Crônica

O bar onde Madonna foi barrada

O Tejo Bar é um cantinho especial de Lisboa, nada muito chique, aparentemente uma tasca como outra qualquer em Alfama. Lá dentro, um balcão, meia dúzia de mesas espremidas numa área do tamanho de uma quitinete, uns violões pendurados na parede e um velho piano encostado ao canto.

O minimalismo esconde o melhor fim de noite de Lisboa. Boa música, com a grande vantagem de, se for o seu dia de sorte, ouvir uma ‘canja’ ou até dividir a mesa com o seu cantor favorito — ou cantora idem.

À frente de tudo isso, Dona Mira, uma brasileira quase sempre atrás do balcão, não é de muita conversa. Não por não ser simpática, mas porque é preciso estar atenta e forte, pois o bar tem lá suas regras.

A primeira delas é que não se entra nem se sai entre as sessões, que costumam durar cerca de vinte minutos. Quando a porta fecha, é feito cofre de banco. Tudo para não atrapalhar a exibição musical executada por um casting variado de estudantes de música a artistas de rua, passando por estrelas renomadas de visita a Lisboa.

Madonna, por exemplo, já cantou no Tejo Bar, e de graça, para o delírio de uma dúzia de incrédulos felizardos. Não sem antes ter sido barrada na entrada; afinal, não sabia das regras e chegou entre as sessões. Bateu na portinha e viu surgir o funcionário cabeludo e despenteado, o cigarro a pender no canto da boca. Traído pela penumbra, não reconheceu a gringa à sua frente.

“Só daqui a um bocadinho”, anunciou o garçom. Madonna olhou para um lado e outro, sem entender. “Se quiser esperar”, disse o cabeludo, tentando ser simpático, “pode espreitar a vista de Alfama do miradouro de São Estevão”, sugeriu, apontando para o beco que levava ao terraço da igrejinha ali perto.

Madonna foi e voltou, achando graça em tudo isso. O garçom, ainda sem reconhecer a cantora, apontou um banquinho num canto mais escuro. Coube a um desconhecido músico no velho piano chamar a popstar para a ‘canja’. O resto é história e o dueto improvável pode ser visto à distância de uma googlada.

Madonna não foi aplaudida após cantar. Não porque desafinou, mas porque uma outra regra da casa proíbe o aplauso no Tejo Bar. Isso para não incomodar os vizinhos do prédio.

Em vez de aplaudir, a saída é estalar os dedos ou ainda esfregar as palmas das mãos uma na outra, como se estivesse com frio.

Essa crônica foi publicada originalmente na revista EntreRios.

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