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O Brasil e a CPLP: retomar a liderança para ampliar influência global

Representante do país na organização, o embaixador Juliano Féres Nascimento concedeu entrevista à EntreRios

Juliano Nascimento, embaixador da missão do Brasil na CPLP. Crédito: MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Responsável por representar o Brasil junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o embaixador Juliano Féres Nascimento defende que o país volte a assumir a presidência da organização no biênio 2027–2029.

Em entrevista exclusiva à EntreRios, o diplomata destaca que o retorno do protagonismo brasileiro pode fortalecer pautas estratégicas, além de reforçar o papel do Brasil como articulador do diálogo entre os países de língua portuguesa.

Com longa trajetória no Itamaraty e experiência no gabinete do presidente Lula durante o primeiro mandato, Féres Nascimento aponta que a diplomacia brasileira voltou a priorizar a CPLP após um período de distanciamento no governo Bolsonaro.

Para ele, a perda de protagonismo foi resultado de uma política externa “curta e mesquinha”, baseada no alinhamento do ex-presidente com os Estados Unidos. Agora, sob a liderança de Lula, o Brasil retoma sua vocação de construir pontes e gerar consensos no espaço multilateral.

SAIBA MAIS: Brasil quer liderar CPLP no biênio 2027-2029

Juliano Féres Nascimento tornou-se Representante Permanente do Brasil junto à CPLP em 2022. A organização, fundada em 1996, em Lisboa, reúne nove países que compartilham o idioma português: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Portugal, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Desde a fundação, o Brasil tem exercido papel central na promoção da língua portuguesa e no intercâmbio cultural. Atualmente, é o maior contribuinte da CPLP, com um investimento anual de cerca de 800 mil euros — valor que deve aumentar a partir de 2026.

Confira a seguir trechos da entrevista:

O senhor gostaria que o Brasil assumisse a presidência da CPLP no próximo biênio?

Sim. Se o Brasil vier a assumir a presidência em 2027, terá que propor um tema para aqueles dois anos. Isso é uma alavancagem. O Brasil vai poder pautar a temática que vai ser reforçada naquele biênio.

Então também é uma das vantagens, vamos dizer assim, de você assumir a presidência. Mas há de se ressaltar que a CPLP tem reuniões de educação, cultura, saúde e meio ambiente, por exemplo, e, quando o país está na presidência, essas reuniões setoriais são feitas no país que está presidindo. Isso exige um certo esforço diplomático.

Acha que Lula tem interesse?

Eu tive a felicidade de trabalhar no gabinete dele de 2007 a 2010. Lula é uma pessoa com uma sensibilidade muito especial, sobretudo para essas reuniões políticas.

O Brasil é o maior contribuinte da CPLP. Nossa contribuição é na faixa de quase 800 mil euros anualmente, e vai aumentar. Claro que isso nos dá uma força, mas nos dá uma responsabilidade também. O presidente é uma pessoa com muita sensibilidade política para perceber isso.

Embaixador Juliano Féres Nascimento fala sobre a importância da cooperação entre os países lusófonos. Crédito: Déborah Lima.

Qual é a importância do Brasil fazer parte da CPLP?

A sua pergunta é quase filosófica. O Brasil ganha um processo onde o interesse dele é ouvido. A visão do Brasil é compartilhada com os demais, as nossas preocupações, as nossas ambições, a nossa vontade de ver alguns temas resolvidos, e ao mesmo tempo você aposta numa confluência de interesses que evita o confronto, que evita a solução de força.

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No caso da CPLP ainda tem uma componente adicional que é quase que uma componente afetiva. Porque você tem uma conjugação de história, de cultura e da língua, obviamente, que produz um certo sentimento comum, um certo afeto na relação entre esses países.

Havia esse diálogo no governo Bolsonaro?

Olha, vou te dizer: a questão no período do Bolsonaro, eu acho que houve uma limitação muito grande por causa de um alinhamento muito direto com o governo americano, com o [Donald] Trump. Eu acho que a visão foi curta.

Você se alinhar com os Estados Unidos para algumas políticas ou para alguns interesses que podem ser alinhados com os interesses brasileiros, ótimo, não tem por que não. Com os Estados Unidos, com a França, com a China — perfeito, desde que esteja alinhado com o meu interesse brasileiro.

Agora, você seguir uma cartilha da maior potência do mundo em determinados temas, sobretudo no multilateral — que é, por excelência, o nosso espaço, onde a nossa voz tem mais peso, mais contundência, onde outros países param para ouvir o Brasil —, é abrir mão de um capital político muito grande.

Então, foi uma visão curta, nesse sentido, mesquinha, de não perceber que ali era onde a gente tinha a força de congregar, de gerar consenso, de falar: “Não, em vez de brigar por isso aqui, vamos tentar dar soluções que…”.

E o Brasil sempre foi habilidoso nesse sentido. A diplomacia brasileira sempre soube construir essas pontes. Então, ter uma posição muito rígida — sobretudo muito rígida e alinhada com a maior potência — faz com que você perca espaço.

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E o Brasil tem um bom histórico de diplomacia com outros países.

Sim, de construção de diálogo, de construção de consenso, de superação de conflito, de confronto. Aí a gente vai fazer uma aposta que a gente vai enfrentar, que a gente vai bater de frente. Para quê? O que a gente vai ganhar com isso? A gente não é Estados Unidos.

Ano que vem o Brasil tem outra eleição. Em 2027, pode ser que mude a presidência. O senhor teme que isso afete a CPLP novamente?

Com certeza. Cada governo dá o tom de como ele aborda. Obviamente, logo na largada, o presidente Lula falou que a CPLP, a África, são prioridades. Lógico, a visão dele com a sensibilidade política, com a percepção. Rapidamente o presidente botou a gente no trilho de novo de aproximação com esses países.

Se vier outro governo com posição contrária, eu não vou negar. Eu sou funcionário do governo que o povo elegeu. Como diz um ex-chefe meu: “o governo é meu patrão, mas o dono da fábrica é o povo”, é o povo que coloca aquele gerente ali para tocar.

Quando o povo elege um governo x, y ou z, é esse governo que vai dar a orientação de como é que a gente vai avançar os interesses brasileiros no exterior. Qualquer decisão do governo será cumprida. Só resta respeitar.

Se for dizer um maior desafio hoje enfrentado pela CPLP, o que seria?

A CPLP tem a virtude de ser uma organização que pode dar exemplo de diálogo, de consenso, de boas práticas de cooperação que dão certo e que são bem acolhidas e que resultam em benefícios óbvios, claros e palpáveis para aquela população.

O desafio é que, se você perguntar, 9 de 10 pessoas não sabem o que é a CPLP. Então esse desafio da visibilidade eu acho que é muito importante.

Seria uma dificuldade de comunicação?

Sim. Melhorar a visibilidade, melhorar essa forma de comunicar com o público. De chegar ao público, exatamente, de chegar ao público o que realmente a CPLP faz, o que ela pode fazer e como ela pode melhorar as condições de vida das populações dos países que são da CPLP.

Deborah Lima

Lisboa

Jornalista formada pelo Centro Universitário de Belo Horizonte e mestre em Jornalismo pela Universidade Nova de Lisboa. Atuou no jornal Estado de Minas, na Rede 98 e colaborou com a Folha de S.Paulo. Em Portugal, foi repórter da revista Brasil Já. Atualmente, é repórter e coordena as redes sociais da EntreRios.

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