Num dia de calor em Lisboa…
Entre lambretas, pênaltis e imperiais, uma crônica sobre calor, humor e cerveja gelada na Lisboa que resiste com charme e sotaque aos seus botecos históricos
No balcão, Alfredo moveu a generosa cintura de frade por trás do avental e fez escorrer o antídoto dourado para o calorão de agosto em Lisboa. Apesar da pompa de capital europeia, Lisboa esconde seus botecos pé-sujo, sempre de portas e braços abertos a quem busca um refúgio. O mais antigo deles, A Tendinha do Rossio, nem é tão escondido assim
Desde 1840 está no coração da Baixa Lisboeta, em pleno Rossio, ao lado do Arco, sob a mira de um D. Pedro I (em Portugal, D. Pedro IV, talvez por culpa da cotação do euro), equilibrado numa imensa coluna, debaixo de sol escaldante, coitado, suando mais que tirador de espírito.
Se o imperador pudesse, aposto, desceria do pedestal para aliviar o calor na Tendinha.
Foi justamente o que fiz por esses dias. Quarenta graus à sombra, sem praia por perto, o juízo fritando e a porta do boteco se abriu como um sorriso, um oásis, uma miragem.
— Alfredo, desce uma Imperial!
Na mesma hora, um motoboy entrou esbaforido e pediu uma lambreta. Ouvi bem, lambreta? Mas é boteco ou concessionária?
— Neste lado do Atlântico, lambreta é a cerveja num copinho de nada — ensinou Alfredo, com ar de professor de liceu do Eça, esfregando um pano encardido no balcão.
A cerveja em pílula ou aspirina de cevada fez uma grande diferença ao motoboy. Virou a lambreta, subiu na outra lambreta e partiu, feliz.
— Um pênalti! — gritou outro sujeito que entrou no boteco de bochechas vermelhas e ar de funcionário público, mangas arregaçadas, nó da gravata desfeito.
Pênalti? Mas tem jogo nessa hora?
E o Alfredo apagou outro incêndio da minha ignorância.
— Pênalti por essas bandas é quando se toma a bebida num só gole — frisou, enxugando o suor na testa com o pano encardido.
O funcionário público devia ser o craque da repartição. Nem Ronaldo cobrava um pênalti assim: copo pra um lado, cerveja pra dentro. Refrescado, voltou aliviado para o serviço.
Mesmo assim, o calor não dava trégua.
— Alfredo, desce uma Imperial!
A nova Imperial chegou com um grupo de turistas franceses, fumegantes como bolinho de bacalhau saído do forno.
— Panachê? — sugeriu Alfredo.
E desde quando o Alfredo fala francês? Alfredo balançou novamente a cabeça. Devia pensar, o calor deu cabo dos neurônios do zuca.
— Panachê é cerveja com limonada — explicou, passando o pano encardido na vitrine das bifanas .
Daí entrou uma senhora de leque na mão. Tinha duas rodas de suor estampadas embaixo do braço e, mesmo assim, ousou pedir um café.
Sob o olhar atônito de todos, Alfredo pousou a xícara no balcão.
— Espera um bocadinho. Com esse calor, em cinco minutos esse café tá quentinho, quentinho.
Essa crônica foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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