Natal

Peru ou bacalhau? Conheça as diferenças entre as ceias de Natal no Brasil e em Portugal

Tradições, sabores e simbolismos revelam dois modos distintos de celebrar a mesma festa

Mesa de Natal: tradições variam entre Brasil e Portugal. Crédito: JillWellington para Pixabay

A ceia de Natal, tanto em Portugal quanto no Brasil, é mais do que um jantar: é um rito carregado de memória, identidade e símbolos que atravessam séculos.

Em Portugal, preservam-se o peso da tradição católica, a organização herdada de séculos e uma mesa fiel com elementos como bacalhau, polvo e doces conventuais, variando de acordo com a região.

Já no Brasil, a mesma celebração se expandiu, multiplicou-se e ganhou novas camadas culturais, refletindo a miscigenação do país, seu clima tropical e uma história marcada por encontros — e também conflitos — entre indígenas, africanos e europeus.

O resultado são duas ceias distintas, originadas da mesma matriz religiosa, mas hoje representantes de identidades quase opostas: uma mais contida, ritualística e linear; outra mais exuberante, plural e construída coletivamente.

É o que demonstram as análises da professora e pesquisadora de patrimônio e cultura da alimentação, Marianna de Alencar e Souza Ibrahim, e do especialista português em história da alimentação, Virgílio Nogueiro Gomes, duas autoridades que ajudam a compreender como a gastronomia revela a alma de cada país na noite de 24 de dezembro.

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A origem desse contraste antecede o próprio Cristianismo. A pesquisadora explica que, antes do nascimento de Jesus, os romanos já celebravam o solstício de inverno com grandes banquetes, portas abertas e partilha de alimentos. Os cristãos apenas ressignificaram esse ritual — por volta do século III d.C. — transformando-o na comemoração do nascimento de Cristo.

Rabanada da Taberna Ti João, em Boticas: tradição na ceia de Natal portuguesa foi incorporada pelos brasileiros. Crédito: Fernanda Baldioti.

Portugal: o ritual do peixe, a mesa dos doces e a força da tradição

Gomes afirma que a ceia portuguesa ainda conserva a estrutura clássica de uma refeição ritualizada, marcada pela austeridade religiosa e pela herança da conservação de alimentos.

Segundo ele, tradicionalmente, “a ceia de 24 de dezembro era obrigatoriamente uma refeição farta de peixe”, sobretudo bacalhau e polvo, pela facilidade de armazenamento em tempos de pesca artesanal.

O tradicional “bacalhau cozido com todos” tornou-se quase um símbolo nacional, embora cada região utilize ingredientes próprios, conforme suas produções locais. O polvo, também cozido ou servido em arroz, é um legado galego bastante presente no Norte.

As diferenças regionais, ressalta o especialista, são tão antigas quanto a ocupação do território. No Norte, onde a religiosidade católica permaneceu mais rígida, conservaram-se tradições vinculadas ao peixe e aos produtos do mar.

À medida que se avança para o Sul — regiões que tiveram maior presença muçulmana —, “as tradições vão se misturando”, explica. Nessas localidades, as carnes, especialmente o borrego (cordeiro), aparecem com mais frequência à mesa natalina, formando uma paisagem gastronômica marcada por heranças culturais muito antigas.

Ceia de Natal de uma família portuguesa em Carcavelos: bacalhau com todos e vinho tinto no menu. Crédito: Arquivo pessoal/Luís Reis.

Se há um ponto comum em todo o país, é a importância dos doces. Gomes lembra que “os portugueses nasceram com vontade de açúcares”, mencionando a presença de comerciantes de açúcar e canela já no período de D. Afonso Henriques.

Rabanadas, filhós, azevias e outras iguarias de origem conventual foram adaptadas ao longo dos séculos — especialmente quanto ao tipo de farinha e ao modo de preparo —, mas preservam sua identidade.

“No Norte, é fácil encontrar casas onde, de 8 de dezembro a 6 de janeiro, há uma mesa especial de doces”, afirma.

Até o bolo-rei, surgido apenas no século XIX, ganhou variações como o “bolo-rainha” e o “bolo-rei escangalhado”.

Gomes reconhece, contudo, que o ritmo moderno vem alterando esses hábitos:

“A família já não tem muito tempo para essas preparações. As tradições vão desaparecendo, apesar de ser impossível desaparecerem completamente”.

O aumento das ceias servidas em hotéis e restaurantes é, segundo ele, um indicativo de como os costumes se ajustam à vida contemporânea.

