Portugal é o quarto país com mais registros de violência contra brasileiras no exterior
Iniciativa entre consulado brasileiro e organização da sociedade civil tem oferecido apoio direto às vítimas
A violência de gênero contra mulheres brasileiras que vivem fora do país é uma realidade silenciosa, mas persistente.
De acordo com o Mapa Nacional da Violência de Gênero, ferramenta criada pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) do Brasil, Portugal foi o quarto país com mais registros de violência doméstica ou de gênero contra brasileiras no exterior. Os dados, referentes a 2023, mostram que 127 mulheres denunciaram situações de violência em repartições consulares no país.
O levantamento contabilizou 1.556 registros formais em consulados brasileiros ao redor do mundo. A maioria dos casos ocorreu na Europa, com 945 notificações, seguida pela América do Norte (277), América do Sul (157), África (77), Ásia (55), Oriente Médio (24), Oceania (12) e América Central e Caribe (9). Entre os países com mais casos, estão Itália (350), Estados Unidos (240), Reino Unido (188) e Portugal (127).

A fim de combater esse cenário, o Consulado-Geral do Brasil em Lisboa lançou recentemente, em parceria com o Instituto Nós Por Elas, a Cartilha de Prevenção de Violências Contra Mulheres Brasileiras no Exterior. O material visa orientar brasileiras sobre como identificar situações de risco, onde buscar ajuda e quais os recursos disponíveis nas estruturas consulares.
“O Instituto Nós Por Elas é uma associação sem fins lucrativos, devotada a enfrentar a violência contra a mulher no Brasil e no mundo. Sabemos que brasileiras e estrangeiras são vítimas de violência e muitas vezes não sabem a quem procurar, como buscar amparo”, explica Natalie de Castro Alves, presidente da organização.
“O consulado tem um papel central e decisivo nesse tipo de acolhimento e redirecionamento às autoridades. Esse trabalho com embaixadas é primordial para salvar vidas e conscientizar sobre a importância da denúncia”, acrescenta.
Natalie destaca ainda que o Brasil pode servir de exemplo internacional no combate à violência de gênero:
“A Lei Maria da Penha é muito positiva e protetiva. Divulgamos essa legislação como modelo de inspiração para outros países.”
Em Lisboa, o embaixador Alessandro Candeas, cônsul-geral do Brasil, reforça que o apoio vai além do atendimento básico:
“Nós podemos oferecer, por exemplo, assistência psicológica, assistência jurídica e orientação institucional sobre o acolhimento às vítimas de violência. Há uma série de formas de apoio que temos oferecido à mulher brasileira aqui.”
A jornalista e ativista Vanessa Lapolli Medeiros, que atua em conjunto com a atriz e embaixadora da causa Luiza Brunet, ressalta a importância da atuação consular e de espaços de escuta:
“É importante que tenhamos essa rede de apoio, pessoas como o embaixador Candeas, que abriu as portas do consulado para levarmos sensibilização e informação às mulheres que estão passando por situações de risco.”
Ela também destaca o poder dos testemunhos e da representatividade:
“Quando uma mulher vê que outras — como eu e a Luiza, que somos sobreviventes de violência — conseguiram recomeçar, isso dá força. Dá esperança para que elas façam o primeiro passo, que talvez não as leve ainda para onde querem, mas que já tira do lugar onde estão. E isso é essencial.”
A campanha Sinal Vermelho contra a violência doméstica também foi oficialmente lançada em Portugal com a assinatura do termo de adesão junto à Embaixada do Brasil. A iniciativa tem Luiza Brunet como embaixadora global, promovendo a conscientização na Europa, ao lado de representantes locais como Vanessa Lapolli.
Em Lisboa, Luiza participou do lançamento institucional e de uma roda de conversa no Consulado-Geral. Ativista desde 2016, após denunciar agressões do ex-companheiro, ela destacou: “Nunca me senti tão bem, tão bonita como agora, podendo ajudar outras mulheres.”
A cartilha lançada pelo consulado em Lisboa está disponível online e gratuitamente.
Lisboa
Jornalista formada pelo Centro Universitário de Belo Horizonte e mestre em Jornalismo pela Universidade Nova de Lisboa. Atuou no jornal Estado de Minas, na Rede 98 e colaborou com a Folha de S.Paulo. Em Portugal, foi repórter da revista Brasil Já. Atualmente, é repórter e coordena as redes sociais da EntreRios.
- Últimas Notícias