Robôs não amam e a inteligência artificial não faz terapia
O ChatGPT oferece boas sugestões gerais, mas não consegue captar nuances humanas nem particularizar situações complexas, limitando seu uso em diagnósticos
A IA, nomeadamente o ChatGPT, até parece desenvolver um raciocínio linear e pode dar boas sugestões de forma generalizada, mas não consegue particularizar, levando em conta acontecimentos aparentemente não correlativos entre si, que podem ser importantes para o diagnóstico.
A mente é extremamente complexa e, quando há traumas severos, o que parece nem sempre é. Nuances humanas, como ironias, também não são facilmente decifráveis por um computador.
Portanto, se decidir pedir ajuda à inteligência artificial, explique tudo com detalhes e contextualize bem para que o sistema o possa “ler” o mais fielmente possível.
Dizem que quem ama cuida, e os aplicativos de IA até parecem demonstrar “afeto virtual” com suas doces palavras, mas isso não é cuidar.
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Eles não podem oferecer recursos fundamentais da terapia como o calor humano, a regulação emocional através do outro, a provocação de determinadas perguntas ou silêncios que geram desconforto e fazem pensar. Além das informações que a voz, o corpo e os gestos nos trazem.
É a pessoa que fica no controle, que induz as perguntas, que interpreta as respostas do seu jeito. Além disso, a IA pode reforçar maus comportamentos, pois evita contrariar. E isso não cria desconforto, não obriga à socialização e também não gera crescimento emocional.
O que pretendo alertar é que este novo tipo de consulta é mais parecido com uma conversa com um bom amigo do que com terapia.
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Agora, se considerarmos que maioria das pessoas não dispõe de a recursos nem de tempo para fazer terapia, a IA é melhor do que nada.
Estima-se que quase 200 milhões de pessoas já usam aplicativos de Inteligência Artificial como suporte. A ideia mais razoável que posso aceitar, então, é que fazer terapia com IA é como fazer terapia consigo mesmo e se ouvir, o que já é bom.
Porque, mesmo que o chat não tenha a capacidade de nos confrontar, talvez, ao escutarmos nossa própria consciência, consigamos fazer isso.
Porém, como os próprios aplicativos sugerem, procure ajuda especializada em casos específicos. Imaginemos pessoas com distúrbios alimentares como obesidade ou anorexia, É impossível serem bem acompanhadas sem uma presença humana alguém que vê o corpo da outra pessoa e que fica atenta às alterações.
Então, confie no geral, mas desconfie do particular. O melhor, nos assuntos do emocional, é seguir o ensinamento do psiquiatra Carl Jung (1875-1961): “Ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.
Esta coluna é parte da terceira edição da revista EntreRios, distribuída nas principais bancas de Portugal. Você também pode assinar e receber a publicação no conforto da sua casa, além de ler a publicação completa.
Lisboa
Licenciou-se em Relações Internacionais na Universidade Técnica de Lisboa e fez mestrado em Jornalismo Internacional na Puc – São Paulo, entre outras formações.
Iniciou a sua carreira na TV SIC Notícias e foi correspondente Internacional da TVI no Brasil e outros países da América Latina.
Trabalhou na TV Globo Portugal no magazine cultural “Cá Estamos” e desenvolveu projectos dedicados ao canal em Portugal. É ainda autora de três livros.
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