Acordo comercial

Acordo Mercosul-UE pode beneficiar relações entre Brasil e Portugal, mas otimismo exige cautela

Acordo assinado em dezembro poderá oferecer novas possibilidades de mercados para empresas brasileiras e portuguesas

Javier Milei, Luis Lacalle Pou, Ursula von der Leyen, Luiz Inacio Lula da Silva e Santiago Pena durante cúpula do Mercosul, em que o acordo foi firmado em 2024. Crédito: Ricardo Stuckert / PR

A Comissão Europeia anunciou na sexta-feira (09) a aprovação do acordo Mercosul e União Europeia (UE) um tratado histórico de cooperação econômica, considerado o maior acordo comercial do planeta, já que, juntos reúnem 718 milhões de pessoas, um PIB de US$ 22 trilhões e 25% da economia global. O acordo prevê a eliminação gradual de tarifas em mais de 90% das exportações entre os blocos.

A assinatura é histórica porque a parceria é discutida há mais de 20 anos. As negociações de um acordo preliminar foram concluídas em 2024, mas, ao longo de 2025, a formalização do texto final enfrentou a resistência de alguns países.

Estava previsto ser assinado em dezembro do ano passado, mas acabou bloqueado por países como a França, Áustria, Hungria a Polônia, enquanto do outro lado, Alemanha, Espanha e Portugal se mostravam a favor da assinatura do acordo.

O cenário mudou com a posição favorável da Itália, país com uma das maiores populações do bloco e que tinha pedido mais tempo para a assinatura do acordo em dezembro, especialmente por conta da resistência dos agricultores locais. Com isso, o grupo pró-acordo conseguiu o mínimo necessário de 65% do total de votantes.

A assinatura será feita no sábado (17) pela presidente da Comissão Europeia, Ursula Von Der Leyen, em cerimônia, no Paraguai. O acordo ainda precisará ser ratificado internamente pelo Parlamento Europeu em sessão que deve acontecer nos próximos meses. A França já manifestou desaprovação e afirma que irá recorrer para barrar o andamento do acordo.

Especialistas ligados ao comércio, indústria e exportações veem o acordo com otimismo, mas também recomendam cautela quanto às condições e à efetividade prática para os empresários.

A EntreRios ouviu especialistas e empresários para compreender suas expectativas, especialmente no que se refere à intensificação das relações comerciais entre Brasil e Portugal.

A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira acredita que o acordo possibilita ao Mercosul a oportunidade de mudar a escala de produção de bens primários para bens semifaturados. “À medida que você vende um produto alimentício, você pode vender o farelo de soja, ou o óleo ou farelo de milho. Há como colocar um nível adicional de beneficiamento de produtos, o que gera mais renda e empregos”, destaca Otacílio Soares, presidente da Câmara.

Otacílio Soares, presidente da CCILB acredita que o acordo poderá trazer melhorias importantes, Crédito: Divulgação

A APEX-Brasil afirma ter mapeado mais de 1.800 oportunidades de mercado para os produtos brasileiros. O órgão destaca que haverá um incremento para as vendas externas com a redução de tarifas para mais de 90% dos produtos brasileiros de setores como agronegócio (carnes bovina, suína e de aves, soja, milho, café, frutas, açúcar, etanol), alimentos e bebidas, máquinas e equipamentos, casa e construção, moda, economia criativa, saúde e tecnologia da informação e comunicação. A Agência ainda estima um aumento de US$ 7 bilhões das exportações brasileiras para o bloco europeu.

“Queremos diversificar nossa pauta exportadora, atrair investimentos e fortalecer as relações históricas e os laços comerciais. Temos buscado reforçar o compromisso do Brasil com abertura comercial e sustentabilidade e temos apoiado as empresas para se adequarem às exigências da UE”, ressaltou o presidente da APEX-Brasil, Jorge Viana.

Jorge Viana, presidente da APEX-Brasil,  otimista com as possibilidades de novos negócios. Crédito: Divulgação APEX-Brasil

2025 ficou marcado pela cobrança de tarifas adicionais do governo dos Estados Unidos para a importação de produtos de diversos países, inclusive para a União Europeia e para o Mercosul. O Brasil, por exemplo, foi submetido a uma tarifa adicional de 50% sobre seus produtos ao longo de alguns meses.

Estados Unidos e China também entraram em uma guerra tarifária que gerou insegurança no mercado financeiro mundial. O acordo Mercosul-UE passou a ganhar força em meio à busca de uma alternativa viável para diminuir a dependência e a influência econômica de China e EUA e diversificar mercado.

