Em Lisboa, psicóloga brasileira lança livro com práticas para lidar com crises de pânico
Em Guia do autodomínio, Maria Klien compartilha ferramentas que uniram ciência e vivência pessoal no combate à ansiedade e crises de pânico
Lançado recentemente na Feira do Livro de Lisboa, Guia do autodomínio – para uma vida com mais autonomia reúne práticas que ajudaram a psicóloga brasileira Maria Klien a atravessar décadas de crises de pânico. Hoje radicada em Portugal, ela compartilha neste livro não apenas sua trajetória de superação, mas também ferramentas práticas para cultivar equilíbrio emocional.
Fruto da sua própria jornada de superação e da sua experiência clínica, o livro combina ciência, introspecção e práticas de autocuidado.
Em entrevista à EntreRios, ela conta mais sobre a obra e sobre suas dicas para superar as crises:
Você escreve que o pânico foi um “grande mestre” na sua vida. Em que momento percebeu que sua experiência precisava virar livro?
O livro foi escrito há dois anos, mas só agora senti que era a hora certa para publicá-lo. Tenho uma longa lista de espera no consultório e percebi que não conseguia atender a todos que buscavam ajuda. O livro surge como uma maneira de espalhar conhecimento e ajudar mais pessoas. A escrita também foi um processo terapêutico, um esvaziar de emoções e aprendizados.
A emoção é como água, que sempre encontra um caminho de saída. Se a gente não deixa a emoção percorrer o seu caminho, ela pode acabar encontrando um caminho que pode não ser tão bom, como uma doença psicossomática, uma explosão de raiva… Por isso, é importante que a gente possa guiar as emoções dentro de nós.
Sofri por mais de 20 anos com transtorno de pânico e, nesse tempo, não encontrei uma “guiança” clara. Passei por psicólogos, curandeiros, xamãs… mas ninguém reuniu esse conhecimento de forma simples e acessível. Então, fiz questão de escrever algo curto e direto.
Foram mais de duas décadas convivendo com a ansiedade. Como isso moldou a psicóloga e a mulher que você é hoje?
Essa travessia me moldou profundamente. No início, eu me sentia vítima da vida, perguntava por que comigo, por que tanto medo, tanta dor. Lembro da raiva, da revolta com Deus, ainda adolescente. Essa emoção intensa foi o ponto de virada — foi ali que começou minha transformação.
Mais tarde, estudando as emoções, entendi que a raiva é a única que tira a gente do papel de vítima. Foi ela que me despertou para a consciência de que não há erros na criação, apenas sincronicidade. Hoje vejo que o pânico foi um mestre, ainda que na época só houvesse dor.
Você se refere à cannabis medicinal como “medicina da esperança”. Como ela impactou o seu processo de cura?
A cannabis mudou completamente minha vida. Antes do tratamento, tomava três medicamentos diferentes e andava com Rivotril para todo lado. Na primeira semana usando o CBD, percebi que já não precisava mais dele — foi um choque perceber que eu estava saindo de casa sem medo, com autonomia.
Em cinco ou seis meses, com acompanhamento médico, deixei as outras medicações. Hoje tomo apenas CBD diariamente. Não quer dizer que deixei de ser ansiosa, mas hoje tenho ferramentas para lidar. Transformei a ansiedade em algo funcional, que me impulsiona. A cannabis me deu liberdade.
O livro tem uma linguagem acessível, cheia de metáforas e exercícios. Isso foi proposital?
Com certeza. Uma mente em sofrimento já está cheia de ruído. Trazer mais informações, mais complexidade, só piora. O livro foi pensado para ser simples e transformador — com práticas fáceis de aplicar, direto ao ponto.
Quando estamos vulneráveis, é nossa criança interior que se manifesta. E uma criança precisa de clareza, de um adulto presente, que a acolha e a guie. É isso que tento fazer com o livro: servir como um guia acessível para quem está nesse lugar de dor.
Entre as técnicas do livro, como o sopro que acalma ou o aterramento, qual foi a mais transformadora para você?
