Democracia

Livro analisa 40 anos da democracia brasileira com textos inéditos

Lançamento do livro “A Palavra e o Poder” aconteceu nessa quarta-feira (26) na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa

Lançamento do livro "A Palavra e o Poder", em Lisboa. Crédito: Renan Araujo

A Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, recebeu nessa quarta-feira (26), o lançamento do livro A Palavra e o Poder: Uma Travessia Crítica por 40 Anos de Democracia Brasileira, de Rodrigo Tavares, Flavia Lima e Naief Haddad.

A obra foi produzida a partir de mais de 150 mil artigos da opinião publicados pela Folha de S. Paulo entre 1985 e 2025 e consiste na seleção de 41 textos sobre a democracia publicados pelo jornal (incluindo dos oito ex-presidentes da República ao longo dos últimos 40 anos), além de outros 40 textos inéditos publicados por autores especialmente convidados para o projeto.

O livro é publicado pelo Grupo Editorial Record, em parceria com a Folha de S.Paulo, e teve o seu lançamento oficial ontem em Portugal como parte da exposição Complexo Brasil.

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O encontro contou com uma conversa entre Rodrigo Tavares, José Miguel Wisnik, Milena Britto e Capicua, com moderação de Mafalda Anjos.

“O livro são várias ressonâncias magnéticas dos 40 anos da democracia brasileira. Ouvimos as vozes de obreiros tanto dos que a construíram tanto dos que procuraram destruí-la e que refletiram sobre ela em 40 anos. Trouxemos textos, vibrantes, contextualizados e combativos com vozes muito plurais, complementares ou contrastantes sobre os artigos publicados”, afirma o professor português Rodrigo Tavares, um dos organizadores da obra.

Rodrigo é professor catedrático da Nova SBE e CEO do Granito Group, grupo financeiro sediado no Reino Unido dedicado ao avanço da economia sustentável. Entre 2011 e 2014, Tavares chefiou a Assessoria Especial para Assuntos Internacionais do Governo do Estado de São Paulo.

Rodrigo destaca como o Brasil oscila entre momentos de grande fascínio e arrebatamento com momentos de brutalidade e violência em um “pêndulo que está sempre a circular”.

É um movimento entre a dor e o encanto, a esperança e a frustração. Quando olho para os textos desse livro vejo isso porque há esse movimento de alternância”, destaca ele.

Segundo o professor, embora Brasil e Portugal possuem mais “linhas de ruptura entre os dois países do que linhas de continuidade”.

Mas, ele aponta, ambos possuem semelhanças em relação ao desenvolvimento democrático após terem vivido períodos ditatoriais muito longos, com a elaboração de duas longas constituições que tentaram ampliar muitos direitos sociais especialmente ao longo dos anos 70 e 80.

“Estamos passando por desafios comuns, ambos os países seguem imaginários contraditórios que oscilam entre o atraso e a expectativa de ser uma potência”, resume.

O ensaísta, compositor e um dos curadores da exposição Complexo Brasil José Miguel Wisnik destacou que o livro é uma experiência temporal para quem vivenciou o período de retorno e consolidação da democracia.

Ele resumiu em poucas palavras seu principal sentimento sobre a própria democracia ao longo desses 40 anos.

“A democracia brasileira segue pelo fio da navalha e chega ao limite de quase desmoronar completamente, mas ao mesmo tempo ela está na posição de surpreender e de ensinar como ela pode ser preservada e como é possível se relacionar com movimentos autoritários e golpes”, define.

Wisnik ressalta que o debate sobre o livro e a própria exposição Complexo Brasil acontecem em um momento de extrema atualidade, especialmente por conta do momento em que o Brasil realizou as prisões de Jair Bolsonaro e dos demais condenados pela trama golpista.

“O Complexo é algo que resiste e que tem uma opacidade que escapa de algum modo à nossa definição. É algo que apresenta muitas faces ao mesmo tempo”, reflete.

Wisnik ainda relembra o filósofo português Agostinho da Silva que citou que o futuro do Brasil “é tão grande que não há abismo que o caiba”.

Nesse momento podemos dizer que o Brasil não cabe nesse abismo, é um momento confirmatório em que vê ser punida uma tentativa de golpe. Isso não está garantido para os próximos 40 anos mas é fundamental que isso esteja acontecendo nesse momento”, finaliza.

Lisboa

Jornalista com graduação pela PUCPR, MBA em Rádio e TV pela Universidade Tuiuti do Paraná e mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Lisboa. Atuou como repórter da Gazeta do Povo nas editorias de economia, negócios e política e no portal TechTudo, além de experiência em veículos esportivos e especializados em tecnologia.

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