“A UE consegue acesso a mercados emergentes com grande potencial de consumo, como Brasil e Argentina, reduz a dependência da China em minerais críticos e matérias-primas essenciais para a transição energética e digital, e reforça sua posição como ator relevante no comércio internacional”, analisa Diogo Costa, diretor de clientes institucionais do Banco de Investimento Global (BiG).

LEIA TAMBÉM: Acordo Mercosul–UE adiado: o que está em jogo para Brasil e Europa

O momento de colaboração também pode oferecer benefícios diretos à relação comercial entre Portugal e Brasil. Para Diogo Costa, as empresas portuguesas terão a chance de ampliar seus mercados e exportações para o Brasil, número que ainda é baixo (1,44%). “Existe um elevado potencial de crescimento das exportações para o Mercosul, que possui interesse estratégico em diversas indústrias tradicionais portuguesas, como o agronegócio (como vinhos e azeite), componentes de automóveis, moldes, calçados e outros”, avalia.

Do lado brasileiro, trata-se da visão de Portugal como a porta de entrada dos produtos na Europa. “Temos afinidades culturais e logísticas que facilitam negócios e investimentos e que abrem espaço para cooperação em setores como agronegócio, tecnologia, energias renováveis e serviços. A tendência é o fortalecimento das relações bilaterais entre os países”, pondera Viana.

Há ainda espaço para a geração de novos empregos, embora esses impactos possam variar de acordo com o setor e com a implementação das cláusulas do acordo. “O acordo pode criar empregos porque expande mercados, aumenta a competitividade e estimula novos investimentos. Quando barreiras caem e as empresas ganham escala, elas produzem mais e precisam contratar”, assinala Otacílio Soares.

Os especialistas também apontam que há desafios a serem superados. Um deles é o cumprimento de exigências de regulação europeia, especialmente no atendimento de padrões ESG (ambiental, social e governança). “Muitas coisas dependerão de como o acordo for discriminado e das negociações país a país. Dependerá da capacidade do Mercosul de se adaptar às oportunidades”, destaca Soares.

Também há fatores globais, como instabilidades e tensões geopolíticas, que tornam o cenário das exportações mais complexo para as empresas. “Somam-se ainda as exigências regulatórias e um ritmo muito rápido de inovação tecnológica, que obriga os exportadores a inovar continuamente para permanecerem competitivos”, analisa Costa.

Se a concretização do acordo exige cautela em relação aos termos finais de cooperação, o mesmo se dá por parte de alguns empresários. Para alguns deles, ainda não estão claros os benefícios diretos, embora acreditem que o acordo poderá ser favorável para o ambiente de negócios dos setores em que atuam.

Esse é o caso da Edesoft, empresa paulista de desenvolvimento de soluções e sistemas digitais baseados em IA que atua em Portugal desde 2023 e enxerga o país como uma porta estratégica para a expansão na Europa pela afinidade cultural e linguística e pelo ambiente regulatório favorável.

Manoel Edesio, presidente da Edesoft, acredita nas vantagens do acordo trará para os negócios. Crédito: Bernardo Coelho

Para Manoel Edesio, presidente da companhia, o impacto do acordo Mercosul-UE para empresas de tecnologia ocorre de forma indireta, já que elas não dependem de barreiras tarifárias tradicionais. Ele acredita que o ambiente comercial integrado pode facilitar a mobilidade profissional, acordos de cooperação, investimentos e parcerias tecnológicas.

“A redução da burocracia e a ampliação de mecanismos de proteção e segurança jurídica para operações entre empresas da UE e do Mercosul tornam mais simples a expansão para novos mercados europeus. Mesmo que o efeito não seja imediato, o acordo cria um contexto mais favorável para a ampliação da atuação internacional”, explica.

Paulo Leite, sócio do AQUI Renovation Group, rede de franquias de remodelação que está em oito países do mundo, é outro que acredita no impacto indireto do acordo. A empresa abriu em Portugal a marca Aqui a Tua Remodelação no início de 2025 e deverá abrir em 2026 a brasileira Aqui a Sua Reforma.

Ele explica que seus negócios funcionam de forma independente em cada país, mas enxerga benefícios para o ambiente econômico. “Todos os acordos que visam incentivar trocas comerciais merecerão o meu aplauso. Serei sempre favorável às trocas e nunca ao protecionismo”, finaliza.

Paulo Neto Leite, CEO da AQUI Rennovation Group. Crédito: Divulgação

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Lisboa

Jornalista com graduação pela PUCPR, MBA em Rádio e TV pela Universidade Tuiuti do Paraná e mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Lisboa. Atuou como repórter da Gazeta do Povo nas editorias de economia, negócios e política e no portal TechTudo, além de experiência em veículos esportivos e especializados em tecnologia.

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