Influenciadoras iranianas destroem maquiagens da Huda Beauty e convocam boicote após publicação pró-regime do Irã
Publicação da fundadora da marca foi interpretada como apoio ao regime iraniano e gerou protestos com destruição de maquiagens nas redes sociais
A publicação de um vídeo nas redes sociais pela fundadora da Huda Beauty, Huda Kattan, foi o estopim para uma onda de revolta entre influenciadoras iranianas, que acusam a empresária de reforçar a narrativa do regime teocrático do Irã em meio a uma das mais violentas repressões a protestos no país. A reação rapidamente se transformou em um movimento de boicote internacional à marca de cosméticos, com cenas de destruição simbólica de produtos, campanhas online e pressões diretas sobre grandes varejistas do setor de beleza.
O conteúdo compartilhado por Huda mostrava manifestantes pró-regime incendiando fotos de Mohammad Reza Pahlavi, último xá do Irã, e do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — duas figuras associadas à oposição ao atual governo iraniano.
A indignação foi imediata. Nas redes sociais, influenciadoras iranianas passaram a publicar vídeos nos quais quebram, queimam ou descartam maquiagens da Huda Beauty como forma de protesto. Em registros que se espalharam rapidamente, paletas e batons aparecem jogados no lixo, cobertos por sangue cenográfico ou destruídos diante das câmeras.
Além do tom de denúncia, parte das publicações adotou a sátira como estratégia política. Montagens e vídeos retratavam Huda maquiando o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, ou vestida como uma autoridade religiosa. Apelidos como “Mullah Beauty” e “Ayatollah Huda” passaram a circular amplamente, reforçando a percepção de que a empresária teria se alinhado, ainda que de forma indireta, à narrativa oficial do regime.
Entre as vozes mais influentes do movimento está a criadora de conteúdo Naz Golrokh, iraniana radicada nos Estados Unidos, que reúne mais de nove milhões de seguidores no Instagram. Em publicação incisiva, ela convocou o boicote à marca e criticou a postura da fundadora. “Se você não consegue ficar ao lado de pessoas inocentes, pelo menos não espalhe mentiras contra elas”, escreveu, incentivando seus seguidores a deixarem de comprar os produtos da Huda Beauty.
Outro nome de destaque a aderir ao protesto foi o cabeleireiro iraniano-americano Henry Zador, conhecido por atender celebridades. Em vídeo, ele descarta produtos da marca e ressalta o poder coletivo dos consumidores como instrumento de pressão política e econômica.
A mobilização extrapolou as redes sociais e passou a mirar empresas que comercializam os produtos. A rede Sephora foi alvo de críticas por manter a Huda Beauty em seu catálogo. Em resposta, influenciadores distribuíram panfletos e fizeram apelos públicos para que a varejista deixasse de vender a marca. Em pelo menos uma unidade, um cartaz foi colocado sobre a área dedicada aos cosméticos, acusando Huda de apoiar terroristas.
Diante da repercussão negativa, Huda apagou o story original poucas horas após a publicação. Posteriormente, afirmou em suas redes sociais que não seria pró-regime e que não se considerava suficientemente informada para opinar sobre a situação política do Irã. A declaração, no entanto, não foi suficiente para conter a reação negativa.
A força da resposta se explica, em parte, pela posição simbólica ocupada por Huda. Fundadora da Huda Beauty em 2013, a empresária iraquiano-americana construiu uma das marcas mais influentes do setor global de beleza, avaliada em cerca de 3,9 bilhões de reais, segundo a Forbes. Com mais de 15 anos de experiência em maquiagem artística em Hollywood, ela consolidou sua imagem a partir de uma comunicação direta com o público e de discursos associados à diversidade e à inclusão.
Para as influenciadoras iranianas, no entanto, ela poderia usar sua plataforma para amplificar as vozes de mulheres e jovens que enfrentam repressão no Irã, em vez de compartilhar conteúdos associados ao discurso oficial do Estado.
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Contexto político no Irã
A controvérsia ocorre em meio a uma nova onda de protestos no Irã, iniciada em 28 de dezembro de 2025, quando comerciantes em Teerã fecharam lojas em reação à crise econômica. As manifestações rapidamente ganharam apoio de estudantes, trabalhadores e jovens, espalhando-se por todo o país e incorporando críticas mais amplas à corrupção e às violações de direitos humanos.
Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã é governado por uma república teocrática de orientação xiita, cuja autoridade máxima é o líder supremo — cargo ocupado há mais de 30 anos pelo aiatolá Ali Khamenei. O regime é alvo recorrente de denúncias internacionais por repressão violenta, restrições às liberdades individuais e perseguição a opositores políticos.
fernanda@revistaentrerios.pt
Jornalista com mestrado em Comunicação Social pela Uerj e mais de 15 anos de experiência em redação e edição de reportagens. Já atuou no jornal “O Globo”, é sócia do #Colabora – Jornalismo Sustentável e repórter da edição brasileira do portal Fashion Network. Na EntreRios, é repórter com foco em comportamento e lifestyle.
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