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Por que Lisboa virou o novo centro de poder da elite brasileira

Elite brasileira concentra investimentos bilionários, influência política e projetos estratégicos em Lisboa e transforma Portugal em base de poder

Foto de bastidor entre Alexandre de Moraes e Ciro Nogueira expõe contrastes e distensões no Fórum Jurídico de Lisboa. Crédito: Renato Velasco.

Em um movimento inverso ao que fez a corte portuguesa em 1808, quando desembarcou no Brasil para fugir do cerco de Napoleão Bonaparte, a elite brasileira tem, nos últimos anos, cruzado o Atlântico em direção a Lisboa. Na bagagem, uma riqueza ainda maior do que a levada pela família real para fazer do Rio de Janeiro a capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve.

Líderes políticos, acadêmicos, artistas, celebridades, bilionários e ministros da corte — não da realeza, mas do Supremo Tribunal Federal — têm cravado estacas na terra de Camões por meio de muitos investimentos, projetos, parcerias e eventos de impacto político.

Ao contrário das turbulências napoleônicas do início dos anos 1800, Portugal do século 21 oferece segurança pública e estabilidade política e econômica, além de proximidade cultural com os brasileiros, mesmo idioma, laços jurídicos e acadêmicos.

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“É um mercado importante, a porta de entrada para a Europa”, define Jorge Viana, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (ApexBrasil). O país tem pouco mais de 10 milhões de habitantes, menos do que a cidade de São Paulo, mas é um dos 27 membros da União Europeia, bloco com um mercado consumidor de mais de 450 milhões de pessoas.

A história das duas nações é recheada de fluxos migratórios para um lado ou outro do Atlântico. Nas primeiras décadas deste século, brasileiros abastados passaram a buscar refúgio ou perspectivas em terras lusas, que já são a casa de mais de 510 mil brasileiros, segundo o censo de 2023 do Itamaraty.

A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira (CCILB) estima que, desses, cerca de 50 mil são empresários ou líderes empresariais. Cerca de 1,2 mil brasileiros já obtiveram o visto gold, programa de concessão de residência a partir de investimentos milionários.

Muitos deles vivem entre os dois países ou usam Portugal como plataforma de internacionalização dos seus negócios em áreas como restaurantes, tecnologia, empreendimentos imobiliários e vinícolas, entre outras.

Segundo a ApexBrasil, os investimentos brasileiros diretos em Portugal foram de 4,5 bilhões de euros em 2023. O montante agregado desse valor no exterior cresceu mais de 4% ao ano no decênio. Entre 2015 e 2024, empresas verde-amarelas anunciaram mais de 320 milhões de euros no país.

As principais foram a consultoria de tecnologia Numen, a de logística de e-commerce Loggi e a fabricante de motores elétricos WEG. A Embraer promete investir 3 bilhões de euros até 2030.

Muitos brasileiros transformaram a paixão pelo prestigiado vinho português em negócios, sobretudo na região do Douro, ao Norte.

O bilionário André Esteves, chairman do BTG Pactual e um dos homens mais ricos do Brasil, é sócio da Quinta da Romaneira. João Carlos Paes Mendonça, presidente do Grupo JCPM, é proprietário da Quinta Maria Izabel. E Rubens Menin, dono da construtora MRV Engenharia e do canal CNN Brasil, investiu na Quinta da Costa de Cima, na Quinta do Sol e na Horta Osório Wines. A estimativa de aporte dos três é da ordem de € 100 milhões.

Gilmar Mendes e o empresário André Esteves. Crédito: Renato Velasco.

Nem só de vinho vive o discreto André Esteves em Portugal. O BTG Pactual é o maior banco de investimentos da América Latina e talvez seja o maior símbolo do poder econômico brasileiro na Europa. A empresa observou a mudança de famílias abastadas para Portugal como oportunidade. Em 2020, abriu um escritório em Lisboa com foco na gestão de fortunas.

Desde então, tem diversificado as cestas para investir, sobretudo, em empreendimentos imobiliários, como o Shopping Tavira Gran Plaza, no Algarve, o Estoril Eden Hotel, em Cascais, e o hotel The Oitavos (futuro hotel Fasano), também em Cascais, em um total de 320 milhões de euros. O valor da mais recente aquisição do grupo, o TorreShopping, em Santarém, está sob sigilo.

