Mateus Solano: “Fazer teatro é assumir o protagonismo, mesmo sendo o figurante”
Em bate-papo com a EntreRios, o ator fala sobre a sua relação com Portugal, a peça "O Figurante" e novos projetos
Aos 44 anos, quase três décadas de carreira e vários personagens que marcaram a televisão brasileira, Mateus Solano estreia em Portugal o seu primeiro monólogo, O figurante. A obra, escrita em parceria com Isabel Teixeira e Miguel Thiré, é sobre a urgência de existir, e devolve ao ator o protagonismo que, segundo ele, tantas vezes se dissolve na vida real.
Depois de turnê no Brasil de mais de 180 apresentações, ano passado, o monólogo atravessa o Atlântico para cumprir um ciclo íntimo: foi em Lisboa, na região de Arroios, que parte da peça nasceu.
A dramaturgia de O figurante foi criada a partir de longos e improvisados insights — palavra que poderia ser traduzida por percepções, mas vai muito além — de Solano, gravados em áudios.
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Na construção, Augusto, um homem que se descobre figurante da própria vida, questiona as pequenas renúncias que fazemos em nome de uma falsa sensação de protagonismo. “A gente vive querendo ser o centro de tudo, mas essa vontade inflada é justamente o que nos deixa mais à margem”, reflete.
No palco, uma pergunta perpassa a trama: quem conduz, afinal, a narrativa da nossa existência? “Fazer teatro é assumir o protagonismo, mesmo sendo o figurante. É uma forma de colocar minhas questões na frente, de chamar o público para se chacoalhar também”.

O ator, que marcou época com o Félix, a “bicha má” da novela Amor à vida, da TV Globo, sabe bem o peso e o custo de ser alvo de atenção do público. “As pessoas começaram a olhar tanto para os personagens que eu me senti escondido atrás deles. O próprio protagonismo me fez sentir figurante”, avalia. Esse descompasso alimenta o monólogo e ecoa na plateia como confissão e provocação.
Portugal é reencontro: filho de diplomata, viveu no país durante a infância e voltou muitas vezes para temporadas teatrais, através de novelas e outras épocas. É um ator reconhecido e muito admirado — e nada mais natural que Augusto, esse personagem ferido pela ausência de si, encontre aqui um público disposto a ouvi-lo.
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Solano está envolvido em outros projetos no audiovisual: o longa Ataque ao metrô, a série Juntas e separadas e o curta Estrelas fluorescentes. Mas é no teatro, essa liturgia que ele diz ser “mais sagrada do que muitas coisas que se dizem sagradas”, que encontra abrigo espiritual. Cumpre rituais de respeito, como tocar o palco antes de entrar em cena e dizer “merda” para desejar sorte, além de “Evoé e Laroyê”, em reverência ao mistério que é estar vivo diante de outras vidas.
Natureza, fado e jazz
Fora de cena, o ator exercita o físico em corrida, trilhas, cachoeiras e na convivência com a natureza. A mente é abastecida por fados (quando está em Portugal), leituras de Guimarães Rosa e com o som de jazz e de música africana. Morando no Rio de Janeiro, ele colocou à venda a mansão onde vivia com a atriz Paula Braun e os dois filhos adolescentes. O casal anunciou a separação em setembro do ano passado, após 17 anos.
Para o futuro, ele planeja peças novas, em parceria com Nilton Bonder, Michel Melamed e, talvez, algum texto de Shakespeare. Mas seu sonho é mais amplo: “Expor o teatrão que inventamos para viver. Mostrar que dinheiro, mercado, essas engrenagens todas, são só ficções que estão nos levando a matar o que realmente importa, a natureza”. O figurante é um lembrete de que existir exige atitude. E de que assumir o próprio papel não tem nada a ver com ser estrela, mas, sim, com não desperdiçar o milagre de estar aqui.
jordan@revistaentrerios.sapo.pt
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