Hora de tirar férias das férias
É sempre possível recorrer às colônias de férias onde os miúdos geralmente batem na cabeça um dos outros com os remos dos caiaques e são grandes as chances de se voltar com o braço engessado após cair da tirolesa
Fim das férias de verão, hora de as crianças voltarem às aulas e os pais, finalmente, terem o merecido descanso.
Afinal, três meses com os filhos enfurnados em casa, sem nada para fazer e gerando energia suficiente para alimentar uma usina nuclear, não é para os fracos.
Exige dos pais uma dose para mamute de esforço físico e paciência.
Muitos portugueses contam com a família e despacham os rebentos para a casa dos avós em algum lugar afastado de nome curioso em Trás-os-Montes ou no Alentejo, onde a internet é dois-gê, o Minecraft não roda e a diversão da criançada é fugir dos mosquitos, aprender com aquele tio a xingar em castelhano os vizinhos espanhóis e tomar banho de mangueira — quando as mangueiras não estão sendo usadas para apagar um incêndio florestal.
Os brasileiros geralmente não trazem os avós na bagagem. E, como está fora de cogitação mandar os filhos para o Brasil com o preço do bilhete aéreo mais alto do que o de um avião, o jeito é se virar como pode.
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Uma saída para o felizardo com contrato de trabalho certinho é usar os dias de férias numa estratégia especial: primeiro, duas semanas com o pai, depois outras duas com a mãe— ou vice-versa — e, em seguida, mais duas a família toda junta.
Nesse caso, as férias são para quem fica sozinho em casa com o controle da Netflix todinho para si.
Resta a quem parte em missão kamikaze a uma praia atenção total para não perder de vista o herdeiro no mar de cabeças espremidas no areal, escapar do escaldão do sol desértico — afinal, o Saara é logo ali — e ainda sobreviver ao choque térmico ao sair dos 45 graus à sombra e mergulhar na água com a temperatura ideal para um urso polar.
Nesses casos, é importante não esquecer jamais o protetor solar e a caixa extra de Rivotril para misturar à caipirinha.
Ainda assim, os pais à beira de um ataque de nervos têm mais ou menos um mês e meio de férias escolares pela frente.
Se milagrosamente restar uns euritos na conta corrente, é sempre possível recorrer às colônias de férias no campo, onde os miúdos geralmente batem na cabeça um dos outros com os remos dos caiaques e são grandes as chances de se voltar com o braço engessado após cair da tirolesa.
Os riscos, porém, garante quem já experimentou, valem a pena.
Para quem não tem direito a férias nem um cêntimo no banco, não há alternativa a não ser checar se a conexão da internet em casa está veloz o suficiente, besuntar o tablet com Nutella e entregar para os filhos se deliciarem, acendendo uma vela a um santo qualquer para setembro chegar logo, logo, e poder, aí sim, finalmente descansar.
Esta coluna é parte da quarta edição da revista EntreRios, distribuída nas principais bancas de Portugal. Você também pode assinar e receber a publicação no conforto da sua casa, além de ler a publicação completa.
Lisboa
Licenciou-se em Relações Internacionais na Universidade Técnica de Lisboa e fez mestrado em Jornalismo Internacional na Puc – São Paulo, entre outras formações.
Iniciou a sua carreira na TV SIC Notícias e foi correspondente Internacional da TVI no Brasil e outros países da América Latina.
Trabalhou na TV Globo Portugal no magazine cultural “Cá Estamos” e desenvolveu projectos dedicados ao canal em Portugal. É ainda autora de três livros.
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