Imigrantes ajudam a elevar o nível de escolarização de Portugal, afirma diretora do Instituto Pordata
Instituto realizou pesquisa que mostrou avanço significativo da chegada de estrangeiros no país ao longo de dez anos
“A população imigrante que chega a Portugal não tem feito baixar os índices de escolarização, pelo contrário. Os estrangeiros que chegam possuem uma escolarização média superior a Portugal”.
A fala é de Luisa Loura, diretora da Pordata, instituto, que em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos e a Eurostat, divulgou um estudo com um retrato sobre os indicadores econômicos, sociais e demográficos de Portugal na União Europeia. O levantamento faz parte da comemoração dos 40 anos da adesão de Portugal à então CEE (Comunidade Econômica Europeia), em janeiro de 1986.

O estudo aponta que a presença de imigrantes em Portugal aumentou significativamente, tornando o país líder na União Europeia na chegada de estrangeiros entre 2012 e 2023, com uma taxa anual de 34,3%. O crescimento contrasta com a expansão da população idosa e a redução de moradores mais jovens, especialmente na faixa etária ativa para o trabalho.
Os dados também revelam desafios na educação em Portugal. Entre os 27 países analisados, o país apresenta a maior proporção de população ativa entre 15 e 64 anos sem ensino secundário, com 38,7%, acima da média europeia de 24,1%. Além disso, apenas 43,2% das pessoas entre 25 e 34 anos têm ensino superior, colocando Portugal na 16ª posição e abaixo da média de 44,1%.
Para Luisa, as informações refletem um longo processo histórico em que o país sofreu com a falta de investimentos na educação durante a ditadura salazarista.
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“Durante os 40 anos da ditadura de Salazar a prioridade não foi dar o conhecimento às pessoas. Lá pelo final da década de 60 nós tínhamos somente 10% dos jovens com 15 e 16 anos no ensino secundário, enquanto os países da Europa Central estavam bem avançados nesse sentido. Isso acabou por trazer uma carência em uma altura em que a economia vive muito de tecnologias, da inovação e à base do conhecimento”, avalia, em entrevista à EntreRios.
Para ela, é necessário que Portugal invista em conhecimento e no seu capital humano para que possa avançar na educação. Ela ressalta que isso já pode ser visto na população mais jovem. “No grupo etário dos 25 aos 34 anos, por exemplo já estamos em linha com os patamares de pessoas com o ensino secundário e o ensino superior. É preciso investir na escolarização para fortalecer o capital humano e isso leva tempo mas os sinais são positivos”, aponta.
A especialista faz questão de apontar, porém, que a maior chegada de imigrantes não é responsável por baixar esses índices e sim, de aumenta-los.
“Se percebe que sem a chegada dos imigrantes a nossa escolarização estaria um pouco mais baixa nas gerações mais novas. Ainda que haja estrangeiros com pouca escolarização, quando se olha o todo, pode-se ver que essa não é uma população com baixa formação. Temos atraído muitos jovens bastante escolarizados”, destaca ela.
Ela explica que o investimento em educação também deve englobar os estrangeiros que chegam ao país, considerando a chamada formação ao longo da vida, que, segundo ela deve ser uma aposta ao país, já que a população estrangeira está, em sua maioria, em uma idade ativa para o trabalho.
“Tem aumentado muito a população estrangeira que está no ensino superior e isso é interessante para as universidades e também para os imigrantes que ganham novos conhecimentos e passam a ter formação reconhecida na União Europeia. É preciso dar as condições para que os jovens também possam ampliar a sua formação aqui”, explica.
Luisa também reconhece a importância da chegada de imigrantes que ajudarão a recompor a chegada da mão de obra do país cita que é preciso de pessoas em idade ativa para ajudar em situações como a reconstrução de cidades portuguesas afetadas pelas enchentes causadas pelas fortes chuvas no início do ano.
“Precisamos de pessoas mais jovens para ajudar nessa reconstrução. E todos os portugueses têm que reconhecer o papel importantíssimo que os povos de outros países têm para garantir o nosso bem-estar do dia a dia”, ressalta.
Salários baixos
Outro ponto preocupante apontado pelo levantamento da Pordata diz respeito aos rendimentos em Portugal. O país está posicionado apenas com o 17º maior salário bruto médio na União Europeia, com 2.068,20 euros, bem abaixo da média europeia de 3.317,30 euros.
Apesar de um crescimento de 50% nos valores entre 2015 e 2024, esse é apenas o 12º maior índice entre os países pesquisados. Os números também são baixos em relação à média do rendimento familiar e da capacidade de compra dos chamados cabazes alimentares (equivalente à cesta básica).
Os índices, segundo a diretora da Pordata impactam a todos, inclusive muitos portugueses jovens que deixam o país em busca de melhores salários em outros países da União Europeia ou do mundo. Para ela, o envelhecimento da mão de obra é predominante em quase todos os países da União Europeia, o que acelera a busca pela mão de obra no continente.
“Existe uma competição entre os países que estão com falta de mão de obra para fortalecer a sua população ativa. Com menos produtividade, o mundo empresarial não consegue pagar melhores salários e os jovens saem para trabalhar fora. Mas esse vazio está a ser compensado pelos pela população estrangeira que chega aqui. É uma população que impacta favoravelmente a nossa população e a nossa idade ativa”, analisa.
De acordo com ela, é preciso dimensionar também a questão da habitação no país. Segundo o estudo, Portugal foi o segundo país com maior aumento da habitação entre 2020 e 2024, com 24,1% de aumento.
Luisa aponta que a geração acima dos 50 anos conta com casas próprias, como uma política de estado pós 25 de abril, mas a realidade dos mais jovens está muito distante disso. Ela diz que é preciso viabilizar medidas para que os jovens tenham a sua casa própria ou arrendada de acordo com as condições de salário atuais.
“A população mais jovem é a mais escolarizada de sempre e a que pode dar mais contributos ao país mas é a que não consegue ter casa em Portugal e mais se confrontam com dificuldades em relação ao custo de vida, com a qualidade de vida e as condições em que vivem”, analisa.
Confira aqui o estudo completo e aqui uma página especial com os indicadores de todos os países europeus.
renan@revistaentrerios.sapo.pt
Lisboa
Jornalista com graduação pela PUCPR, MBA em Rádio e TV pela Universidade Tuiuti do Paraná e mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Lisboa. Atuou como repórter da Gazeta do Povo nas editorias de economia, negócios e política e no portal TechTudo, além de experiência em veículos esportivos e especializados em tecnologia.
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