Juiz de Fora

Jornalista de Juiz de Fora que vive em Portugal relata dor e impacto das chuvas históricas na cidade

Repórter da EntreRios acompanha a tragédia que deixou dezenas de mortos na cidade e reflete sobre crise climática e perdas pessoais

Rio Paraibuna acima do nível normal após as fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora. Na foto, a ponte próxima à casa onde a jornalista Fernanda Baldioti passou a infância (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

No início do mês, recebi uma ligação dos meus pais, preocupados com as tempestades que assolavam Portugal e provocaram 14 mortes. Dias depois, trocamos de lugar: fui eu quem telefonei preocupada com o que via nas redes sociais. A mesma fúria das águas agora atingiam a minha cidade natal: Juiz de Fora.

Leia mais: Mora em Portugal e quer ajudar Juiz de Fora? Veja como doar à distância

Cresci ouvindo as águas do rio Paraibuna. A cozinha da minha casa tem uma varanda com vista para a margem. Apenas duas pistas e um andar alto nos separam. Na infância, temia quando o rio subia. Sempre ficava de olho nas pontes, receosa de o nível da água chegar até lá. Meu pai, que já foi secretário de Defesa Civil do município, me tranquilizava: “Não se preocupa, filha, o rio tem comportas. Elas vão segurar”. Hoje sei que nem comportas nem boas intenções seguram um clima que mudou.

A chuva que começou na tarde de 23 de fevereiro e atravessou a madrugada do dia 24 foi além do que as previsões mais pessimistas indicavam. Em poucas horas, o volume acumulado rompeu padrões históricos para o mês. Vieram os relatos de deslizamentos, ruas transformadas em correntezas, casas engolidas pela terra. Autoridades confirmaram entre 25 e 30 mortes na região, dezenas de desaparecidos e centenas de desalojados. O município decretou estado de calamidade.

Entre as vítimas está uma amiga da minha infância (Ivana Martins) e a mãe dela, soterradas a poucos quarteirões da casa onde até hoje vivem meus pais. Uma irmã dela continua desaparecida até o momento em que escrevo este texto. Ivana tinha acabado de se formar, tão cheia de planos. Na biografia do seu Instagram se lê: “Me recuso a viver sem paixões. Tudo que eu vivo, tem o melhor de mim.” Intensa, exagerada, desmedida, 8 ou 80, sem meio termo!”.

Ivana Martins de Paula perdeu a vida na tragédia de Juiz de Fora (Foto: Reprodução Instagram)
Ivana Martins de Paula perdeu a vida na tragédia de Juiz de Fora (Foto: Reprodução Instagram)

Ivana não é, para mim, apenas um número nos relatórios. Era alguém que eu conhecia, com quem dividi quarto em mais de uma viagem a Cabo Frio, na pré-adolescência. O destino nos separou. Não tinha notícias dela há anos, não a seguia nas redes sociais.

Mas ler sobre o que aconteceu com ela e com a minha cidade me dói. E de um jeito específico que quem é imigrante sabe. A vontade de estar perto, de abraçar minha família, de ajudar minha comunidade é imensa. Aqui eu não vejo a lama, não vejo as máquinas tentando desenterrar vidas, não ouço as sirenes do Corpo de Bombeiros, como amigos da cidade me relatam. Mas sinto como se estivesse lá. Ver a mata do Morro do Cristo rasgada pela lama é triste. Nosso cartão-postal transformado em cicatriz. É dilacerante perceber que o símbolo da cidade também evidencia a tragédia.

Depoimento de moradora no Instagram mostra o antes e o depois da mata do Morro do Cristo, em Juiz de Fora (Foto: reprodução Instagram)

Outras virão. Pode ou não ser novamente em Juiz de Fora, em Leiria, no Rio Grande do Sul… Mais uma vez, fica a pergunta: o que estamos fazendo com o futuro do planeta? O que estamos fazendo conosco?

Aquecimento do oceano entre as causas

Trabalho com sustentabilidade há muitos anos. Leio relatórios, entrevisto especialistas, acompanho dados científicos. Sei que eventos extremos como este não são mais exceção. No caso de Juiz de Fora, meteorologistas apontam uma combinação perigosa: uma frente fria estacionada no litoral do Sudeste ajudou a canalizar um corredor de umidade vindo da Amazônia. Esse fluxo alimentou as nuvens sobre Minas Gerais. Ao mesmo tempo, o oceano estava até 3 °C mais quente que a média, com temperaturas próximas de 29 °C. Água mais quente significa mais evaporação, mais vapor na atmosfera — combustível para tempestades mais intensas.

A própria geografia da cidade contribuiu para agravar o cenário. Juiz de Fora está em um vale cercado por paredões naturais. Essa configuração favorece o confinamento das nuvens quando sistemas meteorológicos se direcionam para a região. O resultado é uma descarga concentrada, violenta, persistente.

A ciência explica. Mas não consola.

Mais uma vez, os que mais sofrem são aqueles com menos condições de reerguer seus lares e dinâmicas de vida. Se você, leitor, está longe e quer ajudar Juiz de Fora, há formas concretas de contribuir. A Prefeitura, por exemplo, disponibilizou o Pix contribua@pjf.mg.gov.br (Banco do Brasil, agência 2592-5, conta 77149-X).

fernanda@revistaentrerios.sapo.pt

Fernanda Baldioti

Jornalista com mestrado em Comunicação Social pela Uerj e mais de 15 anos de experiência em redação e edição de reportagens. Já atuou no jornal “O Globo”, é sócia do #Colabora – Jornalismo Sustentável e repórter da edição brasileira do portal Fashion Network. Na EntreRios, é repórter com foco em comportamento e lifestyle.

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