Pois, se calhar, sempre vou à bola hoje
Diferenças do português do Brasil e de Portugal rendem confusões, humor e adaptação cultural
“Sempre vai à bola hoje?”, pergunta o seu amigo lisboeta, e você fica ali parado, sem resposta — afinal, nunca pisou num estádio deste lado do oceano, quanto mais ir lá “sempre”. Pior: o teu novo best tuga sabe bem disso e foi justamente esse o motivo de te convidar a ir ver o Benfica na Luz ou o Sporting em Alvalade. E, se é assim, por que agora vem com essa treta?
Calma, meu leitor, minha leitora, não se desespere: é apenas mais uma armadilha do português lisboeta. O “sempre” em questão necessariamente não tem a ver com fazer algo com frequência; assume uma função enfática, como um “vai mesmo?”, “tá de pé?” ou ainda “firmeza?” para a ida ao jogo. A língua é a mesma, mas às vezes exige uma tecla sap mental para a tradução simultânea durante uma prosaica conversa.
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Outro exemplo disso é o trato pessoal. Na dúvida entre o “tu”, que por aqui é mais íntimo, e o “você”, usado com mais distância e hierarquia, o lisboeta, por via das dúvidas, vai te chamar pelo nome, como se se referisse a outra pessoa. Exemplo: o português olha nos seus olhos e pergunta: “O Álvaro vai bem?”. Até me acostumar, pensava que estava atrás de notícias de um xará amigo em comum, e ficava longos segundos em silêncio, num resgate mental no velho HD, em busca do paradeiro do tal Álvaro até perceber que ele era eu.
Esquizofrenias linguísticas à parte, com o tempo o brasileiro vai começando a ver vantagens em algumas dessas armadilhas e as incluir em seu repertório. O “pois”, por exemplo, é ótimo: é como chá de boldo, serve para tudo, inclusive para evitar se estender numa conversa.
É mais ou menos assim: alguém começa a contar uma história infinita sobre algo que aconteceu naquele dia e, no fim, você não tem muita coisa a acrescentar nem discordar. Daí, vai lá na manga da camisa, saca um lacônico “pois” e, abracadabra!, o assunto está tratado. No WhatsApp, então, é uma mão na roda.
Outra maravilha do calão lisboeta é o “se calhar”, esse mais misterioso, cheio de segredos, afinal esconde os motivos para alguma coisa acontecer ou não. Voltamos lá na pergunta inicial, a do “sempre vai à bola hoje?” e então você, sem muita paciência ou tempo para detalhar o zilhão de coisas que ainda tem de fazer até a hora do jogo, apenas responde: “Se calhar, vou”. Olha só que beleza o minimalismo. Diga lá: se a vida fosse simples como um “pois” ou um “se calhar”, certamente tudo seria mais fácil e pacífico.
Agora, com licença, o papo está bom, pois, mas hoje tem futebol e, se calhar, está na hora de sempre ir à bola.
Essa crônica foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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