A ApexBrasil inaugurou em julho seu escritório na Casa Brasil, em Lisboa. O espaço servirá de base para fortalecer o país na promoção de exportações e na atração de mercados.

“Há muitas empresas querendo se internacionalizar e fazer de Portugal uma plataforma para os seus negócios”, afirmou Viana à EntreRios.

Nos últimos anos, Portugal também se tornou um hub tecnológico. Em passagem por Lisboa, o CEO do iFood, Diego Barreto, falou sobre as conexões da empresa.

“O que a gente tem é um intercâmbio muito grande de startups e de pessoas. Inclusive, temos cerca de 150 pessoas contratadas aqui, que moram e trabalham aqui para o iFood no Brasil. Temos um grande apreço por uma mão de obra muito qualificada existente em Portugal”, afirmou.

O iFood é uma das maiores plataformas de entrega de refeição da América Latina. O grupo holandês de tecnologia Prosus, que controla a empresa brasileira, é também o acionista majoritário da Glovo, plataforma de entrega sob demanda que atua em Portugal.

O poder no Fórum de Lisboa

Se fosse possível reunir alguns dos protagonistas dessa travessia do Atlântico para uma fotografia, o melhor lugar seria a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. É que em seus auditórios e corredores ocorre anualmente o prestigiadíssimo Fórum de Lisboa.

O evento é organizado pelo ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal do Brasil, e se tornou símbolo da presença da elite brasileira em Portugal. O fórum junta grupos fortes da economia com os poderes político e jurídico do Brasil. As cúpulas do Legislativo, do Executivo e do Judiciário se encontram em palcos e corredores da faculdade por três dias.

A edição deste ano, em julho, atraiu cinco ministros do STF, incluindo Gilmar e o presidente da corte, Luís Roberto Barroso, três ministros de Estado e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Hugo Motta, entre incontáveis parlamentares, juízes, pensadores e gestores públicos. Foram 500 palestrantes e 2,8 mil inscritos.

Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, local do Fórum de Lisboa. Crédito: Renato Velasco.

O congraçamento ocorreu em meio à escalada de tensão entre governo e Congresso por causa da disputa em torno de elevar ou não o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que acabara de chegar ao STF.

Parte dos envolvidos articulou nos bastidores do Fórum, a 7.300 quilômetros de distância, uma solução para o impasse. O ministro Alexandre de Moraes, relator da ação no Supremo, acabaria, posteriormente, dando ganho de causa ao governo.

“Portugal é um país que tem muito a nos ajudar nesse processo de construção de ideias e de iniciativas”, afirma Jader Barbalho Filho, ministro das Cidades.

Um estudo da FGV apontou um impacto de 15 milhões de euros do evento na economia portuguesa. O empresário Flávio Rocha, presidente do Grupo Guararapes, recebeu autoridades em seu apartamento de cobertura no edifício icônico que pertenceu ao Diário de Notícias, na avenida da Liberdade.

Ministros, políticos e empresários lotaram jantares em restaurantes como o premiado Suba, o moderno JNcQuoi, o clássico Solar dos Presuntos e o artístico Cícero Bistrot. O BTG Pactual reuniu autoridades no SUD Lisboa, regado a champagne Bollinger e vinho da Quinta da Romaneira, de Esteves.

Autoridades também se reuniram no brasileiro Zazah, onde esgotaram algumas garrafas da safra de 2008 do emblemático Barca Velha, assinado por um dos enólogos mais respeitados de Portugal, Luis Sottomayor. No restaurante, cada garrafa sai por 950 euros. O champagne Taittinger também foi servido.

Embora não more em Portugal, Gilmar Mendes é uma presença frequente em Lisboa, onde tem, como muitos brasileiros, um apartamento no Príncipe Real, zona de classe alta.

“Eu não tenho nacionalidade portuguesa, mas me sinto também português. Sou muito bem acolhido aqui. Há, também, a comunidade brasileira que trabalha, que empreende, que ajuda a desenvolver Portugal”, diz.

Arte e alta gastronomia

O poder brasileiro em Portugal é sentido para além da presença de políticos, juristas e empresários. A cultura ainda é o cartão de visita. O economista Paulo Dalla Nora Macedo apostou na alta gastronomia inspirada na arte brasileira.

O resultado foi o Cícero Bistrot, com o menu assinado pela chef Alessandra Montagne e uma galeria de arte com obras do modernista pernambucano Cícero Dias (1907–2003), em Lisboa. “A gastronomia e a arte são os grandes soft power do Brasil”, disse Macedo à EntreRios.

