio não impede correria — nem resolve a vida de quem não tem com quem deixar as crianças.

Nos hospitais, o limite já tinha sido ultrapassado

Se há um lugar onde a greve judiou mais, é na saúde. Mas, para ser justa, a saúde já vinha implorando por pausa antes mesmo da paralisação. Nas últimas semanas, o tempo de espera nas emergências oscilava entre 10, 12, 15 horas. Quinze horas para um atendimento que deveria acontecer em uma.

Hoje, só os serviços mínimos funcionam: emergência, internações, quimioterapia, radioterapia. O básico para manter o sistema respirando. Mas a verdade é que o sistema já estava esgotado — e quem trabalha nele também.

O que está em disputa

O pacote trabalhista que acendeu o estopim prevê, entre outras medidas:

  • até 150 horas extras obrigatórias por ano, mesmo sem acordo do trabalhador;

  • contratos temporários que se estendem de dois para três anos;

  • regras mais duras para mães que amamentam, reduzindo a flexibilidade de horários;

  • mais obstáculos para pais com filhos até 12 anos pedirem horários adaptados.

Para os sindicatos, tudo isso empurra as famílias — especialmente as mulheres — para um ciclo de vida mais difícil, mais precário. Para o governo, é o caminho para tornar o país mais competitivo.

No meio dessa disputa, 61% dos portugueses dizem apoiar a greve. Apoiam, mas sofrem. Afinal, é dezembro, tempo de cidade cheia e rotina corrida. E hoje não há rotina que sobreviva intacta.

Uma greve rara, um país dividido

CGTP e UGT raramente caminham lado a lado. A última vez que convocaram uma greve conjunta foi em 2013, outro momento de tensão profunda no país. Agora, o estopim foi o “Trabalho XXI”, apresentado em julho.

À medida que a negociação avançou, as críticas cresceram. Mesmo após ajustes, o governo já avisou que não deixará o tema suspenso por muito tempo: a proposta segue para debate na Assembleia da República nos próximos meses.

Enquanto isso, nas ruas, a sensação é de suspensão. Um país em pausa que, ironicamente, tenta se mover entre trens parados, ônibus raros e filas que dobram esquinas. Há quem veja nesta quinta-feira um incômodo passageiro. E há quem veja um aviso.

Hoje, em Portugal, o silêncio dos transportes falou mais alto que qualquer discurso.

Lisboa

Jornalista com 20 anos de experiência e atuação em reportagens sobre violações de direitos humanos e políticas públicas. Possui experiência em pesquisa teórica e de campo, produção executiva, edição de texto, coordenação de equipe, planejamento estratégico e atuação em diferentes frentes do jornalismo e da comunicação em veículos como TV Globo, TV Brasil, CNN, RFI, Record e Band. Trabalha com storytelling e conteúdo para multiplataformas digitais, com experiência em televisão, documentários e comunicação organizacional no Brasil, Europa e Oriente Médio.

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