Margareth Menezes: “Como artista negra, enfrentei as dificuldades que vêm junto com o racismo estrutural”
Em entrevista à EntreRios, a ministra e cantora fala sobre a reconstrução da pasta de Cultura e os 38 anos de carreira
“Que mara-mara-mara-maravilha, ê! Egito, Egito ê!” Com esse refrão, Margareth Menezes — Maga, para os fãs — conquista plateias ao redor do mundo. Em 2025, ela celebrou 38 anos de carreira e continua atravessando fronteiras, ora nos palcos, ora nos bastidores do Ministério da Cultura, mostrando que ritmo e liderança podem caminhar lado a lado.

Margareth assumiu a Cultura após um período difícil, no qual o Ministério havia sido rebaixado à categoria de secretaria. “Políticas estavam descontinuadas, havia uma desconexão com o setor cultural. Era uma secretaria que, na verdade, perseguia a cultura brasileira”, afirma em entrevista à EntreRios.
Seu trabalho envolve a recuperação e a gestão de instituições como a Agência Nacional do Cinema (Ancine), a Fundação Nacional de Artes (Funarte), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Fundação Palmares, a Casa de Rui Barbosa e a Biblioteca Nacional. “Estamos há dois anos reconectando o Ministério à sociedade, aos estados, aos municípios”, celebra a ministra.
Entre as urgências da gestão, ela destaca três: a implementação do Marco Regulatório do Fomento à Cultura, a regulamentação do Sistema Nacional de Cultura e a necessidade de legislar sobre o ambiente digital e as plataformas de streaming, um tema mundial.
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“Nosso setor representa 3,11% do PIB, mas recebe apenas 0,45% de incentivo fiscal. Essa conta precisa ser revista. Estamos falando de uma área que emprega, gera renda e forma identidade nacional”, alerta.
Ciente dos obstáculos, mas animada com os resultados, a ministra parece ganhar mais fôlego para a carreira musical. O afropop, gênero que ajudou a construir, segue como marca registrada. “Meu trabalho sempre foi muito influenciado pelo ambiente musical da Bahia, a Tropicália, os Novos Baianos, os blocos afro, o reggae, a música negra urbana. A gente chama de axé, mas, na verdade, o que aconteceu foi a combinação de um caldeirão de influências com artistas que criaram algo novo e uma sonoridade quente, percussiva”, explica.
Margareth, uma das principais vozes a celebrar os 40 anos do axé, diz que o ritmo significa muito mais que um gênero musical. “É um movimento cultural, estético e social”. Ela reconhece questões polêmicas como a apropriação comercial do afropop por elites brancas: “Há uma elite que se beneficiou financeiramente. E, ao mesmo tempo, artistas de periferia foram barrados”.

A artista se vê como parte de uma geração que superou barreiras para transformar o Carnaval e a indústria da música baiana nas potências que são hoje. “Como artista negra, enfrentei as dificuldades que vêm junto com o racismo estrutural, com a negação do nosso valor artístico e econômico. Precisei criar meu próprio selo, buscar caminhos alternativos para me manter no mercado”.
Artistas preferidos
Em meio à rotina no Ministério, Margareth encontra tempo para ouvir música, de tudo um pouco. Seu gosto é eclético, da Jovem Guarda a nomes da nova geração como Josiara, Gilson’s, Baiana System, Luedji Luna, Larissa Luz, Rael, João Gomes, Martins e Almério.
A espiritualidade também ocupa espaço central: “Minha fé está comigo o tempo todo. É um pilar que sustenta minha caminhada. Acredito no respeito a todas as crenças e lamento profundamente a perseguição que ainda existe, principalmente contra as religiões de matriz africana. As saudações que canto refletem a cultura da minha terra, da Bahia, mas não são rituais transportados para o palco. São manifestações de pertencimento”.
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O amor, tema que também permeia suas composições, tem conexão com o romantismo próprio. “Acredito no amor, mesmo com as dores e decepções. Ele nos transforma, nos inspira. E dá ótimas canções”. Entre notas musicais e projetos de lei, Margareth segue a jornada com a fé de quem constrói.
“Temos um país riquíssimo culturalmente. Meu papel hoje é ajudar a estruturar políticas para garantir que essa riqueza seja valorizada, protegida e difundida dentro e fora do Brasil”.
Essa entrevista foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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