Portugal pós-eleições: estabilidade exige diálogo
Vitória de Montenegro alivia o governo, mas torna imperiosa a decisão de compor à esquerda ou à direita pela governabilidade
As eleições legislativas de maio mantiveram no poder a Aliança Democrática (AD), coalizão de centro-direita liderada por Luís Montenegro. Ele ampliou o número de cadeiras na Assembleia da República, chegando a 89, mas ainda longe das 116 necessárias para governar com estabilidade.
Já o Chega, no extremo da direita, comemorou seu resultado expressivo, elegendo 58 deputados, ainda sem contar os votos dos portugueses no exterior, e afirmando-se como a segunda força política. O Partido Socialista (PS), que governou antes da AD, foi relegado a terceira força política.
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“Não vou parar até ser primeiro-ministro de Portugal”, empolgou-se André Ventura, embalado por um eleitorado disposto a buscar fora do espectro tradicional respostas para os problemas do dia-a-dia.
A retórica do Chega inclui posições duras em relação à imigração, entoando um refrão nacionalista que desconsidera a relevância dos investimentos e da mão de obra estrangeiros para a economia, especialmente em setores como construção civil, agricultura e turismo e para o equilíbrio demográfico.
Montenegro foi categórico ao afirmar que não fará alianças com o Chega. “Não é não”, repete, reforçando a recusa de um modelo como o italiano, onde a direita moderada se coligou com a extrema-direita.
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A governabilidade em Portugal exigirá negociações caso a caso com partidos mais alinhados com o governo como a Iniciativa Liberal, e com o PS, tradicionalmente o seu maior opositor, que perdeu 19 deputados e precisa encontrar um novo líder.
A imigração torna-se um tema ainda mais sensível com o avanço da direita. Montenegro tenta o caminho do meio ao dizer que as portas não estão “nem fechadas” nem “escancaradas”.
O seu anterior governo adiantou que vai notificar 18 mil ilegais para abandonarem o país. “Aqueles que não cumprirem as regras e estiverem em Portugal de forma ilegal, temos de os fazer regressar à sua origem”, disse à época.
Montenegro acusa o governo anterior, do PS, de descontrole, mas também critica o Chega. “Propusemos a criação de uma unidade de estrangeiros e fronteiras na PSP e novas regras para o retorno daqueles que estão cá de forma ilegal, e o Chega votou contra duas decisões que andou meses, se não mesmo anos a propor”, apontou.
A fragmentação do Parlamento em Portugal exigirá diálogo e responsabilidade institucional. Como sublinhou o dirigente: “Portugal é hoje um país com estabilidade económica, financeira e social; cabe a todos garantir também a estabilidade política”.
Para os imigrantes, especialmente brasileiros — mais de 400 mil com residência legal —, o cenário reforça a importância da participação cívica, da articulação comunitária e da busca por informação qualificada.
Esta coluna é parte da primeira edição da revista EntreRios, distribuída nas principais bancas de Portugal. Você também pode assinar e receber a publicação no conforto da sua casa, além de ler a publicação completa.
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