Brasil: uma mesa plural, tropical e forjada pela miscigenação

Enquanto Portugal preserva uma ceia mais hermética, o Brasil rapidamente se distanciou desse modelo. Quando o Natal chega ao país, pelas mãos dos portugueses, traz consigo forte simbolismo religioso.

Mas nos primeiros séculos, os portugueses não conseguiam reproduzir no Brasil os ingredientes europeus, e precisavam adaptar-se. Surgiu então o que a pesquisadora chama de “cozinha de ocasião”, na qual indígenas, africanos e, posteriormente, comunidades quilombolas forneceram ingredientes, técnicas e sabores que se somaram aos hábitos europeus.

Dessa fusão nasceram pilares da culinária brasileira, como o uso da mandioca — o “pão da terra” —, do milho, do feijão, da farofa e de diversos temperos de matriz africana.

Com o surgimento de vilas e cidades mais estruturadas, as influências ibéricas começam a se reorganizar, especialmente na presença da carne de porco — elemento europeu que o brasileiro adota com força, sobretudo em regiões rurais como Minas Gerais.

Outros ingredientes introduzidos pelos europeus, como gordura, banha e manteiga, também se incorporam ao cardápio. Marianna afirma que isso origina “uma espécie de miscigenação culinária”: hábitos europeus misturam-se a africanos e indígenas, gerando pratos híbridos, como a farofa, símbolo perfeito dessa fusão cultural.

A partir do século XX, outro vetor transforma a mesa brasileira: as influências norte-americanas. O peru, ave nativa da América, mas reimportada ao Brasil pela via estadunidense, torna-se símbolo do Natal moderno. Para a pesquisadora, isso não é aleatório: “É uma carne que alimenta um número maior de pessoas”, reforçando o caráter comunitário da ceia.

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Tender, chester e outras variações consolidam-se como parte do cardápio natalino — acompanhados de combinações herdadas da culinária renascentista italiana, como o clássico porco com abacaxi, criado para equilibrar gordura e acidez.

Já o bacalhau, inicialmente caro e inacessível no país, permanece em algumas mesas, porém sem a centralidade observada na ceia portuguesa.

Ceia de Natal de uma família brasileira no Rio de Janeiro: peru, farofa, arroz, salada de folhas e salada tropical compõem o menu. Crédito: Arquivo pessoal / Fernanda Baldioti.

Se a base histórica ajuda a explicar parte das diferenças, o clima completa o contraste entre as duas tradições. Enquanto a o Natal português ocorre no inverno, com pratos densos e quentes, a ceia brasileira acontece no auge do verão.

Isso inviabiliza, como afirma Marianna, “a manutenção de um rito europeu que simplesmente não combina com o calor tropical”. Em vez de frutas secas, predominam frutas frescas, como melancia, morango e manga; em vez de pratos pesados, saladas e preparações leves; no lugar de uma mesa previsível, uma explosão de cores e sabores.

É nesse ajuste climático que a ceia brasileira encontra sua assinatura: frescor, variedade e abundância.

Outro elemento central, conforme a pesquisadora, é a comunalidade. A ceia brasileira, ao contrário da portuguesa, raramente é preparada por uma única pessoa. Ela é construída coletivamente, em famílias que se reúnem para partilhar — prática que ecoa tanto os banquetes romanos quanto as tradições comunitárias indígenas e africanas.

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Cada convidado leva um prato; cada casa adiciona sua referência cultural. Essa dinâmica, além de refletir a formação histórica do país, cria uma mesa múltipla e profundamente afetiva. Por isso, como lembra Marianna, existem pratos que “só aparecem no Natal”, alimentos com significado simbólico que reforçam a identidade brasileira, tão heterogênea.

O brasileiro espera pela noite do dia 24 para comer aquela farofa específica, aquele arroz especial, aquela salada que só existe na ceia.

“A comida é uma ferramenta diplomática maravilhosa. Se conseguirmos olhá-la como fonte de saber, de conhecimento, superaremos muitas adversidades. Comida é ponte, não cerca”, conclui Mariana.

Fernanda Baldioti

Jornalista com mestrado em Comunicação Social pela Uerj e mais de 15 anos de experiência em redação e edição de reportagens. Já atuou no jornal “O Globo”, é sócia do #Colabora – Jornalismo Sustentável e repórter da edição brasileira do portal Fashion Network. Na EntreRios, é repórter com foco em comportamento e lifestyle.

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