ATIVISMO

Luiza Brunet e a luta por respeito às mulheres

Modelo e ativista relembra violência, fala sobre feminismo, política e liberdade de amar sem preconceitos

Crédito: Marcelo Tabach

Filha de um lavrador e de uma costureira, Luiza Brunet começou a trabalhar aos 11 anos de idade como doméstica. Presenciou cenas de violência entre seus pais, na infância, e foi vítima de abuso de alguns patrões.

Emancipada aos 15 anos para se casar, tornou-se, cinco anos depois, um dos símbolos de beleza do Brasil. Em 2016, ao denunciar a agressão do ex-companheiro (o empresário Lírio Parisotto), ela transformou a dor em ativismo.

Hoje, aos 63, continua sendo um ícone de beleza, acrescido a atributos como coragem e superação. Moradora do Rio de Janeiro, mãe de Antônio, de 26 anos, e Yasmin, de 37, Luiza não descarta se candidatar a cargo político e afirma ter encontrado seu “lugar de fala”.

Diz que não teria preconceito em se casar com um homem gay ou namorar outra mulher. Como ativista, tem participado de eventos em diversos países, convidada por universidades, embaixadas e fóruns. Portugal foi o ponto de partida da turnê europeia neste semestre, seguido por Áustria e Suíça.

Você está fazendo uma turnê para defender causas ligadas às mulheres?

Sim, venho fazendo isso desde 2017. Em julho, estive na Argentina e em Portugal e retornei ao Brasil para compromissos do Agosto Lilás, campanha de conscientização sobre a violência contra mulheres. Em setembro, voltarei à Europa, com agendas até meados de outubro.

Empresária, atriz, modelo, palestrante e ativista. Com qual versão você se identifica mais?

O meu momento mais importante é o que eu vivo hoje, que é trabalhar em prol das mulheres para que reconheçam seus direitos.

Ao fazer isso, você relembra tudo o que sofreu?

Para toda mulher que sofre violência, seja pequena ou grande, na infância ou na vida adulta, as marcas são profundas. Eu, que sempre convido mulheres para compartilhar relatos, sofro porque são histórias muito duras. Elas ferem o coração da gente.

Qual é o maior desafio para diminuir essa violência?

Educação. A escola deveria inserir no currículo matérias que esclarecessem as crianças sobre o que é certo e errado. Eu assisti à violência doméstica dentro de casa sem entender direito. As crianças não sabem identificar e ficam com uma visão deturpada do relacionamento, porque os pais, ao mesmo tempo que estão brigando, batendo, gritando e jogando faca, no dia seguinte estão abraçados.

Há avanços na proteção para as mulheres?

Sim, vários. A Lei Maria da Penha, no Brasil, é um deles. A tipificação da violência psicológica e a definição de importunação sexual são outros avanços. Para muitas meninas como eu, o assédio sexual dentro de ônibus era algo normal, que resolvíamos mudando de lugar. Hoje, a garota pode fazer uma denúncia; há lei que protege a mulher contra esse tipo de abuso.

Sua experiência na vida adulta mostrou que a violência também afeta mulheres ricas e famosas. Não existe escudo, não é?

A violência contra a mulher não distingue valor econômico. A mulher com poder aquisitivo pode, talvez, colocar um ponto final, pois a autonomia financeira é muito importante. Mas não é só isso. O fato é que a mulher é violentada, independentemente de ocupar um cargo altíssimo. Muitas vezes, ela tem dependência emocional. Gosta do marido e não quer desfazer a família.

E tem a vergonha da humilhação pública quando denuncia?

Todas as mulheres têm vergonha de falar. É vergonhoso apanhar de um homem, ficar com a cara quebrada, dentes quebrados, costelas machucadas, como foi o meu caso. É muito difícil, e você pode querer esconder isso. Eu já havia sofrido violência antes de fazer a denúncia em 2016, mas minimizava justamente por ter dependência emocional. Ao mesmo tempo, tive muita coragem porque enfrentei um homem com poder econômico e político. A própria família acha melhor que a mulher não se exponha. Minha mãe tinha vergonha quando eu falava que ia azer uma denúncia e dizia: “Não, pelo amor de Deus”.

“Não teria preconceito em casar com um homem gay ou ter um relacionamento com uma mulher. Eu respeito as pessoas como elas são”

Você é feminista?