“Lisboa é uma passarela. Passa por aqui gente do mundo todo. Portugal recebe mais de 30 milhões de turistas, e Lisboa, cerca de 10 milhões. Mais do que o Brasil inteiro. Então é uma oportunidade de apresentar a arte brasileira e a gastronomia brasileira para o mundo. Porque uma parte dessas pessoas que vêm aqui nunca vai ao Brasil”, explica Macedo.

O Cícero recebeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em novembro de 2022, um mês depois de ele ser eleito para o terceiro mandato. Recentemente, recebeu o ministro Luís Roberto Barroso, do STF.

Um centro cultural fundado por brasileiros é a Fundação Albuquerque, em Sintra, criada pelo engenheiro Renato de Albuquerque, do empreendimento imobiliário paulista Alphaville, e por sua neta Mariana Teixeira de Carvalho, em uma quinta que pertencia à família desde os anos 1980. O local abriga uma das maiores coleções privadas de cerâmica chinesa do mundo, com peças das dinastias Qing e Ming.

“A história das navegações, das explorações, do comércio e das trocas internacionais e multiculturais tiveram em Portugal um ponto articulador e propulsor. Ou seja, a história que esta coleção conta está totalmente conectada à história de Portugal”, diz Mônica Esmanhotto, chefe de relações institucionais da fundação.

Frases do poder

Eduardo Sarón, presidente da Fundação Itaú. Crédito: Renato Velasco.

“Pensamos do ponto de vista ibero-americano: toda a América Latina, Portugal e, obviamente, Espanha. É importante que a gente entenda esse cosmos de cerca de 20 países e que, cada vez mais, trocar inteligência, experiências e possibilidades possa fortalecer ainda mais essa coalizão chamada mundo ibero-americano”.

(Eduardo Sarón, presidente da Fundação Itaú)

“Portugal é a porta de entrada para a Europa. Sou muito otimista, temos escritório em Bruxelas e em Lisboa, uma forma de promover o que o Brasil tem de bom na Europa e no mundo. A Apex trabalha com atração de investimento, e há muitas empresas querendo se internacionalizar e fazer de Portugal uma plataforma para os seus negócios”.

(Jorge Viana, presidente da Apex)

“Um grupo do Ministério da Justiça veio entender como a polícia está lidando com o crime organizado, e, de nosso lado, já há o diagnóstico de como nasce e cresce o crime organizado. Uma troca de experiência muito rica que nos permite atuar de forma integrada”.

(Mário Sarrubbo, secretário nacional de Segurança Pública)

Rodrigo Nogueira, CEO da Maritaca AI. Crédito: Renato Velasco.

“Já temos vários clientes, empresas portuguesas, que estão usando os nossos modelos, e expandir o foco, fazer um marketing direto para Portugal, com certeza está nos nossos planos. Esse modelo (de linguagem) pelo menos, de acordo com nossos clientes, já se mostrou útil para os usuários portugueses”.

(Rodrigo Nogueira, CEO da Maritaca AI)

“Temos muitos investidores que chegaram para fazer investimentos privados. Mas o que eu friso é sobre a possibilidade de a pessoa ser um investidor pequeno e exportar para Portugal, nosso objetivo. Porque Portugal é a entrada da Europa, a chegada aos 450 milhões de europeus”.

Márcio França, ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte. Crédito: Renato Velasco.

(Márcio França, ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte)

Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro. Crédito: Renato Velasco.

“Nas áreas jurídicas, de óleo e gás e de turismo, temos avançado muito na parceria. Há um intercâmbio entre comitivas de Portugal e Brasil constante, tem sido uma troca bem interessante”.

(Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro)

Jader Filho, ministro das Cidades. Crédito: Dondinho/Governo do Pará.

“Portugal tem muito a nos ajudar nesse processo de construção de ideias e de iniciativas. O trabalho que estamos fazendo com a Universidade de Lisboa é rico em experiências sob o aspecto da área jurídica, dos contratos, de mais segurança jurídica. Porque se você quer atrair investimento do setor privado, você precisa, obviamente, ter segurança jurídica”.

(Jader Filho, ministro das Cidades)

*Colaboraram: Déborah Lima, Fernanda Baldioti, Flávio Oliveira, Gisele Rech, Jordan Alves e Susana Gaião Mota.

Essa matéria foi publicada originalmente na revista EntreRios.

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