Leões, louças e segredos: Nina Beier desafia o valor em Portugal
Em Sintra, a artista dinamarquesa apresenta esculturas que questionam o valor dos objetos
A bucólica região de Sintra, acomodada entre a serra e o mar, é um cenário de contrastes delicados, onde o verde das matas se encontra com os tons terrosos de castelos ancestrais. É nesse lugar de beleza quase lendária que a artista dinamarquesa Nina Beier apresenta sua primeira exposição solo em Portugal.
Intitulada Goods, a instalação ocupa tanto o pavilhão contemporâneo quanto parte dos jardins da Albuquerque Foundation, o novo centro dedicado à cerâmica em Sintra, integrando o programa contemporâneo da Fundação.
A exposição convida o público a refletir sobre os cruzamentos entre arte contemporânea e arte histórica, num espaço onde esculturas e instalações convivem com a Coleção Albuquerque de Cerâmica Chinesa.

A exposição reúne seis obras ou conjuntos de obras, distribuídas entre o interior do pavilhão e o espaço ao ar livre.
Desde os dois leões de porcelana que abrem a mostra, com um no exterior e outro no interior, até à peça final que ocupa o jardim frontal, Goods é marcada pela presença recorrente da porcelana, material emblemático na prática de Nina.
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Essa coleção, aparentemente silenciosa, carrega narrativas profundas de colonialismo, globalização, valor econômico, produção invisível e exploração de trabalho.
É nesse território ambíguo que a obra da artista encontra terreno fértil: embora ela não trabalhe diretamente com cerâmica, suas esculturas e instalações reutilizam objetos preexistentes, muitas vezes símbolos de status e mercadorias de valor flutuante:
“Ela não faz cerâmica, mas as questões que atravessam seu trabalho são 100% as questões da nossa coleção”, destaca o curador Jacopo Crivelli Visconti
A exposição foi construída a partir de um exercício curatorial específico onde Jacopo percorreu toda a obra de Nina Beier em busca de peças que ressoassem com o acervo histórico, criando uma mostra que não apresenta obras inéditas, mas sim reestrutura o olhar sobre obras já existentes.
Essa estratégia não diminui a potência da exposição, pelo contrário, confere densidade histórica e contextualidade à apresentação:
“É mais interessante para mim que os trabalhos já existam. Se a obra tivesse sido comissionada agora, talvez o jogo não fosse tão instigante”, afirma o curador.
Um exemplo da abordagem irônica e crítica da artista é a instalação que abre a exposição: um conjunto de louças de banheiro em porcelana.
Nina Beier desloca o material nobre e historicamente valorizado para o universo do banal, provocando uma reflexão sobre os critérios que definem valor e prestígio.

Nina Beier vê sua prática como uma escuta atenta aos objetos e suas camadas de significado.
Seu processo criativo não é guiado por temas preestabelecidos, mas por uma intuição formal e material, onde objetos do cotidiano se transformam em esculturas carregadas de ambiguidade:
“Eu não sou uma artista baseada em pesquisa. Acho que trabalho de forma bastante intuitiva. Os problemas sociais se infiltram em tudo que faço, mas eles não são um ponto de partida racional”, diz Nina Beier
Há ainda uma questão biográfica relevante, pois Nina Beier passou parte de sua juventude em Moçambique, o que a conectou desde cedo, com temas relacionados à pós-colonialidade, circulação de bens e desigualdade estrutural.
Esses temas não aparecem em sua obra como bandeiras explícitas, mas estão embutidos na lógica de suas escolhas materiais e conceituais.
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Goods inaugurou no último sábado (27) e vai até dia 4 de janeiro de 2026. A Albuquerque Foundantion funciona de terça a domingo entre 10h e 18h.
Vale a visita ao espaço, que foi inagurado em fevereiro deste ano, e conferir a coleção permanente também.
O bilhete custa 10 euros. Estudantes, maiores de 65 anos, adolescentes entre os 13 e 18 anos e grupos turísticos com mais de 10 pessoas pagam 8 euros. Menores de 12 anos têm gratuidade.
A Albuquerque Foundation fica na Rua António dos Reis 189, 2710-302, Sintra.

Jornalista com pós graduação em Marketing Digital. Atuou na TV Globo, Band, SBT, Record, TV Brasil e nas rádios Globo e CBN. Em Portugal apresentou telejornal para países lusófonos, na Banda TV. Foi repórter e colunista de cultura da Revista Brasil JÁ e atualmente assina a editoria de cultura da EntreRios.
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