A respiração é, para mim, a ferramenta mais poderosa. Ela nos traz para o presente, onde a ansiedade não existe. Expandir o peito, respirar profundamente — tudo isso ajuda a ampliar também o nosso universo interno, abrindo espaço para mais sanidade.
Também uso muito a criatividade como aliada. A ansiedade e a criatividade compartilham caminhos semelhantes no cérebro. Por isso, criar, pintar, escrever ou cozinhar são formas práticas de transformar ansiedade em movimento. Elas nos resgatam.

O subtítulo do livro fala em “vida com mais autonomia”. O que significa conquistar autonomia emocional?
Autonomia emocional é recuperar o poder sobre a própria vida. A ansiedade nos limita, nos faz evitar situações, lugares e até pessoas. Aos poucos, ela vai nos sequestrando — e de repente percebemos que estamos vivendo dentro de uma bolha de medo.
Conquistar autonomia é ampliar de novo esse território interno e externo. Não significa eliminar a ansiedade, mas ter domínio sobre ela. Usar essa energia para criar, amar, se expor e viver com mais propósito.
Em tempos de redes sociais e excesso de estímulos, o que você recomenda para quem busca presença e menos ansiedade?
Cuidado com o que se consome. Somos criteriosos com quem deixamos entrar na nossa casa, mas nem sempre temos o mesmo critério com o que entra na nossa mente. As redes sociais muitas vezes mostram vidas irreais, que só aumentam a frustração.
Isso nos afasta da gratidão, que é uma emoção essencial para o bem-estar. Viver comparando-se com essas imagens idealizadas só gera mais sofrimento. Precisamos cultivar discernimento, responsabilidade e presença no que escolhemos colocar “para dentro”.
Você acredita que o autoconhecimento pode ser mesmo um antídoto para o pânico?
Sim. O autoconhecimento desperta o nosso adulto interior — e só ele é capaz de acolher, com verdade, a criança ferida que há em nós. Ele nos ajuda a visitar nossos “quartos internos”, inclusive os sombrios, com maturidade.
Conhecer-se é saber reconhecer os próprios limites, abraçar virtudes e lidar com fragilidades. Isso traz lucidez, segurança e um senso de direção que transforma. Quando conhecemos nossos mecanismos, passamos a ter mais sanidade para agir em momentos críticos.
Você vive hoje em Lisboa. O que te trouxe para Portugal e como tem sido sua atuação por aí?
Vim para cá com um convite de trabalho, mas também movida pelo desejo de oferecer mais segurança às minhas filhas. Lisboa representa um espaço onde consegui alinhar propósito profissional e pessoal.
Aqui, trabalho com desenvolvimento emocional, oferecendo ferramentas para que as pessoas encontrem mais equilíbrio e coragem. Acredito que o coração — o primeiro órgão a se formar — guarda as memórias mais profundas. Por isso, todo trabalho com trauma precisa passar também pelo corpo.
O lançamento do livro aconteceu na Feira do Livro de Lisboa. Como foi esse momento? E há diferenças culturais entre portugueses e brasileiros na forma de lidar com o pânico?
Foi um momento mágico. Fiquei emocionada ao ser convidada para encerrar a feira. Durante minha palestra, algumas pessoas em crise pararam para ouvir e ficaram até o fim. Isso me tocou profundamente.
Culturalmente, sim, há diferenças. O Brasil tem o samba como símbolo, Portugal tem o fado. O brasileiro expressa mais, o português muitas vezes fala da falta. Mas no sofrimento, nos igualamos. Ambos os países têm índices alarmantes de ansiedade. Somos seres complexos, compostos de muitas instâncias, e fazemos parte de um inconsciente coletivo maior, que ultrapassa fronteiras. No fundo, todos buscamos o mesmo: segurança, bem-estar e equilíbrio.
Jornalista com mestrado em Comunicação Social pela Uerj e mais de 15 anos de experiência em redação e edição de reportagens. Já atuou no jornal “O Globo”, é sócia do #Colabora – Jornalismo Sustentável e repórter da edição brasileira do portal Fashion Network. Na EntreRios, é repórter com foco em comportamento e lifestyle.
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