“Manas”: filme brasileiro sobre abusos no Marajó estreia em Portugal
Dirigido por Marianna Brennand, longa premiado em Veneza denuncia violência sexual contra mulheres e crianças na Amazônia
“Como não fazer esse filme?”. Foi assim que a diretora Marianna Brennand resumiu o impulso por trás de Manas, seu primeiro longa de ficção e que estreia nesta quinta-feira (21) nos cinemas portugueses, inspirado em histórias reais de abuso e exploração sexual no arquipélago do Marajó, no Pará.
Lançado com grande repercussão no Festival de Veneza, o filme ultrapassa a ficção: é denúncia, manifesto e acolhimento. Fruto de mais de dez anos de pesquisa, a obra expõe uma das realidades mais silenciadas do Brasil: a violência sexual sistemática contra mulheres e crianças em áreas remotas da Amazônia.
“Esses casos me foram contados pela Fafá de Belém há mais de uma década. Eu nunca tinha ouvido falar, apesar de ser nordestina e estar tão próxima do Norte”, contou Marianna Brennand. “Fiquei abalada. Revoltada. Como algo assim acontece e continua acontecendo?”.
O impulso inicial foi o de produzir um documentário. Mas a diretora, documentarista por formação, logo percebeu que a abordagem documental seria inviável: “Seria eticamente impossível. Eu teria que expor mulheres e crianças a reviverem traumas profundos. Isso seria absolutamente violento”, explicou. A escolha pela ficção foi, assim, ética e estética, permitindo contar histórias reais com sensibilidade e respeito.

“Manas” conta a história de Tielle (Jamilli Correa), garota de 13 anos que vive numa comunidade ribeirinha na Ilha do Marajó, no Pará. Ela passa a vender açaí nas balsas da região e é explorada sexualmente pelos tripulantes. Em casa, também sofre com abusos e assédios do pai.
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O filme utiliza, através da personagem de Dira Paes, a técnica da escuta especializada, um procedimento legal que garante a abordagem adequada de vítimas de violência sem que elas precisem reviver os traumas. “Fiz questão de incluir isso no roteiro. É uma ferramenta essencial que precisa ser mais conhecida e respeitada”, afirmou a diretora.
Tratar de um tema tão delicado exigiu não apenas sensibilidade artística, mas também cuidado extremo durante a produção. Para evitar represálias e proteger a equipe, Marianna e os produtores optaram por manter o projeto sob sigilo: “Publicamente, o filme só foi anunciado quando estava pronto. Nos mantivemos em silêncio para poder pesquisar e filmar com segurança”, contou a cineasta.
Repercussão internacional e reconhecimento em festivais
A estreia em Veneza marcou o início de uma trajetória internacional para Manas, que já foi exibido em diversos países, sempre provocando forte impacto no público.
“A recepção tem sido arrebatadora. As pessoas agradecem pelo filme, pela coragem e pelo cuidado ao abordar o tema. O público se identifica e, infelizmente, reconhece que essa violência não é exclusividade do Brasil ela é universal”, lamenta Mariana.
Premiado como Melhor Direção na seção Giornate degli Autori do Festival de Veneza (2024), o filme já conquistou mais de 20 prêmios em festivais internacionais, incluindo o Prêmio do Público no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho. Marianna Brennand também fez história ao se tornar a primeira cineasta brasileira a receber o Women In Motion Emerging Talent Award 2025, no Festival de Cannes, que reconhece novos talentos do cinema mundial.

Elenco e produção
O elenco de Manas mistura nomes consagrados, como a atriz Fátima Macedo, e talentos revelados na própria região Norte. Destaque para Jamilli Correa, uma jovem atriz mirim natural de Belém, descoberta após quase um ano de pesquisa de elenco.
“Ela é uma força da natureza. Uma presença cênica rara, que transmite emoções profundas com silêncio. Foi um prazer enorme dirigi-la e mais bonito ainda por ser a estreia dela na atuação e a minha primeira vez dirigindo atores”, descreveu Marianna.
A produção também teve um cuidado especial com fotografia, figurino, som e direção de arte, o que fortaleceu o impacto da narrativa. “Foi um processo coletivo, potente, com uma equipe afinada. Foram 11 anos de dedicação. E valeu cada segundo”, disse.

Manas é um filme para mulheres, mas também é um chamado para todos. “Lutar contra a violência de gênero não é um dever só das manas. É também dos manos. É um dever de toda a sociedade”, concluiu Marianna Brennand.
Após a estreia em Portugal, a diretora segue com a equipe em circuito internacional, levando o filme a mais países e festivais.
Jornalista com pós graduação em Marketing Digital. Atuou na TV Globo, Band, SBT, Record, TV Brasil e nas rádios Globo e CBN. Em Portugal apresentou telejornal para países lusófonos, na Banda TV. Foi repórter e colunista de cultura da Revista Brasil JÁ e atualmente assina a editoria de cultura da EntreRios.
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