Saúde mental e imigração: por que muitos brasileiros demoram a buscar ajuda
O Setembro Amarelo lembra que priorizar a saúde mental salva vidas
Entre tabus, barreiras culturais e dificuldades financeiras, brasileiros em Portugal acabam adiando a procura por apoio psicológico, mesmo quando o sofrimento emocional já compromete a rotina.
Especialistas apontam os principais fatores que explicam essa demora e reforçam a importância de quebrar estigmas em torno da terapia.
Sinais de alerta: quando procurar apoio psicológico
Reconhecer o momento certo de buscar ajuda é essencial para evitar o agravamento dos problemas emocionais.
A psicóloga intercultural Thaís Gonzalez reforça que sinais como insônia persistente, crises de ansiedade recorrentes, tristeza prolongada, dificuldade de concentração, sensação extrema de isolamento e perda de prazer em atividades são indicadores claros da necessidade de acompanhamento.
Ela lembra ainda que a sensação de estar “travada”, sem conseguir avançar na vida no novo país, também é um alerta para buscar apoio profissional.
Já Priscila Angeli, especializada no atendimento a mulheres imigrantes, descreve uma lista abrangente de sinais: tristeza, ansiedade ou irritabilidade que não passam, isolamento social, insônia, cansaço constante, dores físicas sem explicação médica, mudanças bruscas no apetite e pensamentos de desesperança ou culpa excessiva.
Para ela, até mesmo estratégias de fuga, como “álcool em excesso, compras compulsivas ou passar horas excessivas nas redes sociais”, são alertas importantes. Angeli destaca que a diferença entre o que é normal e o que precisa de atenção está “na intensidade, duração e no quanto isso está impactando a vida diária do indivíduo”.
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A psicóloga Annachiara Moretti defende que a ajuda deveria ser buscada como prevenção, e não apenas em situações-limite. Mas alerta: a perda de interesse em atividades antes prazerosas, o excesso de isolamento e as dificuldades no dia a dia são sinais claros de que chegou a hora de procurar suporte.
Para ela, “Num mundo ideal, deveríamos buscar ajuda profissional como forma de prevenção e não esperar chegar no limite, mas ainda estamos caminhando nesse sentido”.
A psicóloga Kênia Nepomuceno alerta que sentimentos persistentes de tristeza e angústia, especialmente quando levam ao isolamento social e a mudanças no sono e na alimentação, não devem ser ignorados. Ela é enfática: “Buscar ajuda não é fraqueza — pelo contrário, é um ato de força!”.
Por que imigrantes adiam a terapia
Diversos fatores explicam a demora dos brasileiros em buscar apoio psicológico durante o processo migratório.
Segundo Kênia Nepomuceno, um dos maiores obstáculos é o tabu em torno da saúde mental. Muitos imigrantes sentem vergonha e chegam a pensar: “Estou em outro país, em um lugar bonito, como posso estar triste?”
Essa ideia, somada à dificuldade de encontrar profissionais que falem o mesmo idioma e compreendam as especificidades da imigração, acaba atrasando o cuidado.
A pressão de “dar certo” fora do país também pesa, aponta Thaís Gonzalez: “O que percebo que pesa muito também é a pressão de ‘dar certo’ fora do país.”
Segundo a psicóloga, o receio de voltar atrás, considerado por muitos como um fracasso pessoal, faz com que o sofrimento seja silenciado. A sensação de incoerência — “como posso estar sofrendo em algo que eu escolhi e que é o sonho de tanta gente?” — aprofunda ainda mais esse dilema.
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Priscila Angeli acrescenta que frases como “terapia é coisa de louco” ou “minha terapia é viajar” ainda reforçam os tabus. Mas, na prática, fatores objetivos também dificultam: o custo da terapia, a falta de informação sobre profissionais qualificados, as barreiras de idioma e a desconfiança em se abrir com alguém de outra cultura.
Entre mulheres imigrantes, ela percebe um padrão: priorizar questões práticas — trabalho, documentação, escola dos filhos — e deixar a saúde emocional para depois. Muitas só procuram apoio quando o sofrimento já afeta o sono, os relacionamentos ou a vida profissional.
Para Annachiara Moretti, outro fator é a crença de que se pode “deixar pra depois” o cuidado psicológico. Essa procrastinação, segundo ela, pode agravar quadros de ansiedade e depressão. Moretti lembra que a terapia deve ser encarada não como gasto, mas como “um investimento essencial em si mesmo”.

Onde buscar apoio em Portugal
Para quem deseja iniciar acompanhamento, há diferentes caminhos:
- Atendimento individual com psicólogos brasileiros: profissionais como Annachiara Moretti, Priscila Angeli, Thaís Gonzalez e Kênia Nepomuceno oferecem consultas online, adaptadas à realidade de imigrantes.
- Serviços públicos: o Serviço Nacional de Saúde (SNS) disponibiliza psicólogos em alguns centros de saúde, embora a procura seja alta e o acesso possa ser demorado.
- Associações de apoio a imigrantes: ONGs e coletivos, como associações brasileiras em Portugal, oferecem escuta e encaminhamento psicológico. A Casa do Brasil de Lisboa é uma delas:

“A experiência migratória é uma das mais intensas e transformadoras que alguém pode viver. Ela traz crescimento, mas também exige muito da saúde emocional. Ressalto sempre que pedir ajuda não significa que você ‘não está conseguindo’, mas sim que você está escolhendo cuidar de si nesse processo. Ninguém deveria enfrentar sozinho os desafios de se reinventar em outro país. A terapia pode ser um espaço seguro para elaborar perdas, fortalecer recursos internos e construir uma vida significativa, mesmo longe de casa”, reforça a psicóloga Thaís Gonzalez.
Setembro Amarelo
O Setembro Amarelo é uma campanha mundial dedicada à prevenção do suicídio e à valorização da vida. Todos os anos, milhares de pessoas enfrentam situações de sofrimento que podem levá-las a pensar em tirar a própria vida, mas a atenção aos sinais de alerta, o apoio da comunidade e o acesso a cuidados adequados fazem a diferença.
A prevenção é um esforço coletivo: profissionais de saúde, familiares, amigos e redes de apoio têm papel fundamental no acolhimento e no cuidado. A saúde mental deve ser tratada com a mesma prioridade que a saúde física. Depressão, ansiedade e outros transtornos podem ser prevenidos e tratados quando há informação correta, empatia e acesso a ajuda.
Se você está passando por um momento delicado ou conhece alguém em risco, procure apoio. Há caminhos possíveis, e pedir ajuda é sempre o primeiro passo.
Lisboa
Jornalista formada pelo Centro Universitário de Belo Horizonte e mestre em Jornalismo pela Universidade Nova de Lisboa. Atuou no jornal Estado de Minas, na Rede 98 e colaborou com a Folha de S.Paulo. Em Portugal, foi repórter da revista Brasil Já. Atualmente, é repórter e coordena as redes sociais da EntreRios.
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