Nós, mulheres feministas, somos julgadas. Os feminicídios estão acontecendo de forma sequencial. E a violência bate na nossa porta também porque temos filhos que podem ser os agressores e filhas que podem ser as vítimas. Ser feminista é lutar por direitos iguais. A mulher pode ocupar um cargo similar ao de um homem, pode ser melhor e mais dedicada, mas vai ganhar menos. Não existe paridade salarial.

Crédito: Marcelo Tabach.

Você já pensou em se candidatar a um cargo político?

O que faço hoje é política humanitária. Não deixa de ser política. Já fui convidada para me candidatar algumas vezes, repensei, posterguei. Acho que posso querer, um dia. Um parlamentar tem uma caneta e pode lutar muito mais pelas mulheres, de uma forma mais concreta.

Como se sente hoje com você mesma?

Nunca me senti tão bem e tão bonita. E com o poder real, o da fala. Eu só estudei até os onze anos, não completei o Ensino Fundamental, não fiz faculdade porque comecei a trabalhar muito cedo para ajudar minha família, que é bem desestruturada, pobre, sem condições. Então, fui me graduando sozinha pela vida, com minha autonomia emocional, financeira, o respeito que conquistei. Tenho participado de eventos importantes, com autoridades relevantes, ou seja, estou em um lugar que jamais imaginei. Para a menina caipira do Mato Grosso do Sul, isso era uma coisa quase impossível. Então, isso tudo junto faz com que eu me sinta muito confortável nesse lugar.

Como você lida com a pressão por um padrão estético? A sua relação com o espelho mudou com a maturidade?

Se a nossa relação com o espelho não mudar, é muito triste. Porque o que a gente vê são mulheres se recortando inteiras para resgatar uma jovialidade que não existe. Eu não vou voltar a ser jovem e posso garantir que estou muito bem nesse lugar.

Arrependimentos?

Um, profundamente, de não ter feito terapia quando sofri violência doméstica. Resolvi isso da minha maneira e foi muito doloroso. O ideal é a gente ter uma pessoa que cuide da nossa parte emocional, porque não tem como lidar com tudo sozinha. Acabei ficando bastante doente pós-violência.

Menopausa é um problema para você? O prazer feminino ainda é um tabu?

A menopausa é um momento difícil. Eu precisei fazer uma histerectomia total aos 49 anos. Nessa cirurgia, retira-se o aparelho feminino, e é necessário fazer uma reposição hormonal mais cuidadosa. Isso não quer dizer que a mulher deixou de ter sex appeal, de se interessar por sexo. Meu maior exemplo é a minha mãe, que tem 84 anos e namora, tem vida sexual. Eu não tenho nenhum problema com libido. Não estou namorando, neste momento. Meu compromisso é poder me relacionar com alguém com quem possa discutir sobre outras questões que não seja só o sexo, uma pessoa parceira, que a gente tenha uma boa relação e que seja um sexo ótimo.

Esse homem existe?

Sim. Assim como a gente busca homens incríveis, tem homens incríveis que buscam mulheres incríveis também.

Você já teve alguma experiência dentro do escopo LGBTQIA+?

O Brasil é o país que mais mata mulheres trans. Por que uma pessoa acha que tem o direito de interferir na opção sexual de outra, a ponto de matar? Cada um tem o direito de escolher como viver, e temos que tratar todas as escolhas com respeito, carinho e acolhimento. Eu sou uma pessoa livre, entendeu? Não tenho nenhum preconceito e não teria em casar com um homem gay ou ter um relacionamento com uma mulher. Não é uma coisa que mudaria a minha vida. Eu respeito as pessoas como elas são.

Já pensou em morar fora do Brasil?

Sempre viajei para fora, desde os 16 anos. Conheço muitos países, mas amo o Brasil. Meu amor pelo Brasil passa pelo respeito que recebo, pela trajetória que construí e o acolhimento que sempre tive. Quero ficar no Brasil, lutar para que seja um país livre de preconceitos, que respeite as mulheres. Que a gente possa empreender, amar livremente, ser respeitada, possa ser CEO, estar no parlamento falando e não sendo calada.

Se você pudesse dizer uma frase para a Luísa de décadas atrás, qual seria?

Diria: “Nossa, eu não sabia que você ia ser tão potente assim. Eu tô muito orgulhosa de você”. Eu tenho orgulho da Luísa menina, da Luísa adolescente e da Luísa mulher de hoje (se emociona e chora).

Essa entrevista foi publicada originalmente na revista EntreRios.

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Deborah Lima
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