Sarapatel

Sarapatel: músicos brasileiros reinventam o jazz em Lisboa

Grupo formado por músicos brasileiros usa o jazz como linguagem para reinventar clássicos e criar encontros improvisados no coração cultural de Lisboa

Todas as segundas, às 21h30, na Fábrica Braço de Prata. Crédito: Divulgação.

Na penumbra quente de uma segunda-feira em Lisboa, uma antiga sala da Fábrica Braço de Prata — um lugar que já foi quartel de munições, artilharia e engrenagens da Guerra do Ultramar — agora respira um outro tipo de pólvora: a das notas improvisadas, do sotaque atravessado pelo Atlântico, da arte que se mistura como quem tempera um prato afetivo.

É noite de Sarapatel.

E Sarapatel, ali, não é comida. É conceito. É manifesto. É encontro.

Em cena, Camila Masiso chega com o sotaque do Rio Grande do Norte aceso e indissimulável. Está na Europa há oito anos, mas continua carregando Natal na voz e no corpo. “A história do nome é essa mistura”, conta, rindo. Foi Maceió, o saxofonista, quem sugeriu o nome — algo que fizesse sentido “lá e cá”.

Porque é isso que o Sarapatel é: um grupo de músicos que vivem aqui, mas pertencem todos a algum lugar que nunca deixou de existir dentro deles.

A mistura, que já é genética, vira ritmo. Música brasileira reinterpretada com base jazzística, com uma ousadia que brota dos afetos.

“Esse projeto nasceu para tocar o que a gente não tocava em outros trabalhos”, diz Camila. Segunda-feira era o dia. A Fábrica abriu as portas. Nasceu ali, de uma vontade antiga, um repertório “do coração”: nomes grandes, clássicos reinventados, canções pouco comerciais e muita, muita experimentação.

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Camila tem mestrado em jazz e os outros músicos carregam também essa formação híbrida. “Jazz pra nós é experimentar”, ela explica. É por isso que o Sarapatel exige ensaio semanal.

Mas por mais que ensaiem, o grupo funciona como organismo de improviso.

“Esse friozinho na barriga… depois de tantos anos de palco, isso me faz querer mais”, confessa Camila, com brilho no olho.

A sala forrada de tecidos e livros antigos virou uma espécie de templo acústico. Não foi sempre assim: o espaço foi adaptado especialmente para acolher o projeto. Sentados em cadeiras próximas, poucos em pé, o público não apenas assiste — ele escuta.

No Sarapatel, até quem não fala português canta. Às vezes, canta sem palavras conhecidas. É apenas som se encontrando com som, uma entrega coletiva.

Ali, onde um dia funcionou a Fábrica de Projéteis de Artilharia hoje se produz outra forma de impacto: não o da guerra, mas o da arte.

Desde 2007, quando parte dos galpões foi convertida em centro cultural, a Fábrica Braço de Prata se tornou um espaço de experimentação permanente. O Sarapatel parece se encaixar com a naturalidade de uma memória reencontrada.

Na semana anterior à entrevista, um sapateado cruzou o palco improvisado. Camila lembra rindo: “A gente gosta muito dessa multidisciplinaridade”. E não é figura de linguagem. No Sarapatel, artistas surgem, entram, doam seu pedaço de mundo. Camila costuma até se afastar para observar: “Eu sento do lado e recebo a arte”.

Esse espírito aberto se repete na escolha dos repertórios. Democracia fértil, diz ela: cada integrante escolhe um tema, uma música, uma paixão. Às vezes o público também sugere. Às vezes os músicos discutem (“é azarenga!”, ela brinca). Mas o resultado tem sempre a cara de todos.

O desejo é grande: levar o Sarapatel pelo mundo. Ir ao Brasil, pela Europa, pela Ásia. “A gente gosta é disso: rodar!”, diz Camila, com a certeza de quem sabe que o projeto já encontrou sua identidade, seu público e sua força.

Na beira do Tejo, que tantas vezes se confunde afetivamente com o mar de casa, é noite de lua cheia. Os olhos de Camila brilham com o improviso, mas o corpo — assim como o da plateia — dança com aquilo que nasce ali, na hora, sem ensaio suficiente capaz de domar.

O Sarapatel é isso: um prato quente, uma memória nordestina, uma sala lisboeta, um jazz que atravessa continentes.

E como ela mesma disse, sorrindo, ao se despedir:

“Não é só vocês que estão EntreRios… a gente também está”.

Entre rios, entre países, entre vozes — entre o que se foi e o que ainda pode ser.

Segunda-feira que vem, a panela ferve de novo.

Lisboa

Jornalista com 20 anos de experiência e atuação em reportagens sobre violações de direitos humanos e políticas públicas. Possui experiência em pesquisa teórica e de campo, produção executiva, edição de texto, coordenação de equipe, planejamento estratégico e atuação em diferentes frentes do jornalismo e da comunicação em veículos como TV Globo, TV Brasil, CNN, RFI, Record e Band. Trabalha com storytelling e conteúdo para multiplataformas digitais, com experiência em televisão, documentários e comunicação organizacional no Brasil, Europa e Oriente Médio.

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