Ondas de calor, incêndios e mortes expõem crise climática em Portugal
Calor extremo em Portugal causa mortes, incêndios florestais e prejuízos econômicos, pressionando saúde, segurança e produtividade
Portugal tem enfrentado ondas intermitentes de calor extremo, com temperaturas acima de 40° C. Pelo menos 264 pessoas morreram devido às altas temperaturas entre os dias 25 e 30 de julho, segundo a Direção-Geral de Saúde (DGS). Os incêndios florestais têm afetado diversas áreas no Centro e no Norte, como Guarda, Coimbra, Castelo Branco, Viseu e Vila Real. Efetivos militares, bombeiros e forças de segurança tentam controlar as queimadas, que já consumiram milhares de quilômetros de floresta.
Em números exatos, foram 75.182 hectares torrados em 6.063 incêndios até 14 de agosto, de acordo com o Instituto Nacional de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). A expectativa é que o fenômeno se estenda até o fim de setembro. O governo decretou estado de emergência no país, proibindo fogos de artifício e acesso aos espaços florestais, além de reforçar a fiscalização e o apoio às áreas de risco.
As consequências na economia são duradouras. Um estudo de 2025 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima em 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB) as perdas com queimadas e outros eventos climáticos extremos. Um relatório do Banco Mundial diz que os incêndios florestais custaram 337 milhões de euros a Portugal em 2023.
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A ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, defende a aprovação do Plano de Intervenção Floresta 2050, intitulado Futuro Mais Verde. Trata-se de um conjunto de ações voltadas à gestão da propriedade florestal, ao combate a incêndios e à promoção de boas práticas, ao custo de cerca de 6,5 bilhões de euros nos próximos 25 anos. “Inclui medidas para reforçar a prevenção, valorizar a economia da floresta, clarificar a propriedade e melhorar o modelo de governança do setor”, declara.
Os danos econômicos também são reais na vida dos cidadãos e das empresas. Nuno Torres, do Gabinete de Estudos Econômicos, Empresariais e de Políticas Públicas da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, destaca os gastos com equipamentos de combate às queimadas e planos governamentais de resiliência, perdas de recursos naturais, matéria-prima vegetal, animal e outros insumos da agricultura.
O ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, afirmou que o governo vai ressarcir rapidamente possíveis prejuízos de até 10 mil euros para pequenos agricultores, empresas e famílias atingidas, mas não fornece detalhes sobre como isso será feito.
Segundo o Relatório do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR), da Agência de Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), apresentado em 2025, o prejuízo foi de 67 milhões de euros em 2024 só em florestas: madeira, resina, frutos e biomassa. Houve a emissão de 0,69 megatoneladas de equivalente a dióxido de carbono, o registro mais elevado desde 2017. O governo investiu em prevenção e combate às queimadas 638 milhões de euros, o maior valor desde 2018.
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Os prejuízos desta temporada só serão totalmente contabilizados no futuro. Torres destaca que as altas temperaturas tendem a pressionar o sistema de saúde, sobrecarregar o sistema elétrico e diminuir a produtividade das empresas e dos trabalhadores, sobretudo em ambientes externos. “Portugal tem um problema de pobreza energética dos edifícios, que não estão preparados para lidar com temperaturas muito altas ou muito baixas”, diz.
Um relatório da OCDE publicado em 2024 indica que dez dias extras acima de 35°C durante um ano reduzem em 0,3% a produtividade anual das empresas. Se a temperatura for superior a 40°C, o impactona produtividade pode ser de 1,5%. Mas há também prejuízos intangíveis.
O gestor de qualidade Bruno Nogueira, de 36 anos, passou por uma situação traumática no verão do ano passado. Ele vivia com a esposa e a filha na aldeia do Cabouco, em Coimbra, e viram da janela o incêndio na aldeia vizinha, Carvalhosas, avançando rapidamente.
“Foi a primeira vez que passei por isso. Fiquei preocupado que o fogo viesse na direção da minha casa, pois se alastrou muito rápido. Aconteceu em questão de segundos”, relata à EntreRios.
Um vizinho instruiu-o a molhar o terreno ao redor da casa, os acessos à aldeia foram fechados, a energia cortada e os moradores se juntaram para apagar os focos. Nogueira conta que o rastro de destruição perdura um ano depois, assim como o trauma.
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Domingos Xavier, professor emérito da Universidade de Coimbra e diretor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da mesma instituição, explica que o fenômeno é antigo em Portugal, mas as ondas de calor estão cada
vez mais frequentes e prolongadas. “E os grandes incêndios tendem a ser maiores por causa das alterações climáticas”, afirma.
Parte das queimadas é provocada pela ação humana, o que é especialmente complicado em períodos de onda de calor e baixa precipitação. Pelo menos 70 suspeitos de atear fogo nas florestas foram detidos este ano pela Polícia Judiciária e pela Guarda Nacional Republicana (GNR).
Saúde: os problemas desencadeados por temperaturas extremas
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o calor extremo tem efeitos nefastos, com enfermidades e mortes. O fenômeno climático é responsável por mais de 175 mil mortes por ano na Europa. A OMS aponta que, se a temperatura média global ultrapassar em 2°C a do período pré-industrial, o número de óbitos poderá aumentar em mais 100 mil anuais apenas na União Europeia.
A médica e meteorologista Micheline Coelho, pesquisadora e colaboradora dos Laboratórios de Patologia Ambiental e Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e da Climate Air Quality Research Unit da Monash University (Austrália), explica que temperaturas extremas podem desencadear uma série de problemas, especialmente em idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.
“O calor excessivo desequilibra a homeostase do organismo, podendo causar desde reações simples, como suor e tontura, até complicações graves que podem evoluir para a morte”, disse à EntreRios.
A especialista afirma que um dos principais mecanismos de adaptação ao calor é a dilatação dos vasos sanguíneos. “Isso pode causar variações na pressão arterial e aumentar o risco de eventos cardiovasculares, como isquemia, disritmias cardíacas e acidente vascular cerebral”, diz. “A respiração acelerada para dissipar o calor, combinada com ar seco, também pode prejudicar as vias respiratórias, agravando quadros de asma e doenças pulmonares obstrutivas crônicas. Além disso, a desidratação pode afetar ainda mais pacientes com problemas renais.”
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Boas práticas para enfrentar o calor
- Beber água
- Evitar o consumo de bebidas alcoólicas
- Permanecer em ambientes frescos ou climatizados por pelo menos 2 a 3 horas por dia
- Evitar a exposição direta ao sol entre 11h e 17h
- Usar protetor solar com fator de proteção igual ou superior a 30
- Dar atenção especial a grupos mais vulneráveis ao calor, como crianças, idosos, portadores de doenças crônicas, grávidas e trabalhadores em ambientes externos
- Usar roupas leves e de cor clara
- Optar por refeições leves
Essa reprotagem foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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