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Nacionalidade é contribuição e pertencimento: o que está em jogo com a alteração da lei

A alteração da Lei da Nacionalidade aumentaria o tempo de residência necessário para solicitar a cidadania portuguesa

Bandeira portuguesa junto ao Monumento aos Restauradores, em Lisboa. Crédito: António Cotrim/Lusa.

‘Cidadania’ expressa um conjunto de direitos que permite ao cidadão participar da vida prática de um país. É a afirmação de um vínculo e um estímulo inegável ao trabalho, ao empreendedorismo e, consequentemente, ao crescimento de um país.

Em Portugal, a proposta de mudança na Lei da Nacionalidade reacende uma pergunta antiga e sempre atual: o que significa ser cidadão de um país? EntreRios ouviu quem está ligado ao tema.

Maria Helena Pessoa, empreendedora luso-brasileira de 57 anos e dona da marca Sweet Mulata Brigadeiros, chegou a Portugal em 2008. Antes de abrir seu negócio, trabalhou como cuidadora de idosos, organizou festas, vendeu bolos, doces e salgados. Ao formalizar a atividade, Maria Helena deu sua contribuição para a segurança alimentar em Portugal.

Maria Helena Pessoa é dona da marca Sweet Mulata Brigadeiros. Crédito: Acervo pessoal.

Investiu em cursos e certificações, como o HACCP (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle), sistema que ensina a identificar, avaliar e controlar perigos para os alimentos, prevenindo contaminações físicas, químicas e biológicas na produção, no processamento e na distribuição.

Pode-se olhar para Maria Helena e enxergar só mais um papel, um passaporte — mas ela deveria ser vista como outros novos portugueses que estudam, trabalham e elevam a arrecadação de impostos no país.

“Com todas as leis aqui, sempre fui correta”, orgulha-se. Maria Helena solicitou a nacionalidade após cinco anos de residência legal. “Quando você tem a cidadania de um país, as portas se abrem”. Isso facilitou o acesso a serviços e crédito. “A pessoa te olha com mais confiança”.

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Para Iris Saldanha, advogada brasileira especializada em Direito Internacional que vive em Portugal, há um ponto de inflexão importante na autorização de residência — e outro, ainda mais intenso, na obtenção da cidadania. “Enquanto você não tem autorização de residência, sequer se enquadra para um pedido de cidadania”, lembra ela.

Iris Saldanha avalia que muitos imigrantes enfrentam longas fases de incerteza antes de solicitar a cidadania. Crédito: Acervo pessoal.

E destaca que muitas pessoas atravessam longos períodos de instabilidade até chegar lá: “O IRN (Instituto dos Registos e do Notariado) tem uma margem de seis a oito meses de atraso. Enquanto a pessoa está nessa situação, está no limbo, é muito frágil”.

Essa fragilidade afeta a vida do imigrante — e a economia, do aluguel à mobilidade: “Ele não pode transitar fora de Portugal. O dono do imóvel tem medo de alugar para alguém sem cartão válido. O banco dificulta o acesso ao financiamento”. 

A alteração da Lei da Nacionalidade, citada como possibilidade pelo ministro da Presidência, António Leitão Amaro e reforçada pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, aumentaria o tempo necessário de residência legal para que residentes possam reivindicar a nacionalidade. 

A discussão resgata a ideia de que muitos só querem o passaporte português para chegar a outros países da União Europeia. Esse discurso ignora a realidade dos imigrantes que buscam reconhecer seu pertencimento a Portugal para investir seu trabalho e seus recursos no país.

A socióloga portuguesa Catarina Reis Oliveira, professora auxiliar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, diz que restringir o acesso seria retroceder. “É regressar ao que tínhamos 20 anos antes, e que os números dizem claramente que não funcionava”.

Para a socióloga Catarina Reis Oliveira, limitar o acesso à nacionalidade significaria um passo atrás. Crédito: Déborah Lima.

Catarina explica: “Portugal foi mudando o seu enquadramento da nacionalidade no sentido de reduzir o tempo de residência, não aumentar”. Em 2006, passou a reconhecer que era também destino de imigração, e não apenas uma nação de emigrantes. Deve se orgulhar disso. “Passamos a ser um dos países com maior resposta na concessão da nacionalidade.”

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De acordo com os dados da Conservatória dos Registos Centrais, aos quais a EntreRios teve acesso, a média anual de concessões de nacionalidade passou de 5,6 mil para 54 mil após essas mudanças.

Endurecer o acesso à nacionalidade contradiz, segundo a professora, as necessidades do país: “Se entendemos que somos um país envelhecido e dependemos da chegada de uma mão de obra e de uma população que chega à idade fértil e ativa, como é que vamos limitar direitos, excluir e dificultar mais?”

Passados 17 anos, hoje a empresária Maria Helena se sente parte de Portugal. “Eu sou brasileira, mas também sou portuguesa. Aqui me acolheram, aqui eu cresci.” E completa: “A nacionalidade mudou a forma como eu me sentia em relação ao país. A cada lugar que vou, levo o Brasil e Portugal no peito”.

O debate em torno da Lei da Nacionalidade poderia ser a oportunidade de avançar — e não de recuar — nessa direção.

Essa reportagem foi publicada originalmente na revista EntreRios.

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Porto

Editor do site da EntreRios. Jornalista pela Universidade Federal de Pernambuco e mestrando em Ciências da Comunicação pela Universidade do Porto. Com passagem pela TV Jornal, Jornal do Commercio e BRASIL JÁ.

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