Imperial ou fino?

Porto ou Lisboa? Brasileiros entram na saudável rixa entre cidades

A velha disputa entre as cidades ganha sotaque brasileiro nas escolhas, paixões e pequenas competições do dia a dia

Manauara Laíssa Carvalho: “Eu sou tão feliz aqui no Porto que não sinto a menor necessidade de ir para Lisboa. Aliás, nem entendo quem vai”. Crédito: Laíssa Carvalho/Acervo pessoal

Por mais que os números digam muito, não dizem tudo. A capital Lisboa tem mais habitantes, mais turistas, maior Produto Interno Bruto (PIB). Porto, a segunda maior cidade do país, tem outro tipo de ativos, segundo os adoradores: alma, charme, calor humano.

A rivalidade entre as duas principais cidades de Portugal é antiga, cheia de versos, pratos típicos e provocações — algumas leves, outras nem tanto. A rixa, naturalmente, ganha o reforço dos imigrantes residentes, como os brasileiros, que se posicionam de um lado ou de outro, quase que com o mesmo fervor que os nativos.

“Quem chega, logo escolhe um lado”, afirma Laíssa Carvalho, manauara de 25 anos. “Eu sou tão feliz aqui no Porto que não sinto a menor necessidade de ir para Lisboa. Aliás, nem entendo quem vai”. E provoca: “Lisboa é bonita, mas o Porto tem personalidade. Lisboa quer ser Paris. O Porto é o Porto”.

A adesão emocional é quase automática. Como num clássico de futebol, do tipo Fla X Flu, ou numa disputa territorial, como entre as cidades brasileiras Rio de Janeiro X São Paulo, não basta morar ou gostar, é preciso torcer. E o Porto, para muitos, tem aura de time do coração: aguerrido, orgulhoso e um tanto rabugento, assim considerados por seus moradores serem mais diretos ao falar.

Ivan Lima, historiador recifense de 38 anos, caiu de amores pela Invicta, alcunha da cidade, logo na primeira visita. Além da identidade com o local, pesou, também, o estômago. “Prefiro a comida do Norte. É feita com muito molho, lembra uma refeição caseira. A bifana (bifes pequenos) do Norte é espetacular”.

Lisboa não deixa barato. Victoria Gama, alagoana de 31 anos, é do time da capital e defende seu território com unhas, dentes e bonde elétrico.

“Porto é bonitinho, tranquilo… uma mini-Lisboa. Gosto de visitar. Mas para viver? Não me vejo morando lá”. Para ela, a vida é mais vibrante do lado sul do Mondego. “Tem agito, tem tudo. É mais internacional, mais viva. Porto é meio parado”.

De fato, Lisboa concentra o maior número de turistas: mais de 19 milhões em 2023. A capital é um hub (ponto de conexão) global com cruzeiros, feiras, conferências, nômades digitais. O Porto recebeu menos visitantes, 5,9 milhões, mas se gaba da taxa de retorno. “Quem vem ao Porto se apaixona. Quem vai a Lisboa tira foto no elétrico e vai embora”, provoca Laíssa.

O paladar também divide as trincheiras. Francesinha x pastel de Belém. Tripas x bacalhau espiritual. Ginjinha x vinho do Porto. Já no futebol, o embate vira guerra santa. Ivan Lima é torcedor do Futebol Clube do Porto e tem lugar cativo no Estádio do Dragão.

Victoria, benfiquista moderada, tenta equilibrar, mas não resiste: “Lisboa tem três times grandes. O Porto tem um. Já diz muito”. No fundo, sabe que tocou em um nervo exposto e é isso que torna tudo mais divertido.

A carioca Ale Baeta, filha de portugueses, reconhece a rivalidade: “O bairrismo aqui é real, e os imigrantes entram na dança rapidinho”. Crédito: Raquel Henrique.

Ale Baeta, nascida no Rio de Janeiro, filha de portugueses e moradora de ambas as cidades, tenta jogar água no imbróglio. “Cada cidade tem seus encantos. O bairrismo aqui é real, e os imigrantes entram na dança rapidinho”. Ela trabalha como guia e criadora de conteúdo e vive ouvindo a pergunta inevitável: “Qual é melhor?”

“Depende do que você quer. Se quer vida noturna, eventos, gente de todo lado, vá para Lisboa. Se quer andar tranquilo, ver rio e tomar vinho bom, vai para o Porto”.

A rivalidade tem raízes profundas. O Porto se orgulha de ter dado nome ao país e de “fazer acontecer”. Lisboa, de ter sido corte, capital imperial, berço da fadista Amália Rodrigues e do poeta Fernando Pessoa. Os apelidos dizem tudo: o “alfacinha” lisboeta que quer dizer vaidoso, urbano. “Tripeiro”, cujo significado é resiliente, com estômago para tudo é o resumo do portuense.

E os preços? No Porto, ainda se consegue um apartamento de um quarto por 700 euros. Em Lisboa, esse valor às vezes não cobre nem o quarto em flat compartilhado com três alemães, dois franceses e um gato sueco. A capital cobra caro por sua fama. O norte resiste com certo orgulho.

Para turistas ou imigrantes, é sempre um dilema. A boa notícia é que não é preciso escolher para sempre. O trem Alfa Pendular liga Porto e Lisboa em três horas. Dá para comer francesinha, prato típico portuense, no almoço, pastel de Belém no lanche e ainda voltar a tempo de discutir quem ganhou o dia.

No fim, essa rivalidade é parte do charme. E, como toda boa briga de família, pode acabar num brinde. Ou num bate-boca sobre quem inventou a verdadeira receita de bacalhau à Brás. Saúde — ou “à nossa”, como dizem de norte a sul. Enfim, iguais.

Essa matéria foi publicada originalmente na revista EntreRios.

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