Saúde mental

O culto ao corpo

Excesso de botox no rosto, lipoaspiração na barriga, implantes de silicone em várias partes do corpo… O culto à imagem virou um desafio para todos os técnicos de saúde mental

A busca incessante da perfeição tem nos roubado a oportunidade e o prazer de sermos autênticos. Crédito: Pixabay Yamu_Jay

Se levarmos em conta a fórmula do psicólogo Albert Mehrabian, segundo a qual apenas 7% da comunicação é transmitida por palavras, 38% pelo tom de voz e 55% pela linguagem corporal, alterar significativamente a imagem prejudica muito a análise das emoções e reais sentimentos.

Através dos nossos rostos e expressões, os terapeutas obtêm informações valiosas. Porém, isso deixa de ser possível se não conseguimos rir ou franzir a testa devido ao excesso de toxina botulínica que paralisa os músculos.

E se nos preocupamos tanto com a nossa imagem, vale a pena refletir sobre quem somos por detrás do espelho. O que esconde essa aparente perfeição? Freud responderia que “todo o excesso esconde uma falta”.

O chamado “pai da psicanálise” e seus discípulos, como o renomado psicanalista Wilhelm Reich, autor do livro “Análise do Caráter”, defendiam que o corpo é um tradutor de emoções, vivências, experiências e traumas.

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Esta teoria deu origem a uma terapia denominada Análise Bioenergética, onde se utiliza a observação física do paciente e da sua estrutura corporal como indicador dos seus principais traços de caráter.

Reich defendia que a personalidade se revela em todas as manifestações do corpo – através da postura, gestos, tônus muscular, domínio do espaço e expressões faciais. É o que chamamos comunicação não verbal, aquilo que o outro nos mostra sem precisar falar.

Por vezes, o desejo de se sentir atraente é uma forma de compensar o vazio emocional, a falta de autoestima e a necessidade de ser aceito pela sociedade atual cada vez mais crítica e exigente com a aparência. O problema é que, mesmo depois de inúmeras intervenções, muitas pessoas continuam a sentir-se diminuídas, tristes, estressadas e ansiosas porque a nossa autoestima não depende apenas da aparência física.

Depende, sim, da saúde emocional, das relações de qualidade e das vivências que nos preenchem a alma. Até porque, se a autoestima estivesse ligada à aparência, as pessoas mais bonitas não seriam inseguras – e não é essa a realidade que as estatísticas mostram.

A busca incessante da perfeição tem nos roubado a oportunidade e o prazer de sermos autênticos. É hora de aceitar o que nos torna únicos. Um sorriso sincero, mesmo com linhas de expressão, é muito mais bonito que um meio sorriso de ‘plástico’.

E, se com tanto retoque fica difícil observar as emoções dos nossos pacientes, os médicos também têm um trabalho cada vez mais inglório de salvar ou recuperar pessoas que põe em risco a própria vida em função da imagem.

A nova moda do turismo de saúde em países como a Turquia, onde as cirurgias estéticas proliferam a preços reduzidos, tem trazido alguns dissabores. Entre as ofertas de cirurgias, algumas realmente podem ser muito perigosas e invasivas – como a de alongamento de pernas, feita especialmente por homens que pretendem ficar mais altos.

Cabe a reflexão: será que vale a pena se pôr em risco em função da beleza? Leonardo Da Vinci diria que não, afinal, para ele, “a simplicidade é o último grau de sofisticação”.

Esta coluna é parte da primeira edição da revista EntreRios, distribuída nas principais bancas de Portugal. Você também pode assinar e receber a publicação no conforto da sua casa, além de ler a publicação completa.

Lisboa

Licenciou-se em Relações Internacionais na Universidade Técnica de Lisboa e fez mestrado em Jornalismo Internacional na Puc – São Paulo, entre outras formações.
Iniciou a sua carreira na TV SIC Notícias e foi correspondente Internacional da TVI no Brasil e outros países da América Latina.
Trabalhou na TV Globo Portugal no magazine cultural “Cá Estamos” e desenvolveu projectos dedicados ao canal em Portugal. É ainda autora de três livros.

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